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  • Kátia Garcia 28 de December de 2012, às 10:39 Permalink | Responder
    Etiquetas: ateísmo, , ética,   

    O bicho-homem, o homem-deus e nossos demônios 

    Homem colorido

    Sabe aque­les dias em que acor­da­mos um pouco mais irri­tá­veis e, coin­ci­den­te­mente, tro­pe­ça­mos com a estu­pi­dez humana da manhã até à noite? Espa­ços dedi­ca­dos a se extra­va­sar em dias de fúria deve­riam ser ques­tão de saúde pública. A soci­e­dade moderna reti­rou do Homem tudo o que era ins­tin­tivo e não deu nada em troca. Pelo menos nada à altura! Ine­vi­tá­vel lem­brar do mito da caverna. Tro­ca­mos o real pelo sim­bó­lico com uma cer­teza ina­ba­lá­vel de que este é o único cami­nho para nos tor­nar­mos ple­na­mente humanos.

    O coti­di­ano humano con­siste em ir de um cubí­culo a outro, den­tro de um pequeno cubí­culo com rodas, sem­pre com nos­sos óculos escu­ros e pro­te­to­res sola­res, ater­ro­ri­za­dos com os efei­tos noci­vos do nosso pri­meiro deus, o Sol. Quando que­re­mos nos exer­ci­tar, pega­mos nos­sos cubí­cu­los moto­ri­za­dos para irmos a cubí­cu­los cheios de fer­ros e espe­lhos para pra­ti­car­mos movi­men­tos mime­ti­za­dos e repe­ti­ti­vos com toda  a seri­e­dade de quem está a sal­var a pró­pria vida. Temos até cubí­cu­los lumi­no­sos cui­da­do­sa­mente colo­ca­dos sobre pedes­tais em nos­sas salas para quando a ten­ta­ção é grande e que­re­mos ver um pouco daquilo que eles cha­mam de “mundo lá fora”!

    Nas cida­des gran­des, o ar tem cheiro de fumaça de carro, gros­sas cama­das de pó se depo­si­tam sobre tudo, dei­xando o hori­zonte gra­du­al­mente cinza e quem insiste em usar as pró­prias per­nas para andar, acaba sendo obri­gado a se tor­nar fumante ativo de óleo de dinos­sauro quei­mado. As árvo­res foram rele­ga­das às reser­vas e algu­mas pra­ças, os oásis arti­fi­ci­ais do con­creto. Os pás­sa­ros e inse­tos colo­ri­dos, cada dia em menor número, vão de pouco em pouco sendo subs­ti­tuí­dos pelos cin­zas e mar­rons, mais aptos a se camu­flar no novo cená­rio. Os rios e cór­re­gos foram trans­for­ma­dos em depó­sito de res­tos huma­nos. E como dei­xa­mos restos!

    Olhar para fora resulta sem­pre em um mundo mono­cro­má­tico e à noite já é quase impos­sí­vel ver estre­las no céu. Ainda há lua? Difí­cil pre­ci­sar seu ciclo de den­tro dos cubí­cu­los empi­lha­dos em altos edi­fí­cios para­le­los. A mes­mice embo­tou a curi­o­si­dade. A apa­tia se tor­nou a melhor defesa no mundo das mul­ti­dões. E quando acon­tece algo que nos obriga a olhar para fora, a reco­nhe­cer o quão arti­fi­cial é o nosso “meio ambi­ente”, o quão longe esta­mos de nos­sas neces­si­da­des bási­cas, o des­con­forto é tão grande que as pes­soas são lan­ça­das a um estado de bestas-feras.

    Não sou adepta da psi­ca­ná­lise, mas boas expli­ca­ções devem ser leva­das em conta… É como se tivés­se­mos recal­cado tão vio­len­ta­mente nosso bicho-homem para nos tor­nar­mos esses homens-deuses de hoje que, quando a natu­reza ou qual­quer outra força incon­tro­lá­vel nos con­fronta, tudo aquilo que estava repre­sado irrompe numa tor­rente absurda de bes­ti­a­li­dade. Não que­re­mos, em hipó­tese alguma sair de nossa caverna segura, mesmo que o preço de viver no escuro seja a cegueira e a hiper­sen­si­bi­li­dade. Mas final­mente os sécu­los de ener­gia mal dire­ci­o­nada e o excesso de pes­soas nos gran­des cen­tros urba­nos fize­ram a balança des­com­pen­sar inegavelmente.

    Esta­mos exau­rindo o pla­neta, já o cobri­mos de tal forma que onde quer que seja aces­sí­vel e cul­ti­vá­vel, lá encon­tra­re­mos uma cerca. Esta ocu­pa­ção ter­ri­to­rial cada vez mais densa invi­a­bi­liza a mobi­li­dade natu­ral do bicho-homem e o faz con­vi­ver com uma vari­a­bi­li­dade maior de cos­tu­mes indi­vi­du­ais do que está pro­gra­mado bio­lo­gi­ca­mente para absor­ver. Com isso a mul­ti­dão for­çou o empi­lha­mento não só dos indi­ví­duos, mas tam­bém das peque­nas comu­ni­da­des que se for­mam aos bor­bo­tões para res­pon­der ao pro­blema da iden­ti­dade frente a um mundo cinza e api­nhado de pes­soas estra­nhas que cha­ma­mos de urbe moderna.

    Para pio­rar o cená­rio, nossa neces­si­dade de cimen­tar tudo e afas­tar da cidade tudo o que lem­bre a natu­reza aca­bou por con­ju­rar sobre nós, da forma mais irô­nica e estú­pida pos­sí­vel, as mes­mas for­ças que pen­sá­va­mos con­tro­lar enquanto aplai­ná­va­mos as coli­nas e enca­ná­va­mos nos­sos ria­chos. Exa­ge­ra­mos tanto na dose que agora nos­sos rios vomi­tam sobre nós nossa imun­dí­cie, nos­sas mon­ta­nhas pela­das lançam-se sobre nós engo­lindo nos­sas casas, raios caem sobre nos­sos altos edi­fí­cios fri­tando nos­sas tele­vi­sões de plasma, a natu­reza arre­benta nos­sas jane­las de blin­dex com seus fura­cões e tsu­na­mis, impede o turismo com negras nuvens piro­clás­ti­cas, espa­lha doen­ças nos ges­tos de amor…

    Então, quando um dis­traído nos fecha no trân­sito que não anda há qua­renta minu­tos e nos coloca frente a frente com a estu­pi­dez do cubí­culo engar­ra­fado, não é o homem den­tro de nós que reage e surra o outro moto­rista até a morte. O que reage é o demô­nio que sur­giu do assas­si­nato dos nos­sos ins­tin­tos pelo pro­cesso civi­li­za­tó­rio. Quando sacri­fi­ca­mos nosso bicho inte­rior para nos tor­nar­mos homens-deuses, cri­a­mos tam­bém um demô­nio sobre o qual não exer­ce­mos mais con­trole. A beleza de nos­sas caver­nas não passa de uma ilu­são e seu alu­guel tem ficado cada dia mais caro.

     
    • Erivelton Araujo 9 de Julho de 2013, às 18:54 Permalink | Responder

      Para­béns pelo texto. Às vezes nos depa­ra­mos com arran­jos de pala­vras que, lamen­ta­vel­mente, não saí­ram de nos­sas cabe­ças. Aí, da uma “inve­ji­nha” danada! Como eu que­ria ter sido o autor desse texto seu…
      Para­béns!
      P.S. Se não se impor­tar, gos­ta­ria de publicá-lo na minha página social com o cami­nho. Obrigado.

  • Helder Sanches 26 de December de 2012, às 11:58 Permalink | Responder
    Etiquetas: , ateísmo, censo, internacional   

    Censo ateísta internacional 

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    Este é um processo simples a que nenhum ateu se deveria recusar a participar. Participa e faz com que contes.

    Este é um pro­cesso sim­ples a que nenhum ateu se deve­ria recu­sar a par­ti­ci­par. Par­ti­cipa e faz com que contes.

    A Atheist Alli­ance Inter­na­ti­o­nal (AAI) lan­çou a 7 de Dezem­bro de 2012 um censo inter­na­ci­o­nal (Atheist Cen­sus) para afe­rir o número e dis­tri­bui­ção geo­grá­fica dos ateus a nível glo­bal. O objec­tivo deste censo é reco­lher infor­ma­ção que per­mita dar uma ima­gem tão vasta quanto pos­sí­vel do ateísmo, obtendo dados rela­ti­vos à loca­li­za­ção, género, edu­ca­ção e ante­ce­den­tes reli­gi­o­sos (se existirem).

    Esta pode ser uma exce­lente fer­ra­menta para aná­lise da rea­li­dade de cada país. Por isso, é impor­tante que todos os ateus par­ti­ci­pem neste censo e assim con­tri­buam para que se possa fazer uma lei­tura quão real quanto possível.

    De notar que ape­nas 17 horas após o lan­ça­mento do censo, o site foi alvo de um ata­que DoS (Denial of Ser­vice), ficando demons­trado, assim, o incó­modo que esta ini­ci­a­tiva estará a cau­sar sabe-se lá a quem…

    A AAI é uma ali­ança inter­na­ci­o­nal de indi­ví­duos e orga­ni­za­ções ateís­tas e de livre pen­sa­do­res. Podem saber mais sobre esta ali­ança em http://www.atheistalliance.org. Mas, pri­meiro, façam-se con­tar.

     
  • Helder Sanches 24 de December de 2012, às 13:31 Permalink | Responder
    Etiquetas: ateísmo, filosofia,   

    O que separa um ateu de um crente 

    De uma forma mini­ma­lista, pode­ria dizer-se que o que separa um ateu de um crente é ape­nas o facto de se acre­di­tar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) dife­rença arrasta con­sigo um vari­a­dís­simo rol de pos­tu­ras diver­gen­tes rela­ti­va­mente à forma de enca­rar a vida.

    Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qual­quer; por­tanto, o título tam­bém pode­ria ser “O que me separa dos cren­tes” mas, como have­rão mais ateus a par­ti­lhar pelo menos algu­mas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é nin­guém em par­ti­cu­lar, de nenhuma reli­gião ou crença espe­cí­fica; é pos­sí­vel — e até pro­vá­vel — que a mai­o­ria dos cren­tes não se reve­jam em todas as dife­ren­ças apon­ta­das. Mas, mesmo cor­rendo o risco de uma gene­ra­li­za­ção exa­ge­rada, parece-me inte­res­sante a aná­lise do que nos separa.

    A ordem pela qual os pon­tos são apre­sen­ta­dos é total­mente irrelevante.

    Noção do Sagrado — Esta noção é tão ou mais impor­tante para alguns cren­tes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reco­nhe­ci­mento comum e colec­tivo do Sagrado que imprime nos gru­pos de cren­tes o sen­ti­mento de uni­dade social, a iden­ti­fi­ca­ção colec­tiva. Mui­tos cren­tes não pra­ti­can­tes, embora des­li­ga­dos no seu dia a dia das ceri­mó­nias e dos ritu­ais, man­têm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pes­soa ou até uma data que pela sua sim­bo­lo­gia divina ou pela sua rela­ção com o divino se encon­tra acima de qual­quer sus­peita, mere­cendo pro­funda vene­ra­ção e res­peito inques­ti­o­ná­vel. Para um ateu esta con­di­ção é absurda; afas­tado o con­ceito de divino, nem nada nem nin­guém pode mere­cer tais atri­bu­tos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valo­res que con­si­de­rará basi­la­res para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade justa; mas mesmo essas ideias e valo­res deve­rão ser con­ti­nu­a­mente ques­ti­o­na­das de forma a pude­rem ser rec­ti­fi­ca­das e melho­ra­das num pro­cesso ininterrupto.

    Raci­o­na­lismo e Modelo de Rea­li­dade — Para um ateu, a única forma de enten­der o mundo é atra­vés da razão. Não é atra­vés de sen­sa­ções, reve­la­ções ou visões de qual­quer espé­cie, mas sim atra­vés do inte­lecto e de uma forma dedu­tiva. Para um crente, a razão não é sufi­ci­ente para a obten­ção do conhe­ci­mento do mundo. Para este, exis­tem ver­da­des inson­dá­veis, de um domí­nio meta­fi­sico, ape­nas alcan­çá­veis pela via reli­gi­osa. Separa-nos, por­tanto, não ape­nas o método, mas tam­bém as expec­ta­ti­vas, uma vez que para o crente a rea­li­dade abso­luta estará sem­pre para além do que a razão pode alcan­çar. Não são pre­ci­sos mui­tos conhe­ci­men­tos de his­tó­ria para nos aper­ce­ber­mos que o avanço do conhe­ci­mento cien­tí­fico tem impli­cado um decrés­cimo nas áreas outrora inte­gran­tes da tal rea­li­dade ape­nas alcan­çá­vel pela expe­ri­ên­cia religiosa.

    Tole­rân­cia — A grande dife­rença aqui con­siste na faci­li­dade com que se uti­li­zam meca­nis­mos fúteis para defesa daquilo em que se acre­dita. Nenhuma reli­gião é tole­rante enquanto se sen­tir ofen­dida pelo facto de alguns dos seus ícones sagra­dos serem uti­li­za­dos por car­to­o­nis­tas, artis­tas plás­ti­cos porno ou rea­li­za­do­res de cinema polé­mi­cos. Um ateu pouco se importa que um artista crente dese­nhe uma cari­ca­tura de Char­les Darwin com corpo de chim­panzé. Tole­rân­cia não sig­ni­fica achar que todas as ideias são váli­das; sig­ni­fica, isso sim, reco­nhe­cer aos outros o direito de ter ou defen­der quais­quer ideias, mesmo as incor­rec­tas ou fal­sas. Quando as reli­giões não se des­mar­cam das des­co­ber­tas cien­ti­fi­cas que põem em causa as suas dou­tri­nas mile­na­res não estão a ser tole­ran­tes; estão, sim, a ser dema­go­gas. Caso con­trá­rio, a cola­gem à ciên­cia teria como con­sequên­cia a des­co­la­gem da doutrina.

    Vida, Morte e Sen­tido de Exis­tên­cia — Tenho como razões pri­mor­di­ais para o sur­gi­mento do fenó­meno reli­gi­oso a ten­ta­tiva de expli­ca­ção da rea­li­dade e o recon­forto para a incóg­nita da morte. Para um crente, a expec­ta­tiva de que a sua exis­tên­cia não acaba com a morte, que se pro­longa para além desta, deverá ser uma ques­tão fun­da­men­tal. Seja pela pro­messa de uma outra rea­li­dade mais feliz, pelo receio de um cas­tigo supremo ou sim­ples­mente pela a azia pro­vo­cada pelo des­co­nhe­cido, não há dúvida que esta deverá ser uma maté­ria que cau­sará gran­des angús­tias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sen­tido. Ima­gino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que ima­gino o meu pas­sado antes do meu nas­ci­mento: nulo, isento de expe­ri­ên­cia ou de noção seja do que for. Resta-me ape­nas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a ques­tão filo­só­fica não é o “por­que vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na res­posta a esta ques­tão que se pode encon­trar o sen­tido de existência.

     
    • Sérgio Silva 19 de Julho de 2013, às 15:12 Permalink | Responder

      No dia seguinte nin­guém mor­reu (…) Boas noi­tes, senhor primeiro-ministro, Boas noi­tes, emi­nên­cia, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto pro­fun­da­mente cho­cado, Tam­bém eu, emi­nên­cia, a situ­a­ção é muito grave, a mais grave de quan­tas o país teve de viver até hoje. Não se trata disso. Deque se trata então, emi­nên­cia. É a todos os res­pei­tos deplo­rá­vel que, ao redi­gir a decla­ra­ção que aca­bei de escu­tar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lem­brado daquilo que cons­ti­tui o ali­cerce, a viga mes­tra, a pedra angu­lar, a chave de abó­bada da nossa santa reli­gião, Emi­nên­cia, perdoe-me, temo não com­pre­en­der aonde quer che­gar. Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há res­sur­rei­ção, e sem res­sur­rei­ção não há igreja, O diabo, Não per­cebi o que acaba de dizer, repita, por favor (…) A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às res­pos­tas eter­nas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a rea­li­dade as con­tra­diga, Desde o prin­cí­pio que nós não temos feito outra cousa que con­tra­di­zer a rea­li­dade, e aqui esta­mos, Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vai­dade de pensar-me tal, man­da­ria pôr ime­di­a­ta­mente em cir­cu­la­ção uma
      nova tese, a da morte adi­ada, Sem mais expli­ca­ções, À igreja nunca se lhe pediu que expli­casse fosse o que fosse, a nossa outra espe­ci­a­li­dade, além da balís­tica, tem sido neu­tra­li­zar, pela fé, o espí­rito curi­oso, Boas noi­tes, emi­nên­cia, até ama­nhã, Se deus quiser”

      Cum­pri­men­tos “Voxianos”

    • Helder Sanches 19 de Julho de 2013, às 18:58 Permalink | Responder

      Tal­vez o mais ilus­tre ateísta por­tu­guês dos últi­mos tempos.

    • carlos cardoso 16 de Maio de 2014, às 13:52 Permalink | Responder

      Para mim a dife­rença fun­da­men­tal entre um crente e um ateu é o facto de o crente saber dis­tin­guir um deus ver­da­deiro de deu­ses fal­sos, sem no entanto con­se­guir expli­car como faz essa distinção.

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