O filósofo, a dor de dentes e o último suspiro de Deus 

Algu­res numa das suas obras, Sha­kes­pe­are afirma que ainda está para vir o filó­sofo que con­siga raci­o­na­li­zar paci­en­te­mente a sua pró­pria dor de den­tes. Uma boa dor de den­tes é, sem dúvida, algo que tira qual­quer um do sério. De facto, qual­quer dor deve­ria tirar qual­quer um do sério. Isso ape­nas não acon­tece gra­ças aos anes­té­si­cos e a todo o tipo de medi­ca­men­tos tão banais na nossa vida e que damos como garan­ti­dos. Mas, não foi sem­pre assim.

Há duzen­tos anos atrás, o ani­qui­lar da dor era algo de ainda incon­ce­bí­vel para o comum dos homens e mulhe­res mesmo nas soci­e­da­des mais avan­ça­das. Hoje, feliz­mente, já não é assim. Con­tudo, há ainda um grande cami­nho a per­cor­rer até que os meca­nis­mos de dor, sem dúvida indis­pen­sá­veis à nossa evo­lu­ção enquanto espé­cie natu­ral, sejam com­ple­ta­mente erra­di­ca­dos da vida de todo o ser humano. Isto pode pare­cer absurdo, mas não era absurdo tam­bém há duzen­tos anos atrás a erra­di­ca­ção das mai­o­rias das dores que uma pequena dose de ácido ace­til­sa­li­cí­lico obtém com a maior das facilidades?

Deus, o eterno mise­ri­cor­di­oso, viu-se assim ultra­pas­sado na sua bene­vo­lên­cia e mise­ri­cór­dia por um pequeno com­pri­mido branco. Mas, o que nos impede hoje de ir muito mais longe e erra­di­car com­ple­ta­mente a dor das nos­sas vidas, quer se trate de dor física ou de dor psi­co­ló­gica? O que nos impede de atra­vés de quí­mi­cos, implan­tes, pró­te­ses ou sis­te­mas híbri­dos de aca­bar de vez com o fardo desta con­di­ci­o­nante imposta pela evo­lu­ção? Os que pen­sam como eu res­pon­de­rão “nada”! Os que não pen­sam como eu arran­ja­rão um bom punhado de argu­men­tos fala­ci­o­sos, vali­da­dos sem­pre e em última ins­tân­cia por uma mora­li­dade cristã de res­peito e vene­ra­ção ao sofri­mento, essa espé­cie de com­bus­tí­vel fós­sil da fé.

Mas, a minha espe­rança é grande; a minha espe­rança anseia que daqui a duzen­tos anos as dife­ren­ças no con­trole da dor sejam ainda mai­o­res do que de há duzen­tos anos para cá. Tenho espe­rança que a pró­pria ética médica deixe de que­rer pro­lon­gar a vida a todo o custo e dê sem­pre pri­o­ri­dade à erra­di­ca­ção da dor; tenho espe­rança que, seja por que método for, exista uma gera­ção de seres huma­nos que ape­nas conheça a dor por defi­ni­ção; tenho espe­rança que as lágri­mas que se ver­tam sejam ape­nas sal­ga­das de feli­ci­dade e não de dor. Quando esse dia che­gar deve­re­mos todos fazer um pequeno momento de silên­cio e ouvir o último sus­piro de Deus. Por­que quando a dor desa­pa­re­cer, um falso mise­ri­cor­di­oso dei­xará de fazer qual­quer sentido.