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  • Kátia Garcia 29 de July de 2013, às 22:56 Permalink | Responder
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    O Brasil e o Papa 

    Papa Francisco

    Ter­mi­nou ontem, 28/07, a Jor­nada Mun­dial da Juven­tude com uma lota­ção de 3 milhões de pes­soas aglo­me­ra­das na praia de Copa­ca­bana para a vigí­lia e a missa de encer­ra­mento da visita do Papa Fran­cisco. Foi uma semana agi­tada para o Rio de Janeiro. Entre pro­tes­tos, ten­ta­ti­vas de ali­ci­a­ção de polí­ti­cos vários e um mar de jovens fieis, o Papa enfren­tou chuva, bei­jou mui­tos bebês, escu­tou denún­cias, cutu­cou pode­ro­sos e deu um show. Um não, vários. É pre­ciso admi­tir o talento e o carisma deste senhor sor­ri­dente. O tão espe­rado bebê real quase desa­pa­re­ceu entre tan­tas fra­ses de efeito dis­pa­ra­das pelo Papa mais pop que o Bra­sil já viu.

    Os efei­tos desta visita espe­ta­cu­lar que cus­tou mais de 100 milhões de reais aos cofres públi­cos, fora o inves­ti­mento da pró­pria Igreja, não devem aca­bar com o fim da Jor­nada. O Papa fez diver­sos ape­los pelo “Ide e pre­gai o evan­ge­lho por todas as nações”. Este foi o ponto cen­tral de todo o encon­tro: rea­vi­var a fé e a con­fi­ança para evan­ge­li­zar. Aos bis­pos e padres foi expres­sa­mente ori­en­tado que fos­sem às fave­las, aos mise­rá­veis, levar o evan­ge­lho, que vol­tas­sem seus esfor­ços para os pobres e os enfer­mos nova­mente. Aos jovens, pediu que fos­sem para as ruas, que pro­tes­tas­sem, que fos­sem revo­lu­ci­o­ná­rios, que mudas­sem o futuro atra­vés de um com­pro­misso sério com deus con­tra a cul­tura do pro­vi­só­rio e do relativismo.

    Em para­lelo estou­ra­vam pro­tes­tos por todos os lados, uns ten­ta­vam falar com o Papa, outros, con­tra ele. Houve bei­jaço gay já na pri­meira apa­ri­ção do Papa, pro­tes­tos con­tra o gover­na­dor Sér­gio Cabral e a cor­rup­ção e mar­cha das vadias con­tra o Esta­tuto do Nas­ci­turo e a pela des­cri­mi­na­li­za­ção do aborto. Havia inú­me­ros gru­pos de pro­tes­tos, a mai­o­ria indi­fe­rente à pre­sença do Papa, fazendo uso ape­nas do alcance inter­na­ci­o­nal da imprensa que cobria o evento. Tam­bém acon­te­ce­ram mani­fes­ta­ções em outras cida­des mobi­li­za­das em apoio con­tra a repres­são sofrida pelos que se mani­fes­ta­ram con­tra Cabral no dia da che­gada do Papa. Houve con­fronto com a polí­cia, pri­são de dois repór­te­res inde­pen­den­tes que cobriam o pro­testo, denún­cias de poli­ci­ais infil­tra­dos que teriam lan­çado molo­tov con­tra o pelo­tão de cho­que e muita con­fu­são. A popu­la­ri­dade do gover­na­dor che­gou a 12% essa semana. O Papa res­pon­deu a esta e outras mobi­li­za­ções dizendo que os polí­ti­cos pre­ci­sam ouvir os jovens e aler­tou para o perigo de ten­tar mani­pu­lar essa força que os faz que­rer mudanças.

    A igreja evan­gé­lica tam­bém pro­mo­veu encon­tros em diver­sos locais do país. Em Rondô­nia líde­res evan­gé­li­cos fize­ram o culto de domingo ao ar livre, reu­nindo 50 mil pes­soas nas ruas da cidade. Gran­des igre­jas pro­mo­ve­ram con­fe­rên­cias e encon­tros vol­ta­dos para os jovens, como res­posta à mobi­li­za­ção cató­lica, mas entre o Papa e o bebê real, a visi­bi­li­dade des­tes encon­tros foi mínima. Em um país onde a igreja evan­gé­lica tira fôlego para con­quis­tar novos fieis do aban­dono em que estes se encon­tram den­tro de suas igre­jas cató­li­cas, a visita do Papa e suas ori­en­ta­ções aos padres e bis­pos do Bra­sil pode jogar água fria no cres­ci­mento ver­ti­gi­noso do pro­tes­tan­tismo. A visita do Papa tinha o obje­tivo claro de res­ga­tar o empe­nho dos líde­res reli­gi­o­sos, reli­gar as ove­lhas aos seus pas­to­res e rea­ni­mar a tra­di­ção cató­lica em meio a drás­ti­cas mudan­ças sociais.

    A JMJ é um evento espe­ci­al­mente vol­tado para os jovens. No Bra­sil a juven­tude tinha se tor­nado a prin­ci­pal porta de saída da reli­gião cató­lica e o Papa diri­giu pedi­dos espe­ci­ais para que os jovens cató­li­cos não se aca­nhem e saiam para fazer dis­cí­pu­los e para que os padres vol­tem a ser mis­tu­rar com os fieis, ter con­tato pes­soal com eles.  Em entre­vista, Fran­cisco fez reve­rên­cia a este aban­dono com­pa­rando a Igreja a uma mãe que só se comu­nica com o filho por car­tas, apon­tando a falta de con­tato e afeto como causa do esfri­a­mento da fé em todo o globo. Sua fun­ção será rea­pro­xi­mar mãe e filho, trans­for­mar docu­men­tos em abra­ços, impri­mir na Igreja as carac­te­rís­ti­cas que lhe são tão familiares.

    Com rela­ção à Igreja o Papa fez várias decla­ra­ções inte­res­san­tes e o ponto comum é sem­pre a Reforma. Fran­cisco cha­mou aten­ção para a neces­si­dade da Igreja se rein­ven­tar para acom­pa­nhar a His­tó­ria, disse que desde a Idade Média é comum ouvir crí­ti­cas dizendo que a Igreja pre­cisa mudar, por­que ela pre­cisa ser dinâ­mica para per­ma­ne­cer inse­rida no con­texto social da época. Apon­tou a neces­si­dade de uma reforma pro­funda e de grande seri­e­dade na cúria romana, segundo ele, uma parte de extrema impor­tân­cia para a Igreja e por isso mesmo tão sus­ce­tí­vel a crí­ti­cas, quanto a erros huma­nos por parte de seus inte­gran­tes. Apro­vei­tou para dizer que uma árvore que cai faz mais baru­lho que um bos­que inteiro cres­cendo, ao se refe­rir aos escân­da­los em que a Igreja se envol­veu e às boas ações de car­de­ais, bis­pos, padres e lei­gos san­tos que dão a vida pela Igreja todos os dias, mas não são percebidos.

    O tom da JMJ foi de revo­lu­ção. Segundo Fran­cisco, um jovem que não pro­teste, que não tenha uto­pias a defen­der, não o agrada. Ele chama o jovem para tra­zer sua uto­pia para a Igreja, para ter cora­gem e ir às ruas, para empres­tar sua ener­gia para a evan­ge­li­za­ção dos pobres e para mudar o mundo fazendo revi­ver os valo­res morais do cris­ti­a­nismo que estão sendo subs­ti­tuí­dos pela satis­fa­ção ime­di­ata e pro­vi­só­ria. Fran­cisco parece ter sido esco­lhido a dedo para reju­ve­nes­cer essa ins­ti­tui­ção mile­nar que pare­cia estar pres­tes a mor­rer de velhice. Entre­tanto, se por reju­ve­nes­ci­mento enten­de­mos a assi­mi­la­ção das novas deman­das soci­ais, como acesso a con­tra­cep­ti­vos e cami­si­nhas, casa­mento homo-afetivo, células-tronco e outras “moder­ni­ces”, então este Papa ainda “não nos representa”.

    Fran­cisco dei­xou claro quais são os valo­res da Igreja; ele quer levar comida, edu­ca­ção e saúde a todos os pobres, enfer­mos e aban­do­na­dos do pla­neta. Ele quer que os jovens vol­tem a crer no casa­mento eterno, na vir­gin­dade e na pureza. A revo­lu­ção que Fran­cisco quer pro­mo­ver pode até com­par­ti­lhar algu­mas pala­vras com a outra revo­lu­ção que acon­tece em para­lelo, no mundo secu­lar, mas o con­texto e o sen­tido des­tas pala­vras é outro e inverso. A Revo­lu­ção que o Papa quer é na ver­dade uma Resis­tên­cia. O que ele deseja é que a Igreja mantenha-se como pedra firme e aproveite-se da inse­gu­rança que momen­tos de inde­fi­ni­ção des­per­tam nas pes­soas para atraí-las.

    Rom­pendo com a filo­so­fia de seu pre­de­ces­sor, que acre­di­tava que a Igreja não deve­ria ceder à pres­são de trans­for­mar as mis­sas em shows da fé, Fran­cisco deu mesmo um grande show. Assim como na igreja evan­gé­lica, a sen­sa­ção, seja ela ale­gria, empol­ga­ção, ansi­e­dade ou o que quer que mobi­lize as pes­soas, foi o ele­mento cen­tral para pro­mo­ver o rea­vi­va­mento da fé e a Jor­nada pro­vo­cou mesmo mui­tas sen­sa­ções em seus fieis. Sem dúvida ele se des­pede de um Bra­sil dife­rente do que encon­trou em sua che­gada e trouxe para a Igreja a auto­ri­za­ção que ela espe­rava para dar o pró­ximo passo na eterna luta pela sobre­vi­vên­cia do cato­li­cismo: a incor­po­ra­ção das sen­sa­ções na pro­mo­ção da fé. A par­tir de agora o cató­lico tam­bém poderá dizer que sente o mover de Deus, sem pre­ci­sar enquadrar-se como caris­má­tico, termo que mais divi­diu do que refor­çou a Igreja em seu pri­meiro encon­tro com o neo-pentecostalismo das Amé­ri­cas há déca­das atrás.

    O Papa fez um apelo para que a soci­e­dade não exclua os extre­mos da cadeia pro­du­tiva, as cri­an­ças, os jovens e os ido­sos, em nome do dinheiro, apon­tando um “huma­nismo desu­mano” como motor deste estado de coi­sas. Por fim Fran­cisco zelou pelo diá­logo entre todas as cren­ças em prol do bem comum. Pediu que todos, den­tro de suas pró­prias cren­ças, rom­pes­sem com o egoísmo e a indi­fe­rença, supe­rando suas dife­ren­ças e bus­cando aju­dar o pró­ximo, espe­ci­al­mente os mais caren­tes. Antes de ir ele dei­xou dois che­ques de 20 mil euros, um para a favela de Var­gi­nha, a ser apli­cado con­forme deci­são dos mora­do­res e outro para o Hos­pi­tal São Fran­cisco apli­car em seu cen­tro de recu­pe­ra­ção de depen­den­tes de dro­gas que está para ser inau­gu­rado. Var­gi­nha rece­be­ria a vigí­lia que foi trans­fe­rida às pres­sas para Copa­ca­bana por causa das chu­vas que trans­for­ma­ram o Campo da Fé em um enorme lamaçal.

    A con­clu­são a que se chega com esta pri­meira via­gem do Papa para encontrar-se com seus fieis é que pode­mos espe­rar gran­des mudan­ças para a ICAR nos pró­xi­mos anos. Sua revo­lu­ção, no entanto, não se mira nos anseios que pre­ten­dem fazer do futuro um lugar onde a diver­si­dade é o motor da igual­dade, mas no eterno desejo cris­tão de trans­for­mar toda diver­si­dade em igual­dade a par­tir de um modelo ideal a ser imi­tado. Resta saber se no mundo da inter­net e do turismo, 7 bilhões de indi­ví­duos dis­tin­tos pode­rão ser enqua­dra­dos a par­tir de um só modelo, mesmo com toda a ener­gia revo­lu­ci­o­ná­ria que os jovens cató­li­cos têm a oferecer.

    Kátia Gar­cia

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  • Helder Sanches 24 de December de 2012, às 13:31 Permalink | Responder
    Etiquetas: , filosofia, religião   

    O que separa um ateu de um crente 

    De uma forma mini­ma­lista, pode­ria dizer-se que o que separa um ateu de um crente é ape­nas o facto de se acre­di­tar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) dife­rença arrasta con­sigo um vari­a­dís­simo rol de pos­tu­ras diver­gen­tes rela­ti­va­mente à forma de enca­rar a vida.

    Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qual­quer; por­tanto, o título tam­bém pode­ria ser “O que me separa dos cren­tes” mas, como have­rão mais ateus a par­ti­lhar pelo menos algu­mas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é nin­guém em par­ti­cu­lar, de nenhuma reli­gião ou crença espe­cí­fica; é pos­sí­vel — e até pro­vá­vel — que a mai­o­ria dos cren­tes não se reve­jam em todas as dife­ren­ças apon­ta­das. Mas, mesmo cor­rendo o risco de uma gene­ra­li­za­ção exa­ge­rada, parece-me inte­res­sante a aná­lise do que nos separa.

    A ordem pela qual os pon­tos são apre­sen­ta­dos é total­mente irrelevante.

    Noção do Sagrado — Esta noção é tão ou mais impor­tante para alguns cren­tes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reco­nhe­ci­mento comum e colec­tivo do Sagrado que imprime nos gru­pos de cren­tes o sen­ti­mento de uni­dade social, a iden­ti­fi­ca­ção colec­tiva. Mui­tos cren­tes não pra­ti­can­tes, embora des­li­ga­dos no seu dia a dia das ceri­mó­nias e dos ritu­ais, man­têm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pes­soa ou até uma data que pela sua sim­bo­lo­gia divina ou pela sua rela­ção com o divino se encon­tra acima de qual­quer sus­peita, mere­cendo pro­funda vene­ra­ção e res­peito inques­ti­o­ná­vel. Para um ateu esta con­di­ção é absurda; afas­tado o con­ceito de divino, nem nada nem nin­guém pode mere­cer tais atri­bu­tos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valo­res que con­si­de­rará basi­la­res para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade justa; mas mesmo essas ideias e valo­res deve­rão ser con­ti­nu­a­mente ques­ti­o­na­das de forma a pude­rem ser rec­ti­fi­ca­das e melho­ra­das num pro­cesso ininterrupto.

    Raci­o­na­lismo e Modelo de Rea­li­dade — Para um ateu, a única forma de enten­der o mundo é atra­vés da razão. Não é atra­vés de sen­sa­ções, reve­la­ções ou visões de qual­quer espé­cie, mas sim atra­vés do inte­lecto e de uma forma dedu­tiva. Para um crente, a razão não é sufi­ci­ente para a obten­ção do conhe­ci­mento do mundo. Para este, exis­tem ver­da­des inson­dá­veis, de um domí­nio meta­fi­sico, ape­nas alcan­çá­veis pela via reli­gi­osa. Separa-nos, por­tanto, não ape­nas o método, mas tam­bém as expec­ta­ti­vas, uma vez que para o crente a rea­li­dade abso­luta estará sem­pre para além do que a razão pode alcan­çar. Não são pre­ci­sos mui­tos conhe­ci­men­tos de his­tó­ria para nos aper­ce­ber­mos que o avanço do conhe­ci­mento cien­tí­fico tem impli­cado um decrés­cimo nas áreas outrora inte­gran­tes da tal rea­li­dade ape­nas alcan­çá­vel pela expe­ri­ên­cia religiosa.

    Tole­rân­cia — A grande dife­rença aqui con­siste na faci­li­dade com que se uti­li­zam meca­nis­mos fúteis para defesa daquilo em que se acre­dita. Nenhuma reli­gião é tole­rante enquanto se sen­tir ofen­dida pelo facto de alguns dos seus ícones sagra­dos serem uti­li­za­dos por car­to­o­nis­tas, artis­tas plás­ti­cos porno ou rea­li­za­do­res de cinema polé­mi­cos. Um ateu pouco se importa que um artista crente dese­nhe uma cari­ca­tura de Char­les Darwin com corpo de chim­panzé. Tole­rân­cia não sig­ni­fica achar que todas as ideias são váli­das; sig­ni­fica, isso sim, reco­nhe­cer aos outros o direito de ter ou defen­der quais­quer ideias, mesmo as incor­rec­tas ou fal­sas. Quando as reli­giões não se des­mar­cam das des­co­ber­tas cien­ti­fi­cas que põem em causa as suas dou­tri­nas mile­na­res não estão a ser tole­ran­tes; estão, sim, a ser dema­go­gas. Caso con­trá­rio, a cola­gem à ciên­cia teria como con­sequên­cia a des­co­la­gem da doutrina.

    Vida, Morte e Sen­tido de Exis­tên­cia — Tenho como razões pri­mor­di­ais para o sur­gi­mento do fenó­meno reli­gi­oso a ten­ta­tiva de expli­ca­ção da rea­li­dade e o recon­forto para a incóg­nita da morte. Para um crente, a expec­ta­tiva de que a sua exis­tên­cia não acaba com a morte, que se pro­longa para além desta, deverá ser uma ques­tão fun­da­men­tal. Seja pela pro­messa de uma outra rea­li­dade mais feliz, pelo receio de um cas­tigo supremo ou sim­ples­mente pela a azia pro­vo­cada pelo des­co­nhe­cido, não há dúvida que esta deverá ser uma maté­ria que cau­sará gran­des angús­tias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sen­tido. Ima­gino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que ima­gino o meu pas­sado antes do meu nas­ci­mento: nulo, isento de expe­ri­ên­cia ou de noção seja do que for. Resta-me ape­nas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a ques­tão filo­só­fica não é o “por­que vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na res­posta a esta ques­tão que se pode encon­trar o sen­tido de existência.

     
    • Sérgio Silva 19 de Julho de 2013, às 15:12 Permalink | Responder

      No dia seguinte nin­guém mor­reu (…) Boas noi­tes, senhor primeiro-ministro, Boas noi­tes, emi­nên­cia, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto pro­fun­da­mente cho­cado, Tam­bém eu, emi­nên­cia, a situ­a­ção é muito grave, a mais grave de quan­tas o país teve de viver até hoje. Não se trata disso. Deque se trata então, emi­nên­cia. É a todos os res­pei­tos deplo­rá­vel que, ao redi­gir a decla­ra­ção que aca­bei de escu­tar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lem­brado daquilo que cons­ti­tui o ali­cerce, a viga mes­tra, a pedra angu­lar, a chave de abó­bada da nossa santa reli­gião, Emi­nên­cia, perdoe-me, temo não com­pre­en­der aonde quer che­gar. Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há res­sur­rei­ção, e sem res­sur­rei­ção não há igreja, O diabo, Não per­cebi o que acaba de dizer, repita, por favor (…) A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às res­pos­tas eter­nas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a rea­li­dade as con­tra­diga, Desde o prin­cí­pio que nós não temos feito outra cousa que con­tra­di­zer a rea­li­dade, e aqui esta­mos, Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vai­dade de pensar-me tal, man­da­ria pôr ime­di­a­ta­mente em cir­cu­la­ção uma
      nova tese, a da morte adi­ada, Sem mais expli­ca­ções, À igreja nunca se lhe pediu que expli­casse fosse o que fosse, a nossa outra espe­ci­a­li­dade, além da balís­tica, tem sido neu­tra­li­zar, pela fé, o espí­rito curi­oso, Boas noi­tes, emi­nên­cia, até ama­nhã, Se deus quiser”

      Cum­pri­men­tos “Voxianos”

    • Helder Sanches 19 de Julho de 2013, às 18:58 Permalink | Responder

      Tal­vez o mais ilus­tre ateísta por­tu­guês dos últi­mos tempos.

    • carlos cardoso 16 de Maio de 2014, às 13:52 Permalink | Responder

      Para mim a dife­rença fun­da­men­tal entre um crente e um ateu é o facto de o crente saber dis­tin­guir um deus ver­da­deiro de deu­ses fal­sos, sem no entanto con­se­guir expli­car como faz essa distinção.

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