Com as etiquetas: comportamento Mostrar/esconder comentários | Atalhos de teclado

  • Kátia Garcia 10 de January de 2013, às 17:37 Permalink | Responder
    Etiquetas: ciência, comportamento, , , tecnologia   

    Só sei que nada sei 

    bebê robô

    Hoje

    O desen­vol­vi­mento de ins­tru­men­tos de pes­quisa cada vez melho­res nos faz avan­çar inces­san­te­mente na obser­va­ção de incon­tá­veis fenô­me­nos. Pro­du­zi­mos conhe­ci­men­tos de tudo quanto é tipo a todo momento, mas enfren­ta­mos hoje alguns pro­ble­mas fun­da­men­tais que atra­van­cam a comu­ni­ca­ção entre o saber e as pes­soas. No meio deste intrin­cado de agra­van­tes está o excesso de infor­ma­ções espe­cí­fi­cas, a inco­mu­ni­ca­bi­li­dade entre dis­ci­pli­nas do conhe­ci­mento e o con­fronto entre a ciên­cia e os inte­res­ses dos poderosos.

    Uma das con­sequên­cias do sis­tema de pen­sa­mento que desen­vol­ve­mos nos últi­mos sécu­los foi cate­go­ri­zar exces­si­va­mente os conhe­ci­men­tos. Aquela ali­e­na­ção do tra­ba­lho, velha conhe­cida da soci­o­lo­gia, foi repas­sada ao conhe­ci­mento à medida em que este ia se trans­for­mando em capi­tal. O saber tornava-se cen­tra­li­zado no espe­ci­a­lista e con­tro­lado pelo dono da ins­ti­tui­ção de pes­quisa. Aos subor­di­na­dos é dado saber ape­nas o neces­sá­rio para a exe­cu­ção de tare­fas pré-determinadas. Ao público geral resta o ponto de vista do repór­ter sem qual­quer for­ma­ção cien­tí­fica que foi obri­gado a ler o artigo em outra lín­gua para fazer a repor­ta­gem de meia página resu­mindo anos de estudo.

    Hoje temos inú­me­ras pes­qui­sas sobre os mais vari­a­dos temas, mas nem sem­pre elas se encon­tram, se com­ple­men­tam e assim o conhe­ci­mento per­ma­nece mal apro­vei­tado, com apli­ca­ções prá­ti­cas limi­ta­das pela com­pre­en­são frag­men­tada. Como con­sequên­cia, a par­cela do conhe­ci­mento adqui­rido que é repas­sada à popu­la­ção se fixa con­forme seu alcance publi­ci­tá­rio e fica­mos com a sen­sa­ção de que a ciên­cia se des­mente o tempo todo, quando na ver­dade o que falta é inte­gra­ção dos resul­ta­dos já obti­dos, melhor revi­são por pares ou excesso de inte­res­ses polí­ti­cos defor­mando a infor­ma­ção. Sabe­mos muito, mas não sabe­mos o quanto.

    Ontem

    Se por um lado, tive­mos Da Vinci e outros multi-pesquisadores que dis­cor­riam livre­mente entre diver­sas ciên­cias, hoje temos um ema­ra­nhado de téc­ni­cos que mal com­pre­en­dem sua pró­pria fun­ção. Este estado de coi­sas nada prá­tico nos leva a crer que ainda não encon­tra­mos uma maneira efi­caz de nos orga­ni­zar a par­tir das mudan­ças que a ele­tri­ci­dade trouxe con­sigo. Na ver­dade, ainda não che­ga­mos sequer à esta­bi­li­dade de con­cei­tos, uma vez que a qual­quer momento surge uma nova tec­no­lo­gia que muda o modo como fazía­mos algo ou com­pre­en­día­mos deter­mi­nado assunto.

    Vin­dos de um sis­tema que res­pon­dia a tudo (embora fan­ta­si­osa, a res­posta reli­gi­osa acalma a angús­tia), ainda não ven­ce­mos nem o hábito de lan­çar mão de con­jec­tu­ras para pre­en­cher lacu­nas, nem o de per­ma­ne­cer tem­po­ra­ri­a­mente sem res­posta. E pior ainda, iden­ti­fi­ca­mos o papel do cien­tista ao do antigo xamã deci­fra­dor de mis­té­rios. Essa iden­ti­fi­ca­ção, no ima­gi­ná­rio popu­lar, dis­tan­cia a rea­li­dade, pois o pró­prio cien­tista mui­tas vezes ainda se con­funde, des­con­si­dera suas emo­ções, seus dese­jos e expec­ta­ti­vas e acaba “con­ta­mi­nando” com elas seus resul­ta­dos. Por outro lado, o povo não per­doa um erro divino, acos­tu­mado que está a submeter-se às intran­si­gên­cias das divin­da­des, aceita mal os recuos e revi­sões que a ciên­cia faz sobre si mesma, desacreditando-a como se esta já esti­vesse pronta e con­cluída em defi­ni­tivo e um erro fosse a prova de sua fali­bi­li­dade radical.

    Povo, cien­tista, reli­gi­oso ou polí­tico, o fato é que ainda não con­se­gui­mos com­pre­en­der bem o que se passa. Seguem todos inse­gu­ros, inde­ci­sos, inde­fi­ni­dos. Os “tomos” gene­ra­li­za­do­res que o séc. XIX tor­nou popu­la­res, mostraram-se ato­la­dos em equí­vo­cos, mas à guisa de outras fon­tes e diante da ausên­cia de conhe­ci­mento frente às novas tec­no­lo­gias, per­ma­ne­ce­mos nos refe­rindo a eles como fon­tes legí­ti­mas do conhe­ci­mento, quando na ver­dade o pró­prio fun­ci­o­na­mento cere­bral do ser humano hoje é dife­rente do que havia quando tais tomos foram escritos.

    Para citar um exem­plo sem ofen­der mui­tas clas­ses (des­cul­pem, ami­gos psi­ca­na­lis­tas!), vou usar Freud. Médico, Freud estu­dou hip­nose, lan­çou mão de subs­tân­cias psi­co­a­ti­vas e desen­vol­veu todo um método de tra­ta­mento fun­da­men­tado em uma teo­ria ino­va­dora sobre o fun­ci­o­na­mento psí­quico do homem do séc. XIX. Mas Freud não conhe­ceu a tele­vi­são, o con­trole remoto, o com­pu­ta­dor, a inter­net, as câme­ras de segu­rança, a mini-saia, o topless, o movi­mento LGBT, a igreja uni­ver­sal, o inter­rup­tor de parede, o carro a duzen­tos por hora, o trem bala, a pro­pa­ganda no Japão, a vida na Índia, na China, no Bra­sil… Sem estes conhe­ci­men­tos é impos­sí­vel dizer que sua teo­ria teria per­ma­ne­cido a mesma, pois as variá­veis às quais as soci­e­da­des metro­po­li­ta­nas dos anos 2000 res­pon­dem são muito dife­ren­tes daque­las a que a soci­e­dade vie­nense do final do século XIX estava submetida.

    A cul­tura da informação

    As pes­qui­sas que desen­vol­ve­mos depois de Freud já iden­ti­fi­ca­ram genes da esqui­zo­fre­nia, cri­a­ram tra­ta­men­tos quí­mi­cos para com­pul­sões e tris­te­zas crô­ni­cas, mape­a­ram o cére­bro de diver­sos indi­ví­duos, rede­fi­ni­ram pro­ces­sos, iden­ti­fi­ca­ram variá­veis que ele não con­si­de­rou como a influên­cia da ali­men­ta­ção no humor ou na apren­di­za­gem. Desde sua época a ciên­cia pro­du­ziu cen­te­nas de novas infor­ma­ções acerca do fun­ci­o­na­mento cere­bral, da cons­ci­ên­cia e da cog­ni­ção. É certo que o conhe­ci­mento cien­tí­fico ainda levará um tempo para ser reu­nido de forma inte­grada e coe­rente, mas  mesmo assim, a soci­e­dade da infor­ma­ção tor­nou o conhe­ci­mento aces­sí­vel a quem qui­ser. Basta-nos exer­ci­tar nos­sas capa­ci­da­des de sín­tese e crí­tica. O que nem sem­pre dá bons resul­ta­dos, diga-se de passagem…

    O homem moderno não se tor­nou cético por um movi­mento refle­xivo acerca de sua his­tó­ria. O ceti­cismo moderno é rea­tivo. Duvi­da­mos por­que já acre­di­ta­mos em tanta “pro­pa­ganda” errada ou diversa que fica­mos meio rece­o­sos de mudar de pos­tura por mais um conhe­ci­mento que mudará em breve. Não fomos esti­mu­la­dos, trei­na­dos para “ouvir tudo e reter o que é bom” e nesse dilú­vio de infor­ma­ções, nos vemos pela pri­meira sem uma ver­dade a pri­ori, tendo que deci­dir por nós mes­mos em que acreditar.

    O Estado laico e o indi­ví­duo responsável

    De certa forma, ao tornar-se laico e dei­xar de pri­vi­le­giar uma teo­ria sobre todas as outras, o Estado lan­çou o homem na angús­tia exis­ten­cial sar­tri­ana, mas num âmbito social. Enfren­ta­mos hoje, per­di­dos na mul­ti­dão, o deses­pero, o desam­paro e a angús­tia carac­te­rís­ti­cos dos que aban­do­na­ram as ver­da­des abso­lu­tas. O Estado dei­xou de ser divino e sem pode­res atem­po­rais que jus­ti­fi­quem arbi­tra­ri­e­da­des, a pró­pria cons­ti­tui­ção, o código moral do Estado, tornou-se ana­crô­nica. Já não é pos­sí­vel deter­mi­nar as leis con­forme as pre­fe­rên­cias pes­so­ais de um gover­nante ado­les­cente. É neces­sá­rio baga­gem, com­pe­tên­cia, evi­dên­cias e muita ora­tó­ria para obter o apoio da mai­o­ria da população.

    Sem refe­rên­cias sagra­das vemos sur­gir os mes­mos movi­men­tos comuns aos perío­dos em que a iden­ti­dade do ser humano entra em crise: gru­pos fun­da­men­ta­lis­tas con­ser­va­do­res lutam deses­pe­ra­da­mente para man­ter de pé o que gru­pos rebel­des insis­tem em sacu­dir. Há, no entanto, uma dife­rença do que até então acon­te­cia: desta vez não há UM pen­sa­mento hegemô­nico que reforce e garanta van­ta­gens à cor­rente con­ser­va­dora. O pró­prio con­ser­va­do­rismo está já radi­cal­mente par­tido em várias teo­rias que se rejei­tam mutu­a­mente, evi­tando uma coo­pe­ra­ção efi­ci­ente entre todos os seus braços.

    A ampli­a­ção do conhe­ci­mento criou cisões até nos seto­res mais uni­fi­ca­dos. A vari­a­bi­li­dade é tão grande, os encon­tros e as tro­cas cul­tu­rais tão fre­quen­tes, que tal­vez seja justo cha­mar nossa época de subatô­mica, fazendo uma ana­lo­gia com aquele átomo que o século XIX acre­di­tava ser a menor de todas as par­tí­cu­las. Hoje ele ganhou novos peda­ci­nhos, sabo­res, dire­ções… Des­co­bri­mos que den­tro do menor há mui­tos outros meno­res. São tan­tas as dimen­sões do mundo subatô­mico que mal lem­bra­mos do átomo em si. Entre­tanto, a inter­de­pen­dên­cia das par­tes e seu impacto no com­por­ta­mento do todo estão cada vez mais cla­ras e inegáveis.

    Ama­nhã

    Cri­a­mos uma soci­e­dade glo­bal regida por uma espé­cie de efeito bor­bo­leta que inte­gra todas as peque­nas soci­e­da­des em um todo que ainda não sabe­mos bem como fun­ci­ona, mas que quando algo não vai bem em alguma parte, todos aca­ba­mos mais ou menos afe­ta­dos. O que carac­te­riza esse iní­cio de século é que a fron­teira que divi­dia os gru­pos soci­ais alcan­çou a atmos­fera e esvaziou-se. Sem que­rer uni­fi­ca­mos o orga­nismo social humano de tal maneira que agora a deci­são tomada em Tóquio, Washing­ton ou qual­quer outra “capi­tal polí­tica” pode inter­fe­rir dire­ta­mente na qua­li­dade de vida do resto do mundo.

    A rea­li­dade que cri­a­mos urge que faça­mos as pazes com nós mes­mos e vol­te­mos a nos ver como espé­cie única para que pos­sa­mos resol­ver os pro­ble­mas que cri­a­mos quando éramos mui­tas cate­go­rias dife­ren­tes de iguais. Assim como o conhe­ci­mento já não pode­mos nos sus­ten­tar com cate­go­rias que já não fazem sen­tido. Não há limi­tes reais entre a física, a quí­mica e a bio­lo­gia, assim como entre euro­peus, asiá­ti­cos e afri­ca­nos ou budis­tas, cris­tãos e umban­dis­tas. São ape­nas cate­go­rias que já não expli­cam a diver­si­dade em seu pró­prio interior.

    A glo­ba­li­za­ção não trata ape­nas de um fenô­meno econô­mico. Pode­mos per­ce­ber refle­xos deste movi­mento inte­gra­ci­o­nista em tudo o que é humano. Da arte à medi­cina, da tele­vi­são à gela­deira. Os limi­tes, em pou­cas déca­das, se redu­zi­ram a uma ques­tão de tempo. Pas­sa­mos daquele momento his­tó­rico em que era pre­ciso reco­nhe­cer que não sabía­mos. Sabe­mos. Sabe­mos até que não sabe­mos tudo. Mas tal como uma bola de neve que já vai mon­ta­nha abaixo, atin­gi­mos um ponto sem volta e daqui para a frente o desen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico deter­mi­nará mudan­ças cul­tu­rais drás­ti­cas, quer este­ja­mos pre­pa­ra­dos para elas, quer não. Bem vin­dos aos século XXI, o lugar onde cada gesto conta.

    Adap­ta­ção de parte do texto “O desen­vol­vi­mento do pen­sa­mento humano II — a tra­je­tó­ria do pen­sa­mento cien­tí­fico”.

    Para saber mais sobre as for­mas de pen­sa­mento que deram ori­gem à ciên­cia, leia tam­bém “O desen­vol­vi­mento do pen­sa­mento humano — da magia à ciên­cia”.

    zv7qrnb
     
    • ana 6 de Janeiro de 2014, às 23:04 Permalink | Responder

      eu aco mais sabi ger seti robo muto tepo mias e tereste

    • ana 6 de Janeiro de 2014, às 23:06 Permalink | Responder

      hoje eu sabe ger esta robo mias e inter­sate a ciens chabe mais e voluc­çao dia­mais eu jovem sabim diso

  • Kátia Garcia 28 de December de 2012, às 10:39 Permalink | Responder
    Etiquetas: , comportamento, ética,   

    O bicho-homem, o homem-deus e nossos demônios 

    Homem colorido

    Sabe aque­les dias em que acor­da­mos um pouco mais irri­tá­veis e, coin­ci­den­te­mente, tro­pe­ça­mos com a estu­pi­dez humana da manhã até à noite? Espa­ços dedi­ca­dos a se extra­va­sar em dias de fúria deve­riam ser ques­tão de saúde pública. A soci­e­dade moderna reti­rou do Homem tudo o que era ins­tin­tivo e não deu nada em troca. Pelo menos nada à altura! Ine­vi­tá­vel lem­brar do mito da caverna. Tro­ca­mos o real pelo sim­bó­lico com uma cer­teza ina­ba­lá­vel de que este é o único cami­nho para nos tor­nar­mos ple­na­mente humanos.

    O coti­di­ano humano con­siste em ir de um cubí­culo a outro, den­tro de um pequeno cubí­culo com rodas, sem­pre com nos­sos óculos escu­ros e pro­te­to­res sola­res, ater­ro­ri­za­dos com os efei­tos noci­vos do nosso pri­meiro deus, o Sol. Quando que­re­mos nos exer­ci­tar, pega­mos nos­sos cubí­cu­los moto­ri­za­dos para irmos a cubí­cu­los cheios de fer­ros e espe­lhos para pra­ti­car­mos movi­men­tos mime­ti­za­dos e repe­ti­ti­vos com toda  a seri­e­dade de quem está a sal­var a pró­pria vida. Temos até cubí­cu­los lumi­no­sos cui­da­do­sa­mente colo­ca­dos sobre pedes­tais em nos­sas salas para quando a ten­ta­ção é grande e que­re­mos ver um pouco daquilo que eles cha­mam de “mundo lá fora”!

    Nas cida­des gran­des, o ar tem cheiro de fumaça de carro, gros­sas cama­das de pó se depo­si­tam sobre tudo, dei­xando o hori­zonte gra­du­al­mente cinza e quem insiste em usar as pró­prias per­nas para andar, acaba sendo obri­gado a se tor­nar fumante ativo de óleo de dinos­sauro quei­mado. As árvo­res foram rele­ga­das às reser­vas e algu­mas pra­ças, os oásis arti­fi­ci­ais do con­creto. Os pás­sa­ros e inse­tos colo­ri­dos, cada dia em menor número, vão de pouco em pouco sendo subs­ti­tuí­dos pelos cin­zas e mar­rons, mais aptos a se camu­flar no novo cená­rio. Os rios e cór­re­gos foram trans­for­ma­dos em depó­sito de res­tos huma­nos. E como dei­xa­mos restos!

    Olhar para fora resulta sem­pre em um mundo mono­cro­má­tico e à noite já é quase impos­sí­vel ver estre­las no céu. Ainda há lua? Difí­cil pre­ci­sar seu ciclo de den­tro dos cubí­cu­los empi­lha­dos em altos edi­fí­cios para­le­los. A mes­mice embo­tou a curi­o­si­dade. A apa­tia se tor­nou a melhor defesa no mundo das mul­ti­dões. E quando acon­tece algo que nos obriga a olhar para fora, a reco­nhe­cer o quão arti­fi­cial é o nosso “meio ambi­ente”, o quão longe esta­mos de nos­sas neces­si­da­des bási­cas, o des­con­forto é tão grande que as pes­soas são lan­ça­das a um estado de bestas-feras.

    Não sou adepta da psi­ca­ná­lise, mas boas expli­ca­ções devem ser leva­das em conta… É como se tivés­se­mos recal­cado tão vio­len­ta­mente nosso bicho-homem para nos tor­nar­mos esses homens-deuses de hoje que, quando a natu­reza ou qual­quer outra força incon­tro­lá­vel nos con­fronta, tudo aquilo que estava repre­sado irrompe numa tor­rente absurda de bes­ti­a­li­dade. Não que­re­mos, em hipó­tese alguma sair de nossa caverna segura, mesmo que o preço de viver no escuro seja a cegueira e a hiper­sen­si­bi­li­dade. Mas final­mente os sécu­los de ener­gia mal dire­ci­o­nada e o excesso de pes­soas nos gran­des cen­tros urba­nos fize­ram a balança des­com­pen­sar inegavelmente.

    Esta­mos exau­rindo o pla­neta, já o cobri­mos de tal forma que onde quer que seja aces­sí­vel e cul­ti­vá­vel, lá encon­tra­re­mos uma cerca. Esta ocu­pa­ção ter­ri­to­rial cada vez mais densa invi­a­bi­liza a mobi­li­dade natu­ral do bicho-homem e o faz con­vi­ver com uma vari­a­bi­li­dade maior de cos­tu­mes indi­vi­du­ais do que está pro­gra­mado bio­lo­gi­ca­mente para absor­ver. Com isso a mul­ti­dão for­çou o empi­lha­mento não só dos indi­ví­duos, mas tam­bém das peque­nas comu­ni­da­des que se for­mam aos bor­bo­tões para res­pon­der ao pro­blema da iden­ti­dade frente a um mundo cinza e api­nhado de pes­soas estra­nhas que cha­ma­mos de urbe moderna.

    Para pio­rar o cená­rio, nossa neces­si­dade de cimen­tar tudo e afas­tar da cidade tudo o que lem­bre a natu­reza aca­bou por con­ju­rar sobre nós, da forma mais irô­nica e estú­pida pos­sí­vel, as mes­mas for­ças que pen­sá­va­mos con­tro­lar enquanto aplai­ná­va­mos as coli­nas e enca­ná­va­mos nos­sos ria­chos. Exa­ge­ra­mos tanto na dose que agora nos­sos rios vomi­tam sobre nós nossa imun­dí­cie, nos­sas mon­ta­nhas pela­das lançam-se sobre nós engo­lindo nos­sas casas, raios caem sobre nos­sos altos edi­fí­cios fri­tando nos­sas tele­vi­sões de plasma, a natu­reza arre­benta nos­sas jane­las de blin­dex com seus fura­cões e tsu­na­mis, impede o turismo com negras nuvens piro­clás­ti­cas, espa­lha doen­ças nos ges­tos de amor…

    Então, quando um dis­traído nos fecha no trân­sito que não anda há qua­renta minu­tos e nos coloca frente a frente com a estu­pi­dez do cubí­culo engar­ra­fado, não é o homem den­tro de nós que reage e surra o outro moto­rista até a morte. O que reage é o demô­nio que sur­giu do assas­si­nato dos nos­sos ins­tin­tos pelo pro­cesso civi­li­za­tó­rio. Quando sacri­fi­ca­mos nosso bicho inte­rior para nos tor­nar­mos homens-deuses, cri­a­mos tam­bém um demô­nio sobre o qual não exer­ce­mos mais con­trole. A beleza de nos­sas caver­nas não passa de uma ilu­são e seu alu­guel tem ficado cada dia mais caro.

     
    • Erivelton Araujo 9 de Julho de 2013, às 18:54 Permalink | Responder

      Para­béns pelo texto. Às vezes nos depa­ra­mos com arran­jos de pala­vras que, lamen­ta­vel­mente, não saí­ram de nos­sas cabe­ças. Aí, da uma “inve­ji­nha” danada! Como eu que­ria ter sido o autor desse texto seu…
      Para­béns!
      P.S. Se não se impor­tar, gos­ta­ria de publicá-lo na minha página social com o cami­nho. Obrigado.

c
Compose new post
j
Next post/Next comment
k
Previous post/Previous comment
r
Responder
e
Editar
o
Show/Hide comments
t
Go to top
l
Go to login
h
Show/Hide help
shift + esc
Cancelar