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  • Kátia Garcia 29 de July de 2013, às 22:56 Permalink | Responder
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    O Brasil e o Papa 

    Papa Francisco

    Ter­mi­nou ontem, 28/07, a Jor­nada Mun­dial da Juven­tude com uma lota­ção de 3 milhões de pes­soas aglo­me­ra­das na praia de Copa­ca­bana para a vigí­lia e a missa de encer­ra­mento da visita do Papa Fran­cisco. Foi uma semana agi­tada para o Rio de Janeiro. Entre pro­tes­tos, ten­ta­ti­vas de ali­ci­a­ção de polí­ti­cos vários e um mar de jovens fieis, o Papa enfren­tou chuva, bei­jou mui­tos bebês, escu­tou denún­cias, cutu­cou pode­ro­sos e deu um show. Um não, vários. É pre­ciso admi­tir o talento e o carisma deste senhor sor­ri­dente. O tão espe­rado bebê real quase desa­pa­re­ceu entre tan­tas fra­ses de efeito dis­pa­ra­das pelo Papa mais pop que o Bra­sil já viu.

    Os efei­tos desta visita espe­ta­cu­lar que cus­tou mais de 100 milhões de reais aos cofres públi­cos, fora o inves­ti­mento da pró­pria Igreja, não devem aca­bar com o fim da Jor­nada. O Papa fez diver­sos ape­los pelo “Ide e pre­gai o evan­ge­lho por todas as nações”. Este foi o ponto cen­tral de todo o encon­tro: rea­vi­var a fé e a con­fi­ança para evan­ge­li­zar. Aos bis­pos e padres foi expres­sa­mente ori­en­tado que fos­sem às fave­las, aos mise­rá­veis, levar o evan­ge­lho, que vol­tas­sem seus esfor­ços para os pobres e os enfer­mos nova­mente. Aos jovens, pediu que fos­sem para as ruas, que pro­tes­tas­sem, que fos­sem revo­lu­ci­o­ná­rios, que mudas­sem o futuro atra­vés de um com­pro­misso sério com deus con­tra a cul­tura do pro­vi­só­rio e do relativismo.

    Em para­lelo estou­ra­vam pro­tes­tos por todos os lados, uns ten­ta­vam falar com o Papa, outros, con­tra ele. Houve bei­jaço gay já na pri­meira apa­ri­ção do Papa, pro­tes­tos con­tra o gover­na­dor Sér­gio Cabral e a cor­rup­ção e mar­cha das vadias con­tra o Esta­tuto do Nas­ci­turo e a pela des­cri­mi­na­li­za­ção do aborto. Havia inú­me­ros gru­pos de pro­tes­tos, a mai­o­ria indi­fe­rente à pre­sença do Papa, fazendo uso ape­nas do alcance inter­na­ci­o­nal da imprensa que cobria o evento. Tam­bém acon­te­ce­ram mani­fes­ta­ções em outras cida­des mobi­li­za­das em apoio con­tra a repres­são sofrida pelos que se mani­fes­ta­ram con­tra Cabral no dia da che­gada do Papa. Houve con­fronto com a polí­cia, pri­são de dois repór­te­res inde­pen­den­tes que cobriam o pro­testo, denún­cias de poli­ci­ais infil­tra­dos que teriam lan­çado molo­tov con­tra o pelo­tão de cho­que e muita con­fu­são. A popu­la­ri­dade do gover­na­dor che­gou a 12% essa semana. O Papa res­pon­deu a esta e outras mobi­li­za­ções dizendo que os polí­ti­cos pre­ci­sam ouvir os jovens e aler­tou para o perigo de ten­tar mani­pu­lar essa força que os faz que­rer mudanças.

    A igreja evan­gé­lica tam­bém pro­mo­veu encon­tros em diver­sos locais do país. Em Rondô­nia líde­res evan­gé­li­cos fize­ram o culto de domingo ao ar livre, reu­nindo 50 mil pes­soas nas ruas da cidade. Gran­des igre­jas pro­mo­ve­ram con­fe­rên­cias e encon­tros vol­ta­dos para os jovens, como res­posta à mobi­li­za­ção cató­lica, mas entre o Papa e o bebê real, a visi­bi­li­dade des­tes encon­tros foi mínima. Em um país onde a igreja evan­gé­lica tira fôlego para con­quis­tar novos fieis do aban­dono em que estes se encon­tram den­tro de suas igre­jas cató­li­cas, a visita do Papa e suas ori­en­ta­ções aos padres e bis­pos do Bra­sil pode jogar água fria no cres­ci­mento ver­ti­gi­noso do pro­tes­tan­tismo. A visita do Papa tinha o obje­tivo claro de res­ga­tar o empe­nho dos líde­res reli­gi­o­sos, reli­gar as ove­lhas aos seus pas­to­res e rea­ni­mar a tra­di­ção cató­lica em meio a drás­ti­cas mudan­ças sociais.

    A JMJ é um evento espe­ci­al­mente vol­tado para os jovens. No Bra­sil a juven­tude tinha se tor­nado a prin­ci­pal porta de saída da reli­gião cató­lica e o Papa diri­giu pedi­dos espe­ci­ais para que os jovens cató­li­cos não se aca­nhem e saiam para fazer dis­cí­pu­los e para que os padres vol­tem a ser mis­tu­rar com os fieis, ter con­tato pes­soal com eles.  Em entre­vista, Fran­cisco fez reve­rên­cia a este aban­dono com­pa­rando a Igreja a uma mãe que só se comu­nica com o filho por car­tas, apon­tando a falta de con­tato e afeto como causa do esfri­a­mento da fé em todo o globo. Sua fun­ção será rea­pro­xi­mar mãe e filho, trans­for­mar docu­men­tos em abra­ços, impri­mir na Igreja as carac­te­rís­ti­cas que lhe são tão familiares.

    Com rela­ção à Igreja o Papa fez várias decla­ra­ções inte­res­san­tes e o ponto comum é sem­pre a Reforma. Fran­cisco cha­mou aten­ção para a neces­si­dade da Igreja se rein­ven­tar para acom­pa­nhar a His­tó­ria, disse que desde a Idade Média é comum ouvir crí­ti­cas dizendo que a Igreja pre­cisa mudar, por­que ela pre­cisa ser dinâ­mica para per­ma­ne­cer inse­rida no con­texto social da época. Apon­tou a neces­si­dade de uma reforma pro­funda e de grande seri­e­dade na cúria romana, segundo ele, uma parte de extrema impor­tân­cia para a Igreja e por isso mesmo tão sus­ce­tí­vel a crí­ti­cas, quanto a erros huma­nos por parte de seus inte­gran­tes. Apro­vei­tou para dizer que uma árvore que cai faz mais baru­lho que um bos­que inteiro cres­cendo, ao se refe­rir aos escân­da­los em que a Igreja se envol­veu e às boas ações de car­de­ais, bis­pos, padres e lei­gos san­tos que dão a vida pela Igreja todos os dias, mas não são percebidos.

    O tom da JMJ foi de revo­lu­ção. Segundo Fran­cisco, um jovem que não pro­teste, que não tenha uto­pias a defen­der, não o agrada. Ele chama o jovem para tra­zer sua uto­pia para a Igreja, para ter cora­gem e ir às ruas, para empres­tar sua ener­gia para a evan­ge­li­za­ção dos pobres e para mudar o mundo fazendo revi­ver os valo­res morais do cris­ti­a­nismo que estão sendo subs­ti­tuí­dos pela satis­fa­ção ime­di­ata e pro­vi­só­ria. Fran­cisco parece ter sido esco­lhido a dedo para reju­ve­nes­cer essa ins­ti­tui­ção mile­nar que pare­cia estar pres­tes a mor­rer de velhice. Entre­tanto, se por reju­ve­nes­ci­mento enten­de­mos a assi­mi­la­ção das novas deman­das soci­ais, como acesso a con­tra­cep­ti­vos e cami­si­nhas, casa­mento homo-afetivo, células-tronco e outras “moder­ni­ces”, então este Papa ainda “não nos representa”.

    Fran­cisco dei­xou claro quais são os valo­res da Igreja; ele quer levar comida, edu­ca­ção e saúde a todos os pobres, enfer­mos e aban­do­na­dos do pla­neta. Ele quer que os jovens vol­tem a crer no casa­mento eterno, na vir­gin­dade e na pureza. A revo­lu­ção que Fran­cisco quer pro­mo­ver pode até com­par­ti­lhar algu­mas pala­vras com a outra revo­lu­ção que acon­tece em para­lelo, no mundo secu­lar, mas o con­texto e o sen­tido des­tas pala­vras é outro e inverso. A Revo­lu­ção que o Papa quer é na ver­dade uma Resis­tên­cia. O que ele deseja é que a Igreja mantenha-se como pedra firme e aproveite-se da inse­gu­rança que momen­tos de inde­fi­ni­ção des­per­tam nas pes­soas para atraí-las.

    Rom­pendo com a filo­so­fia de seu pre­de­ces­sor, que acre­di­tava que a Igreja não deve­ria ceder à pres­são de trans­for­mar as mis­sas em shows da fé, Fran­cisco deu mesmo um grande show. Assim como na igreja evan­gé­lica, a sen­sa­ção, seja ela ale­gria, empol­ga­ção, ansi­e­dade ou o que quer que mobi­lize as pes­soas, foi o ele­mento cen­tral para pro­mo­ver o rea­vi­va­mento da fé e a Jor­nada pro­vo­cou mesmo mui­tas sen­sa­ções em seus fieis. Sem dúvida ele se des­pede de um Bra­sil dife­rente do que encon­trou em sua che­gada e trouxe para a Igreja a auto­ri­za­ção que ela espe­rava para dar o pró­ximo passo na eterna luta pela sobre­vi­vên­cia do cato­li­cismo: a incor­po­ra­ção das sen­sa­ções na pro­mo­ção da fé. A par­tir de agora o cató­lico tam­bém poderá dizer que sente o mover de Deus, sem pre­ci­sar enquadrar-se como caris­má­tico, termo que mais divi­diu do que refor­çou a Igreja em seu pri­meiro encon­tro com o neo-pentecostalismo das Amé­ri­cas há déca­das atrás.

    O Papa fez um apelo para que a soci­e­dade não exclua os extre­mos da cadeia pro­du­tiva, as cri­an­ças, os jovens e os ido­sos, em nome do dinheiro, apon­tando um “huma­nismo desu­mano” como motor deste estado de coi­sas. Por fim Fran­cisco zelou pelo diá­logo entre todas as cren­ças em prol do bem comum. Pediu que todos, den­tro de suas pró­prias cren­ças, rom­pes­sem com o egoísmo e a indi­fe­rença, supe­rando suas dife­ren­ças e bus­cando aju­dar o pró­ximo, espe­ci­al­mente os mais caren­tes. Antes de ir ele dei­xou dois che­ques de 20 mil euros, um para a favela de Var­gi­nha, a ser apli­cado con­forme deci­são dos mora­do­res e outro para o Hos­pi­tal São Fran­cisco apli­car em seu cen­tro de recu­pe­ra­ção de depen­den­tes de dro­gas que está para ser inau­gu­rado. Var­gi­nha rece­be­ria a vigí­lia que foi trans­fe­rida às pres­sas para Copa­ca­bana por causa das chu­vas que trans­for­ma­ram o Campo da Fé em um enorme lamaçal.

    A con­clu­são a que se chega com esta pri­meira via­gem do Papa para encontrar-se com seus fieis é que pode­mos espe­rar gran­des mudan­ças para a ICAR nos pró­xi­mos anos. Sua revo­lu­ção, no entanto, não se mira nos anseios que pre­ten­dem fazer do futuro um lugar onde a diver­si­dade é o motor da igual­dade, mas no eterno desejo cris­tão de trans­for­mar toda diver­si­dade em igual­dade a par­tir de um modelo ideal a ser imi­tado. Resta saber se no mundo da inter­net e do turismo, 7 bilhões de indi­ví­duos dis­tin­tos pode­rão ser enqua­dra­dos a par­tir de um só modelo, mesmo com toda a ener­gia revo­lu­ci­o­ná­ria que os jovens cató­li­cos têm a oferecer.

    Kátia Gar­cia

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  • Kátia Garcia 10 de January de 2013, às 17:37 Permalink | Responder
    Etiquetas: ciência, , , sociedade, tecnologia   

    Só sei que nada sei 

    bebê robô

    Hoje

    O desen­vol­vi­mento de ins­tru­men­tos de pes­quisa cada vez melho­res nos faz avan­çar inces­san­te­mente na obser­va­ção de incon­tá­veis fenô­me­nos. Pro­du­zi­mos conhe­ci­men­tos de tudo quanto é tipo a todo momento, mas enfren­ta­mos hoje alguns pro­ble­mas fun­da­men­tais que atra­van­cam a comu­ni­ca­ção entre o saber e as pes­soas. No meio deste intrin­cado de agra­van­tes está o excesso de infor­ma­ções espe­cí­fi­cas, a inco­mu­ni­ca­bi­li­dade entre dis­ci­pli­nas do conhe­ci­mento e o con­fronto entre a ciên­cia e os inte­res­ses dos poderosos.

    Uma das con­sequên­cias do sis­tema de pen­sa­mento que desen­vol­ve­mos nos últi­mos sécu­los foi cate­go­ri­zar exces­si­va­mente os conhe­ci­men­tos. Aquela ali­e­na­ção do tra­ba­lho, velha conhe­cida da soci­o­lo­gia, foi repas­sada ao conhe­ci­mento à medida em que este ia se trans­for­mando em capi­tal. O saber tornava-se cen­tra­li­zado no espe­ci­a­lista e con­tro­lado pelo dono da ins­ti­tui­ção de pes­quisa. Aos subor­di­na­dos é dado saber ape­nas o neces­sá­rio para a exe­cu­ção de tare­fas pré-determinadas. Ao público geral resta o ponto de vista do repór­ter sem qual­quer for­ma­ção cien­tí­fica que foi obri­gado a ler o artigo em outra lín­gua para fazer a repor­ta­gem de meia página resu­mindo anos de estudo.

    Hoje temos inú­me­ras pes­qui­sas sobre os mais vari­a­dos temas, mas nem sem­pre elas se encon­tram, se com­ple­men­tam e assim o conhe­ci­mento per­ma­nece mal apro­vei­tado, com apli­ca­ções prá­ti­cas limi­ta­das pela com­pre­en­são frag­men­tada. Como con­sequên­cia, a par­cela do conhe­ci­mento adqui­rido que é repas­sada à popu­la­ção se fixa con­forme seu alcance publi­ci­tá­rio e fica­mos com a sen­sa­ção de que a ciên­cia se des­mente o tempo todo, quando na ver­dade o que falta é inte­gra­ção dos resul­ta­dos já obti­dos, melhor revi­são por pares ou excesso de inte­res­ses polí­ti­cos defor­mando a infor­ma­ção. Sabe­mos muito, mas não sabe­mos o quanto.

    Ontem

    Se por um lado, tive­mos Da Vinci e outros multi-pesquisadores que dis­cor­riam livre­mente entre diver­sas ciên­cias, hoje temos um ema­ra­nhado de téc­ni­cos que mal com­pre­en­dem sua pró­pria fun­ção. Este estado de coi­sas nada prá­tico nos leva a crer que ainda não encon­tra­mos uma maneira efi­caz de nos orga­ni­zar a par­tir das mudan­ças que a ele­tri­ci­dade trouxe con­sigo. Na ver­dade, ainda não che­ga­mos sequer à esta­bi­li­dade de con­cei­tos, uma vez que a qual­quer momento surge uma nova tec­no­lo­gia que muda o modo como fazía­mos algo ou com­pre­en­día­mos deter­mi­nado assunto.

    Vin­dos de um sis­tema que res­pon­dia a tudo (embora fan­ta­si­osa, a res­posta reli­gi­osa acalma a angús­tia), ainda não ven­ce­mos nem o hábito de lan­çar mão de con­jec­tu­ras para pre­en­cher lacu­nas, nem o de per­ma­ne­cer tem­po­ra­ri­a­mente sem res­posta. E pior ainda, iden­ti­fi­ca­mos o papel do cien­tista ao do antigo xamã deci­fra­dor de mis­té­rios. Essa iden­ti­fi­ca­ção, no ima­gi­ná­rio popu­lar, dis­tan­cia a rea­li­dade, pois o pró­prio cien­tista mui­tas vezes ainda se con­funde, des­con­si­dera suas emo­ções, seus dese­jos e expec­ta­ti­vas e acaba “con­ta­mi­nando” com elas seus resul­ta­dos. Por outro lado, o povo não per­doa um erro divino, acos­tu­mado que está a submeter-se às intran­si­gên­cias das divin­da­des, aceita mal os recuos e revi­sões que a ciên­cia faz sobre si mesma, desacreditando-a como se esta já esti­vesse pronta e con­cluída em defi­ni­tivo e um erro fosse a prova de sua fali­bi­li­dade radical.

    Povo, cien­tista, reli­gi­oso ou polí­tico, o fato é que ainda não con­se­gui­mos com­pre­en­der bem o que se passa. Seguem todos inse­gu­ros, inde­ci­sos, inde­fi­ni­dos. Os “tomos” gene­ra­li­za­do­res que o séc. XIX tor­nou popu­la­res, mostraram-se ato­la­dos em equí­vo­cos, mas à guisa de outras fon­tes e diante da ausên­cia de conhe­ci­mento frente às novas tec­no­lo­gias, per­ma­ne­ce­mos nos refe­rindo a eles como fon­tes legí­ti­mas do conhe­ci­mento, quando na ver­dade o pró­prio fun­ci­o­na­mento cere­bral do ser humano hoje é dife­rente do que havia quando tais tomos foram escritos.

    Para citar um exem­plo sem ofen­der mui­tas clas­ses (des­cul­pem, ami­gos psi­ca­na­lis­tas!), vou usar Freud. Médico, Freud estu­dou hip­nose, lan­çou mão de subs­tân­cias psi­co­a­ti­vas e desen­vol­veu todo um método de tra­ta­mento fun­da­men­tado em uma teo­ria ino­va­dora sobre o fun­ci­o­na­mento psí­quico do homem do séc. XIX. Mas Freud não conhe­ceu a tele­vi­são, o con­trole remoto, o com­pu­ta­dor, a inter­net, as câme­ras de segu­rança, a mini-saia, o topless, o movi­mento LGBT, a igreja uni­ver­sal, o inter­rup­tor de parede, o carro a duzen­tos por hora, o trem bala, a pro­pa­ganda no Japão, a vida na Índia, na China, no Bra­sil… Sem estes conhe­ci­men­tos é impos­sí­vel dizer que sua teo­ria teria per­ma­ne­cido a mesma, pois as variá­veis às quais as soci­e­da­des metro­po­li­ta­nas dos anos 2000 res­pon­dem são muito dife­ren­tes daque­las a que a soci­e­dade vie­nense do final do século XIX estava submetida.

    A cul­tura da informação

    As pes­qui­sas que desen­vol­ve­mos depois de Freud já iden­ti­fi­ca­ram genes da esqui­zo­fre­nia, cri­a­ram tra­ta­men­tos quí­mi­cos para com­pul­sões e tris­te­zas crô­ni­cas, mape­a­ram o cére­bro de diver­sos indi­ví­duos, rede­fi­ni­ram pro­ces­sos, iden­ti­fi­ca­ram variá­veis que ele não con­si­de­rou como a influên­cia da ali­men­ta­ção no humor ou na apren­di­za­gem. Desde sua época a ciên­cia pro­du­ziu cen­te­nas de novas infor­ma­ções acerca do fun­ci­o­na­mento cere­bral, da cons­ci­ên­cia e da cog­ni­ção. É certo que o conhe­ci­mento cien­tí­fico ainda levará um tempo para ser reu­nido de forma inte­grada e coe­rente, mas  mesmo assim, a soci­e­dade da infor­ma­ção tor­nou o conhe­ci­mento aces­sí­vel a quem qui­ser. Basta-nos exer­ci­tar nos­sas capa­ci­da­des de sín­tese e crí­tica. O que nem sem­pre dá bons resul­ta­dos, diga-se de passagem…

    O homem moderno não se tor­nou cético por um movi­mento refle­xivo acerca de sua his­tó­ria. O ceti­cismo moderno é rea­tivo. Duvi­da­mos por­que já acre­di­ta­mos em tanta “pro­pa­ganda” errada ou diversa que fica­mos meio rece­o­sos de mudar de pos­tura por mais um conhe­ci­mento que mudará em breve. Não fomos esti­mu­la­dos, trei­na­dos para “ouvir tudo e reter o que é bom” e nesse dilú­vio de infor­ma­ções, nos vemos pela pri­meira sem uma ver­dade a pri­ori, tendo que deci­dir por nós mes­mos em que acreditar.

    O Estado laico e o indi­ví­duo responsável

    De certa forma, ao tornar-se laico e dei­xar de pri­vi­le­giar uma teo­ria sobre todas as outras, o Estado lan­çou o homem na angús­tia exis­ten­cial sar­tri­ana, mas num âmbito social. Enfren­ta­mos hoje, per­di­dos na mul­ti­dão, o deses­pero, o desam­paro e a angús­tia carac­te­rís­ti­cos dos que aban­do­na­ram as ver­da­des abso­lu­tas. O Estado dei­xou de ser divino e sem pode­res atem­po­rais que jus­ti­fi­quem arbi­tra­ri­e­da­des, a pró­pria cons­ti­tui­ção, o código moral do Estado, tornou-se ana­crô­nica. Já não é pos­sí­vel deter­mi­nar as leis con­forme as pre­fe­rên­cias pes­so­ais de um gover­nante ado­les­cente. É neces­sá­rio baga­gem, com­pe­tên­cia, evi­dên­cias e muita ora­tó­ria para obter o apoio da mai­o­ria da população.

    Sem refe­rên­cias sagra­das vemos sur­gir os mes­mos movi­men­tos comuns aos perío­dos em que a iden­ti­dade do ser humano entra em crise: gru­pos fun­da­men­ta­lis­tas con­ser­va­do­res lutam deses­pe­ra­da­mente para man­ter de pé o que gru­pos rebel­des insis­tem em sacu­dir. Há, no entanto, uma dife­rença do que até então acon­te­cia: desta vez não há UM pen­sa­mento hegemô­nico que reforce e garanta van­ta­gens à cor­rente con­ser­va­dora. O pró­prio con­ser­va­do­rismo está já radi­cal­mente par­tido em várias teo­rias que se rejei­tam mutu­a­mente, evi­tando uma coo­pe­ra­ção efi­ci­ente entre todos os seus braços.

    A ampli­a­ção do conhe­ci­mento criou cisões até nos seto­res mais uni­fi­ca­dos. A vari­a­bi­li­dade é tão grande, os encon­tros e as tro­cas cul­tu­rais tão fre­quen­tes, que tal­vez seja justo cha­mar nossa época de subatô­mica, fazendo uma ana­lo­gia com aquele átomo que o século XIX acre­di­tava ser a menor de todas as par­tí­cu­las. Hoje ele ganhou novos peda­ci­nhos, sabo­res, dire­ções… Des­co­bri­mos que den­tro do menor há mui­tos outros meno­res. São tan­tas as dimen­sões do mundo subatô­mico que mal lem­bra­mos do átomo em si. Entre­tanto, a inter­de­pen­dên­cia das par­tes e seu impacto no com­por­ta­mento do todo estão cada vez mais cla­ras e inegáveis.

    Ama­nhã

    Cri­a­mos uma soci­e­dade glo­bal regida por uma espé­cie de efeito bor­bo­leta que inte­gra todas as peque­nas soci­e­da­des em um todo que ainda não sabe­mos bem como fun­ci­ona, mas que quando algo não vai bem em alguma parte, todos aca­ba­mos mais ou menos afe­ta­dos. O que carac­te­riza esse iní­cio de século é que a fron­teira que divi­dia os gru­pos soci­ais alcan­çou a atmos­fera e esvaziou-se. Sem que­rer uni­fi­ca­mos o orga­nismo social humano de tal maneira que agora a deci­são tomada em Tóquio, Washing­ton ou qual­quer outra “capi­tal polí­tica” pode inter­fe­rir dire­ta­mente na qua­li­dade de vida do resto do mundo.

    A rea­li­dade que cri­a­mos urge que faça­mos as pazes com nós mes­mos e vol­te­mos a nos ver como espé­cie única para que pos­sa­mos resol­ver os pro­ble­mas que cri­a­mos quando éramos mui­tas cate­go­rias dife­ren­tes de iguais. Assim como o conhe­ci­mento já não pode­mos nos sus­ten­tar com cate­go­rias que já não fazem sen­tido. Não há limi­tes reais entre a física, a quí­mica e a bio­lo­gia, assim como entre euro­peus, asiá­ti­cos e afri­ca­nos ou budis­tas, cris­tãos e umban­dis­tas. São ape­nas cate­go­rias que já não expli­cam a diver­si­dade em seu pró­prio interior.

    A glo­ba­li­za­ção não trata ape­nas de um fenô­meno econô­mico. Pode­mos per­ce­ber refle­xos deste movi­mento inte­gra­ci­o­nista em tudo o que é humano. Da arte à medi­cina, da tele­vi­são à gela­deira. Os limi­tes, em pou­cas déca­das, se redu­zi­ram a uma ques­tão de tempo. Pas­sa­mos daquele momento his­tó­rico em que era pre­ciso reco­nhe­cer que não sabía­mos. Sabe­mos. Sabe­mos até que não sabe­mos tudo. Mas tal como uma bola de neve que já vai mon­ta­nha abaixo, atin­gi­mos um ponto sem volta e daqui para a frente o desen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico deter­mi­nará mudan­ças cul­tu­rais drás­ti­cas, quer este­ja­mos pre­pa­ra­dos para elas, quer não. Bem vin­dos aos século XXI, o lugar onde cada gesto conta.

    Adap­ta­ção de parte do texto “O desen­vol­vi­mento do pen­sa­mento humano II — a tra­je­tó­ria do pen­sa­mento cien­tí­fico”.

    Para saber mais sobre as for­mas de pen­sa­mento que deram ori­gem à ciên­cia, leia tam­bém “O desen­vol­vi­mento do pen­sa­mento humano — da magia à ciên­cia”.

     
    • ana 6 de Janeiro de 2014, às 23:04 Permalink | Responder

      eu aco mais sabi ger seti robo muto tepo mias e tereste

    • ana 6 de Janeiro de 2014, às 23:06 Permalink | Responder

      hoje eu sabe ger esta robo mias e inter­sate a ciens chabe mais e voluc­çao dia­mais eu jovem sabim diso

  • Kátia Garcia 28 de December de 2012, às 10:39 Permalink | Responder
    Etiquetas: , , ética, sociedade   

    O bicho-homem, o homem-deus e nossos demônios 

    Homem colorido

    Sabe aque­les dias em que acor­da­mos um pouco mais irri­tá­veis e, coin­ci­den­te­mente, tro­pe­ça­mos com a estu­pi­dez humana da manhã até à noite? Espa­ços dedi­ca­dos a se extra­va­sar em dias de fúria deve­riam ser ques­tão de saúde pública. A soci­e­dade moderna reti­rou do Homem tudo o que era ins­tin­tivo e não deu nada em troca. Pelo menos nada à altura! Ine­vi­tá­vel lem­brar do mito da caverna. Tro­ca­mos o real pelo sim­bó­lico com uma cer­teza ina­ba­lá­vel de que este é o único cami­nho para nos tor­nar­mos ple­na­mente humanos.

    O coti­di­ano humano con­siste em ir de um cubí­culo a outro, den­tro de um pequeno cubí­culo com rodas, sem­pre com nos­sos óculos escu­ros e pro­te­to­res sola­res, ater­ro­ri­za­dos com os efei­tos noci­vos do nosso pri­meiro deus, o Sol. Quando que­re­mos nos exer­ci­tar, pega­mos nos­sos cubí­cu­los moto­ri­za­dos para irmos a cubí­cu­los cheios de fer­ros e espe­lhos para pra­ti­car­mos movi­men­tos mime­ti­za­dos e repe­ti­ti­vos com toda  a seri­e­dade de quem está a sal­var a pró­pria vida. Temos até cubí­cu­los lumi­no­sos cui­da­do­sa­mente colo­ca­dos sobre pedes­tais em nos­sas salas para quando a ten­ta­ção é grande e que­re­mos ver um pouco daquilo que eles cha­mam de “mundo lá fora”!

    Nas cida­des gran­des, o ar tem cheiro de fumaça de carro, gros­sas cama­das de pó se depo­si­tam sobre tudo, dei­xando o hori­zonte gra­du­al­mente cinza e quem insiste em usar as pró­prias per­nas para andar, acaba sendo obri­gado a se tor­nar fumante ativo de óleo de dinos­sauro quei­mado. As árvo­res foram rele­ga­das às reser­vas e algu­mas pra­ças, os oásis arti­fi­ci­ais do con­creto. Os pás­sa­ros e inse­tos colo­ri­dos, cada dia em menor número, vão de pouco em pouco sendo subs­ti­tuí­dos pelos cin­zas e mar­rons, mais aptos a se camu­flar no novo cená­rio. Os rios e cór­re­gos foram trans­for­ma­dos em depó­sito de res­tos huma­nos. E como dei­xa­mos restos!

    Olhar para fora resulta sem­pre em um mundo mono­cro­má­tico e à noite já é quase impos­sí­vel ver estre­las no céu. Ainda há lua? Difí­cil pre­ci­sar seu ciclo de den­tro dos cubí­cu­los empi­lha­dos em altos edi­fí­cios para­le­los. A mes­mice embo­tou a curi­o­si­dade. A apa­tia se tor­nou a melhor defesa no mundo das mul­ti­dões. E quando acon­tece algo que nos obriga a olhar para fora, a reco­nhe­cer o quão arti­fi­cial é o nosso “meio ambi­ente”, o quão longe esta­mos de nos­sas neces­si­da­des bási­cas, o des­con­forto é tão grande que as pes­soas são lan­ça­das a um estado de bestas-feras.

    Não sou adepta da psi­ca­ná­lise, mas boas expli­ca­ções devem ser leva­das em conta… É como se tivés­se­mos recal­cado tão vio­len­ta­mente nosso bicho-homem para nos tor­nar­mos esses homens-deuses de hoje que, quando a natu­reza ou qual­quer outra força incon­tro­lá­vel nos con­fronta, tudo aquilo que estava repre­sado irrompe numa tor­rente absurda de bes­ti­a­li­dade. Não que­re­mos, em hipó­tese alguma sair de nossa caverna segura, mesmo que o preço de viver no escuro seja a cegueira e a hiper­sen­si­bi­li­dade. Mas final­mente os sécu­los de ener­gia mal dire­ci­o­nada e o excesso de pes­soas nos gran­des cen­tros urba­nos fize­ram a balança des­com­pen­sar inegavelmente.

    Esta­mos exau­rindo o pla­neta, já o cobri­mos de tal forma que onde quer que seja aces­sí­vel e cul­ti­vá­vel, lá encon­tra­re­mos uma cerca. Esta ocu­pa­ção ter­ri­to­rial cada vez mais densa invi­a­bi­liza a mobi­li­dade natu­ral do bicho-homem e o faz con­vi­ver com uma vari­a­bi­li­dade maior de cos­tu­mes indi­vi­du­ais do que está pro­gra­mado bio­lo­gi­ca­mente para absor­ver. Com isso a mul­ti­dão for­çou o empi­lha­mento não só dos indi­ví­duos, mas tam­bém das peque­nas comu­ni­da­des que se for­mam aos bor­bo­tões para res­pon­der ao pro­blema da iden­ti­dade frente a um mundo cinza e api­nhado de pes­soas estra­nhas que cha­ma­mos de urbe moderna.

    Para pio­rar o cená­rio, nossa neces­si­dade de cimen­tar tudo e afas­tar da cidade tudo o que lem­bre a natu­reza aca­bou por con­ju­rar sobre nós, da forma mais irô­nica e estú­pida pos­sí­vel, as mes­mas for­ças que pen­sá­va­mos con­tro­lar enquanto aplai­ná­va­mos as coli­nas e enca­ná­va­mos nos­sos ria­chos. Exa­ge­ra­mos tanto na dose que agora nos­sos rios vomi­tam sobre nós nossa imun­dí­cie, nos­sas mon­ta­nhas pela­das lançam-se sobre nós engo­lindo nos­sas casas, raios caem sobre nos­sos altos edi­fí­cios fri­tando nos­sas tele­vi­sões de plasma, a natu­reza arre­benta nos­sas jane­las de blin­dex com seus fura­cões e tsu­na­mis, impede o turismo com negras nuvens piro­clás­ti­cas, espa­lha doen­ças nos ges­tos de amor…

    Então, quando um dis­traído nos fecha no trân­sito que não anda há qua­renta minu­tos e nos coloca frente a frente com a estu­pi­dez do cubí­culo engar­ra­fado, não é o homem den­tro de nós que reage e surra o outro moto­rista até a morte. O que reage é o demô­nio que sur­giu do assas­si­nato dos nos­sos ins­tin­tos pelo pro­cesso civi­li­za­tó­rio. Quando sacri­fi­ca­mos nosso bicho inte­rior para nos tor­nar­mos homens-deuses, cri­a­mos tam­bém um demô­nio sobre o qual não exer­ce­mos mais con­trole. A beleza de nos­sas caver­nas não passa de uma ilu­são e seu alu­guel tem ficado cada dia mais caro.

     
    • Erivelton Araujo 9 de Julho de 2013, às 18:54 Permalink | Responder

      Para­béns pelo texto. Às vezes nos depa­ra­mos com arran­jos de pala­vras que, lamen­ta­vel­mente, não saí­ram de nos­sas cabe­ças. Aí, da uma “inve­ji­nha” danada! Como eu que­ria ter sido o autor desse texto seu…
      Para­béns!
      P.S. Se não se impor­tar, gos­ta­ria de publicá-lo na minha página social com o cami­nho. Obrigado.

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