Actualizações recentes Página 2 Mostrar/esconder comentários | Atalhos de teclado

  • Helder Sanches 25 de July de 2013, às 14:12 Permalink | Responder
    Etiquetas:   

    Arquivos do Portal Ateu disponíveis online 

    logo2009-ver2A par­tir de hoje, encontra-se dis­po­ní­vel online um arquivo fun­ci­o­nal do Por­tal Ateu, assim como se encon­tra activo o reen­ca­mi­nha­mento da url portalateu.com para o mesmo. Este arquivo é par­cial, con­tendo todos os arti­gos e comen­tá­rios até ao dia 5 de Setem­bro de 2011, data da última cópia de segu­rança disponível.

    O ende­reço do arquivo do por­tal Ateu é http://portal.ateu.pt.

     
  • Lúcio Mateus 23 de July de 2013, às 19:07 Permalink | Responder  

    Ao Telefone com um Grande Vidente Africano 

    1140296

    Ora viva, vera­ne­an­tes e outros.

    Como já devem ter repa­rado, o Ateu.pt mudou de cara e as “linhas edi­to­ri­ais” muda­ram um pouco. Melhor dizendo, alargaram-se no segui­mento da dis­cus­são que teve lugar no almoço-convívio do pas­sado dia 13. Um dos resul­ta­dos desse alar­ga­mento foi que o pen­sa­mento mágico, pseudo-científico e a supers­ti­ção em geral pas­sa­ram a ser neste espaço focos de crí­tica com um des­ta­que equi­pa­rá­vel ao dedi­cado ao pen­sa­mento reli­gi­oso. Isto faz sen­tido por vários moti­vos, mas em espe­cial por dois: por na rea­li­dade não serem tipos fun­da­men­tal­mente dis­tin­tos de crença (antes diria que são espé­cies dife­ren­tes de um mesmo género), e por­que o aban­dono da reli­gião ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada por parte de certo tipo de espí­rito mui­tas vezes não se tra­duz num aban­dono da supers­ti­ção, mas antes num ligeiro des­vio para o ocul­tismo. Dito por outros ter­mos, o decrés­cimo do número de reli­gi­o­sos não implica neces­sa­ri­a­mente um engros­sar pro­por­ci­o­nal das filei­ras ateístas.

    Assim sendo, achei por bem tor­nar público aquele que já é um hob­bie meu há alguns anos, que é o de ligar para viden­tes e astró­lo­gos com o objec­tivo de ver até que ponto con­sigo che­gar em ter­mos de ridí­culo — e até à data não con­se­gui encon­trar a linha fron­tei­riça desse vasto território.

    Qui­se­ram os astros que a honra de ser o sábio inau­gu­ral desta rubrica cou­besse ao grande Pro­fes­sor Drame.

    Podem ouvir aqui a plano tera­pêu­tico que o grande vidente propôs para me curar do meu súbito desejo sexual insa­ciá­vel por homens afri­ca­nos. O pro­blema, claro, é ele pró­prio ser africano…

     
  • Helder Sanches 22 de July de 2013, às 22:22 Permalink | Responder
    Etiquetas: associação, ATEA, ,   

    Conheçam uma associação ateísta vibrante 

    logoateaJá ouvi­ram falar da ATEA — Asso­ci­a­ção Bra­si­leira de Ateus e Agnós­ti­cos? Trata-se de uma asso­ci­a­ção com qua­tro anos ape­nas e que tem vindo a dar voz às expec­ta­ti­vas e pre­o­cu­pa­ções de ateus e agnós­ti­cos no Brasil.

    Com uma pos­tura forte e irre­ve­rente, a ATEA pode­ria muito bem sim­bo­li­zar o que deve ser uma asso­ci­a­ção activa e inte­res­sada em agir (e não ape­nas em rea­gir), pro­cu­rando as par­ce­rias e a inte­gra­ção na soci­e­dade em que se insere, sem ficar redu­zida a um gabi­nete ou uma caixa de email.

    Durante a visita do Papa Fran­cisco ao Bra­sil, são diver­sas as acções que a ATEA irá patro­ci­nar, entre um sim­bó­lico des­bap­tismo colectivo:

    Nosso pro­testo será uma cam­pa­nha de des­ba­tismo cole­tivo, em que uti­li­za­re­mos seca­do­res de cabelo: PARA OS VENTOS DO SECULARISMO VARREREM AS ÁGUAS DO BATISMO.

    Para­béns a todos os ateus e agnós­ti­cos bra­si­lei­ros apoi­an­tes da ATEA por faze­rem obra e luta­rem, de facto, pelos inte­res­ses dos vos­sos associados.

    Vejam o vídeo de apre­sen­ta­ção da ATEA:

     
  • Helder Sanches 21 de July de 2013, às 9:07 Permalink | Responder
    Etiquetas: família, ,   

    O tio ateísta e o Natal 

    Não pode­ria haver melhor forma de inau­gu­rar­mos a nossa sec­ção de humor… Este vídeo de cinco segundo resume muito bem o que nós ateus sen­ti­mos quando que­rem impin­gir fic­ções às nos­sas cri­an­ças como se se tra­tasse de rea­li­dade. Já exis­tem tan­tas his­tó­rias cheias de bons prin­cí­pios morais, com valo­res huma­nis­tas e que não pre­ci­sam de ser trans­mi­ti­das como se fos­sem verdadeiras.

    Mas, vejam o vídeo…

    Então, não é mesmo isto?

     
  • Helder Sanches 20 de July de 2013, às 13:54 Permalink | Responder
    Etiquetas: Dubai, islão, Marte Dalelv   

    Marte Dalelv, ou como ser acusada de ser violada 

    Marte-Deborah-Dalelv-2067518

    Marte Debo­rah Dalelv é uma mulher noru­e­guesa de 24 anos, a resi­dir no Dubai, onde tra­ba­lhava desde 2011 como desig­ner de inte­ri­o­res. No pas­sado mês de Abril par­ti­ci­pou à polí­cia uma queixa por vio­la­ção, ale­ga­da­mente por parte de um colega de tra­ba­lho, sendo con­de­nada pos­te­ri­or­mente a 16 meses de pri­são pelos cri­mes de sexo fora do matri­mó­nio, con­sumo de álcool  e aten­tado con­tra a decên­cia! O Estado noru­e­guês já dis­po­ni­bi­li­zou o apoio judi­cial neces­sá­rio ao recurso da sentença.

    Este é ape­nas mais um exem­plo demons­tra­tivo do esta­tuto da mulher no gran­di­oso mundo do Islão. É mais um exem­plo de que não importa quan­tas tor­res de mar­fim, quan­tos El Dora­dos exis­tam por metro qua­drado ou quan­tos sinais exte­ri­o­res de riqueza se pro­mo­vam, a pobreza de um povo está na sua medi­o­cri­dade de cos­tu­mes, quase sem­pre impos­tos por reli­giões misó­gi­nas e de ori­gens pré-medievais. O esta­tuto das mulhe­res no mundo islâ­mico, resul­tado de leis reli­gi­o­sas abso­lu­tis­tas, retró­gra­das e cri­mi­no­sas é razão sufi­ci­ente para um con­fronto civi­li­za­ci­o­nal à luz da ética humanística.

    Defen­der ou ten­tar sequer raci­o­na­li­zar estes casos absur­dos faz tanto sen­tido como defen­der o cani­ba­lismo. Sel­va­ja­ria não pode ter lugar num mundo moderno. E o mundo é tudo, não é só a nossa rua.

    Refe­rên­cias:

     

     
  • Helder Sanches 19 de July de 2013, às 10:53 Permalink | Responder
    Etiquetas: acção, , fátima, , podcast   

    Ateísmo depois das férias 

    No pas­sado dia 13 de Julho, realizou-se um almoço de con­fra­ter­ni­za­ção de ateus onde esti­ve­ram pre­sen­tes alguns dos cola­bo­ra­do­res deste site. Debateu-se o estado do ateísmo em geral e estabeleceram-se uma série de prin­cí­pios para acções a tomar num futuro pró­ximo, acções essas que terão o apoio e a divul­ga­ção do ateu.pt, mas que não se pre­ten­dem exclu­si­vas dos cola­bo­ra­do­res do mesmo, ten­tando tra­zer para a acção outros ateus, quer se tra­tem de lei­to­res, comen­ta­do­res ou ami­gos deste projecto.

    Algu­mas das ideias que foram colo­ca­das a deba­tem, foram:

    • Pro­du­ção regu­lar de um pod­cast sobre ateísmo em português
    • Acções de divul­ga­ção e pro­vo­ca­ção inte­lec­tual junto da popu­la­ção reli­gi­osa, nome­a­da­mente junto aos tem­plos reli­gi­o­sos das mais diver­sas organizações
    • Pro­du­ção de um docu­men­tá­rio em vídeo sobre Fátima e os cren­tes que visi­tam aquele local
    • Alar­gar o tipo de con­teú­dos do ateu.pt, pas­sando a incluir notí­cias e sec­ções dedi­ca­das à expo­si­ção e cri­tica do pen­sa­mento mágico e pseudo-científico
    • Refor­çar o número de cola­bo­ra­do­res resi­den­tes do ateu.pt de forma a garan­tir uma maior regu­la­ri­dade na colo­ca­ção de novos artigos.

    Ficou defi­nido que o “arre­ga­çar de man­gas” teria lugar a par­tir de Setem­bro, permitindo-nos durante este período de Verão apro­fun­dar estas pro­pos­tas e pen­sar nou­tras que pos­sam ser rea­li­za­das num futuro pró­ximo. Nesse sen­tido, soli­ci­ta­mos a todos os nos­sos lei­to­res que nos dei­xem as suas suges­tões para poder­mos todos, em con­junto, con­tri­buir para uma melhor divul­ga­ção do ateísmo.

    Obri­gado.

     
    • Nilson de Simas 22 de Julho de 2013, às 12:50 Permalink | Responder

      Con­ta­dor, prós gra­du­ado em gerên­cia con­tá­bil e audi­to­ria, casado a trinta anos com a mesma mulher, dois filhos, boa situ­a­ção econômica/financeira, ex reli­gi­oso por dou­tri­na­ção e atual ateu por convicção.….….tal qual os cren­tes, faz o seguinte depoimento:

      A liber­dade da escra­vi­dão apri­si­o­nante da reli­gião e a fuga do obs­cu­ran­tismo infer­nal da ignorância.….….…TÊM OPERADO MARAVILHAS EM MINHA VIDA

    • Helder Sanches 22 de Julho de 2013, às 21:23 Permalink | Responder

      Nil­son, obri­gado pelo tes­te­mu­nho. Abraço!

  • Helder Sanches 1 de July de 2013, às 15:00 Permalink | Responder
    Etiquetas: almoço, lisboa, social   

    2º Almoço Ateísta do Vox 

    Irá realizar-se no pró­ximo dia 13 de Julho o segundo almoço ateísta do Vox Café. O evento está a ser orga­ni­zado atra­vés do Facebook.

    Após o almoço, os par­ti­ci­pan­tes que assim o dese­ja­rem pode­rão fazer comu­ni­ca­ções para discussão.

    Facebook-Covers-007

    p5rn7vb
     
  • Paulo Ramos 1 de May de 2013, às 14:46 Permalink | Responder  

    Rómulo sobe aos Céus 

    romulus

    A des­cri­ção da morte de Rómu­lus, segundo dois his­to­ri­a­do­res roma­nos do século I — Tito Lívio e Plu­tarco — pode reve­lar algu­mas pis­tas sobre as influên­cias que esti­ve­ram na ori­gem das nar­ra­ti­vas sobre a morte, res­su­rei­ção, ascen­são e apa­ri­ções de Jesus.

    • Rómu­lus desa­pa­rece, dei­xando o trono vago
    • Exis­tem sus­pei­tas que os pode­ro­sos de Roma mata­ram Rómu­lus por este ser incómodo
    • O povo alega que Rómu­lus subiu ao céu e tornou-se Deus (Quirinius)
    • Um homem alega ter visto Rómu­lus e rece­bido reve­la­ções dele sobre o futuro

    Ape­sar de Rómu­lus ale­ga­da­mente ter vivido uns 700 anos antes, era assim que a sua morte era retra­tada no século I — o século em que come­ça­ram a ser escri­tos os evan­ge­lhos sobre Jesus.

     

    Tito Lívio (59 a.C. — 17 d.C.)

    Tito Lívio des­creve a morte de Rómu­lus — o fun­da­dor de Roma e seu pri­meiro rei — e a sua ascen­são aos céus.

    Des­creve tam­bém como foi visto por Pró­cu­lus que obteve reve­la­ções sobre o futuro dos romanos.

    Tito Lívio (59 a.C. — 17 d.C.), “Ab Urbe Con­dita” (Desde a Fun­da­ção da Cidade ou His­tó­ria Pri­mi­tiva de Roma), Livro 1, cap 16

    Romu­lus ajun­tou o seu exér­cito na Caprae Palus do Cam­pus Mar­tius. Uma vio­lenta tem­pes­tade sur­giu e envol­veu o rei numa nuvem tão densa que ele se tor­nou invi­sí­vel aos que esta­vam pre­sen­tes. A par­tir daquela hora Romu­lus dei­xou de ser visto na Terra.

    Quan­dos a juven­tude romana teve os seus temo­res afas­ta­dos pelo retorno do bri­lho do sol, veri­fi­ca­ram que o trono estava vago. Ape­sar de acre­di­ta­rem ple­na­mente nos sena­do­res, que afir­ma­ram que ele [Rómu­lus] havia sido arre­ba­tado ao céu num rede­moi­nho, fica­ram mudos por algum tempo, pois viram-se repen­ti­na­mente de luto.

    Em seguida, algu­mas vozes come­ça­ram a pro­cla­mar a divin­dade de Rómu­lus; o cla­mor foi subindo; e, final­mente, todos o sau­da­ram como um deus e filho de um deus, e reza­ram para que ele fosse sem­pre gen­til e pro­te­gesse os seus filhos.

    No entanto, mesmo nesta gran­di­osa época, havia, creio eu, alguns dis­si­den­tes que man­ti­ve­ram secre­ta­mente que o rei [Rómu­lus] tinha sido feito em peda­ços pelos sena­do­res. Esta indigna ver­são da sua morte foi pas­sando, vela­da­mente, mas não era tão impor­tante como o temor e admi­ra­ção pela gran­deza de Romulus.

    Mas esta ver­são sobre a sua morte foi defi­ni­ti­va­mente aban­do­nada em favor da ver­são da divin­dade de Rómu­lus, pela opor­tuna acção de um deter­mi­nado homem, Julius Pró­culo, céle­bre pelos seus sábios con­se­lhos sobre gran­des questões.

    A perda do rei tinha dei­xado as pes­soas inqui­e­tas e des­con­fi­a­das dos sena­do­res. Pró­cu­lus, cons­ci­ente do tem­pe­ra­mento pre­do­mi­nante, con­ce­beu a idéia astuta de abor­dar a Assembléia.

    • Romu­lus”, decla­rou ele, “o pai de nossa cidade des­ceu do céu ao ama­nhe­cer esta manhã e apa­re­ceu a mim. Em res­peito e reve­rên­cia que eu estava diante dele, pedindo per­mis­são para olhar em seu rosto sem pecado. «Vai», disse ele, «e diz aos roma­nos que, pela von­tade dos céus, Roma será a capi­tal do mundo. Deixa-os apren­der a ser sol­da­dos. Deixa-os saber e ensi­nar os seus filhos, que nenhum poder na terra poderá ven­cer armas roma­nas». Tendo dito estas pala­vras, ele foi levado nova­mente para o céu ”

Refe­rên­cia: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0026%3Abook%3D1%3Achapter%3D16

Plu­tarco (46 — 120 d.C.)

Plu­tarco (cerca 46 — 120 d.C.) — “Vida de Numa Pompilius”

Foi o tri­gé­simo sétimo ano, con­tado a par­tir da fun­da­ção de Roma, quando Rómu­lus, então rei­nante, no quinto dia do mês de Julho, fes­te­jou os Nonae Caprütī­nae, ofe­re­cendo um sacri­fí­cio público no Caprae Palus, na pre­sença do senado e do povo de Roma. De repente, o céu escu­re­ceu, uma espessa nuvem de tem­pes­tade e chuva envol­veu a terra, as pes­soas fugi­ram em afli­ção, e foram dis­per­sas, e neste tur­bi­lhão Rómu­lus desa­pa­re­ceu, e o seu corpo nunca foi encon­trado vivo ou morto.

A sus­peita recaiu sobre os patrí­cios, e os boa­tos eram cor­ren­tes entre as pes­soas como se, can­sa­dos da monar­quia e do com­por­ta­mento arro­gante de Rómu­lus em rela­ção a eles, tinham inten­tado con­tra a sua vida, de modo que eles pudes­sem assu­mir o governo nas suas pró­prias mãos. Esta sus­peita que pro­cu­ra­vam des­viar decre­tando hon­ras divi­nas para Rómu­lus, como se este não esti­vesse morto mas sim numa con­di­ção supe­rior. E Pró­cu­lus, um homem de nota, jurou que viu Rómu­lus arre­ba­tado aos céus com suas armas e para­men­tos, e ouviu-o cla­mar que eles deve­riam agora chamá-lo pelo nome de Qui­ri­nus [divin­dade que repre­senta o povo de Roma].

Refe­rên­cia: http://classics.mit.edu/Plutarch/numa_pom.html

 

 
  • Paulo Ramos 14 de April de 2013, às 1:23 Permalink | Responder  

    Os Cornos de Deus 

    ApisBull

     

    O deus do Antigo Tes­ta­mento, alter­na­da­mente Yah­veh ou El, foi, por diver­sas vezes, retra­tado como pos­suindo cor­nos e outras qua­li­da­des ani­mais ou mitológicas.

    A mai­o­ria das tra­du­ções do Antigo Tes­ta­mento ten­tam escon­der estas qua­li­da­des, pois não são con­cor­dan­tes com um deus invi­sí­vel, cri­a­dor do mundo, etc.

     

    Deus é um touro de guerra

    Come­ce­mos com Balaão, um pro­feta cal­deu, que é apre­sen­tado em Núme­ros como um admi­ra­dor espe­cial das qua­li­da­des de Yahveh:

    É Deus que os vem tirando do Egito; as suas for­ças são como as do boi sel­va­gem. (Núme­ros 23:22 —  João Fer­reira de Almeida)

    É Deus que os vem tirando do Egito; as suas for­ças são como as do boi sel­va­gem; ele devo­rará as nações, seus adver­sá­rios, lhes que­brará os ossos, e com as suas setas os atra­ves­sará. (Núme­ros 24:8 — João Fer­reira de Almeida)

    Montu boi de guerra

     

    Os cor­nos contagiosos

    Moi­sés, quando des­ceu do monte Sinai, depois de falar com deus, apa­re­ceu ao povo com cor­nos, como se as qua­li­da­des divi­nas fos­sem contagiosas:

    Quando Moi­sés des­ceu do monte Sinai, tra­zendo nas mãos as duas tábuas do tes­te­mu­nho, sim, quando des­ceu do monte, Moi­sés não sabia que a pele do seu rosto res­plan­de­cia, por haver Deus falado com ele. (.…)  Assim, pois, viam os filhos de Israel o rosto de Moi­sés, e que a pele do seu rosto res­plan­de­cia; e tor­nava Moi­sés a pôr o véu sobre o seu rosto, até entrar para falar com Deus.  (Êxodo 34:29–35 — João Fer­reira de Almeida)

    O tra­du­tor (neste caso, João Fer­reira de Almeida) tro­cou os “cor­nos” por “res­plan­de­ci­mento”. Nou­tras tra­du­ções apa­re­cem “raios de luz”, mas na tra­du­ção para o Latim — a Vul­gata Latina do século IV — ainda eram visí­veis os “cor­nos” no texto

    cum­que des­cen­de­ret Moses de monte Sinai tene­bat duas tabu­las tes­ti­mo­nii et igno­ra­bat quod cor­nuta esset facies sua ex con­sor­tio ser­mo­nis Dei
    (…) qui vide­bant faciem egre­di­en­tis Mosi esse cor­nu­tam sed ope­ri­e­bat rur­sus ille faciem suam si quando loque­ba­tur ad eos (Êxodo 34:29–35 - Vul­gata Latina)

    Baseando-se na tra­du­ção latina, Miche­lan­gelo retra­tou Moi­sés com cor­nos (http://en.wikipedia.org/wiki/Moses_(Michelangelo))

    Moises com cornos

     

    O altar com chifres

    Deus ordena que se cons­trua um altar com chi­fres nos qua­tro can­tos (Êxodo 27:1–2; Êxodo 38:1–2; Leví­tico 4:18,25).

    Altar com chifres

     

    Qual era a uti­li­dade des­tes chi­fres? Ser­viam de pro­tec­ção. Quem ficasse a segu­rar estes chi­fres fica­ria pro­te­gido — por lei — de pos­sí­veis per­se­gui­ções ou ameaças.

    Mas Ado­nias, com medo de Salo­mão, foi agarrar-se às pon­tas do altar. Então infor­ma­ram a Salo­mão: “Ado­nias está com medo do rei Salo­mão e está agar­rado às pon­tas do altar. Ele diz: ‘Que o rei Salo­mão jure que não matará este seu servo pela espada’”. (1 Reis 1:50–51, Nova Ver­são Internacional)

    Quando a notí­cia che­gou a Joabe, que havia cons­pi­rado com Ado­nias, ainda que não com Absa­lão, ele fugiu para a Tenda do Senhor e agarrou-se às pon­tas do altar. (1 Reis 2:28, Nova Ver­são Internacional)

    Um cân­tico serve para mos­trar a crença na pro­tec­ção ofe­re­cida pelo chi­fre de Deus:

    O meu Deus é a minha rocha, em que me refugio;

    Ele é a minha torre alta, o meu abrigo seguro.
    Tu, Senhor, és o meu salvador, e me sal­vas dos vio­len­tos.
    (2 Samuel 22:3 - Nova Ver­são Internacional)

     

    Deus é um dra­gão guerreiro

    Um poema em Sal­mos 18 retrata o deus dos judeus como um dra­gão guer­reiro que voa mon­tado num querubim:

    1 Eu te amo, ó Senhor, minha força.
    2 O Senhor é a minha rocha, a minha for­ta­leza
    e o meu libertador;

    em quem me refu­gio.
    Ele é o meu escudo e o poder (hebraico: chi­fre) que me salva,
    a minha torre alta.
    .…

    8 Das suas nari­nas subiu fumaça;
    da sua boca saí­ram bra­sas vivas
    e fogo con­su­mi­dor.
    9 Ele abriu os céus e des­ceu;
    nuvens escu­ras esta­vam sob os seus pés.
    10 Mon­tou um que­ru­bim e voou,
    des­li­zando sobre as asas do vento.
    11 Fez das tre­vas o seu escon­de­rijo,
    das escu­ras nuvens, cheias de água,

    12 Com o ful­gor da sua pre­sença
    as nuvens se des­fi­ze­ram em gra­nizo e raios,
    13 quando dos céus tro­ve­jou o Senhor,
    e res­soou a voz do Altís­simo.
    14 Ati­rou suas fle­chas e dis­per­sou meus ini­mi­gos,
    com seus raios os der­ro­tou.
    .… (Sal­mos 18 — Nova Ver­são Internacional)

     

    O que monta, agora, Yah­veh? Monta um que­ru­bim. Mas como seria um querubim?

    querubim assirio

     

     
    • Ateu Português 17 de Junho de 2013, às 12:53 Permalink | Responder

      Lei­tura muito inte­res­sante.
      Obri­gado Paulo.

    • Paulo Ramos 24 de Junho de 2013, às 9:11 Permalink | Responder

      Obri­gado pelo feed­back e pela apre­ci­a­ção.
      Um abraço.

    • janderli juliao 2 de Julho de 2013, às 8:12 Permalink | Responder

      O seu ota­rio que fazer graca poe uma melan­cia na.cabeca e sai rebo­lando seu pau no cu de uma figa

    • Messias 11 de Julho de 2013, às 22:31 Permalink | Responder

      Gos­ta­ria de saber, se vc pode me pro­var que no latim a tra­du­çao de Êxodo 34:29 , refere-se a moi­sés sendo apre­sen­tado ao povo com chi­fres. Afi­nal dizer que a tra­du­çao é esta que vc apre­sen­tou nao prova nada.

    • Paulo Ramos 15 de Julho de 2013, às 23:51 Permalink | Responder

      Mes­sias,
      Por exem­plo, este artigo (http://www.rome.info/michelangelo/moses/) diz que Jeró­nimo tra­du­ziu erra­da­mente por “cor­nos” na Vul­gata Latina.

      Mas, por­que é que Jeró­nimo iria fazer um erro des­ses?
      E por­que é que Miche­lan­gelo seguiu, mil anos mais tarde, a des­cri­ção desta tra­du­ção como ins­pi­ra­ção para a sua está­tua de Moisés?

  • Lúcio Mateus 24 de March de 2013, às 18:52 Permalink | Responder  

    Fundamentalismo Ateu 

    march24.atheism

    Lúcio Mateus

    Faz hoje uma semana que me sen­tei pela pri­meira vez a escre­ver um artigo para afi­xar na porta desta humilde mas aco­lhe­dora alber­ga­ria do pere­grino ateísta. Um artigo que cul­mi­nou na con­clu­são de que o ateísmo é neces­sa­ri­a­mente uma forma de fun­da­men­ta­lismo. O texto em si, como no seu corpo se lê, nas­ceu de uma refle­xão des­po­le­tada por uma afir­ma­ção que ao gal­gar o muro dos meus den­tes incen­ti­vou outras mais indo­len­te­mente encos­ta­das às pare­des inter­nas do meu crâ­nio a revoltarem-se e a faze­rem o mesmo quando a notí­cia da fuga entrou pelos ouvi­dos. Para quem não leu, refiro-me à afir­ma­ção de que ‘é impos­sí­vel converter-me’, que lar­gada a mon­tante do sereno fluxo raci­o­nal vem a des­cer deva­ga­ri­nho até à foz do fun­da­men­ta­lismo ateísta que referi no início.

    Acon­tece que essa mesma con­clu­são deixou-me com um sen­ti­mento de insa­tis­fa­ção inte­lec­tual não muito dife­rente do que me foi dei­xado pela afir­ma­ção ori­gi­nal. “Fun­da­men­ta­lismo” é uma pala­vra com um cadas­tro impres­si­o­nante e não me parece justo incluir “ateísmo” no número dos seus cúm­pli­ces sem fazer um inqué­rito rigo­roso pri­meiro, quanto mais não seja por­que enquanto ateu é tam­bém o meu bom nome que está em causa. As linhas que se seguem são o rela­tó­rio desse inqué­rito que fui desen­vol­vendo aos pou­cos ao longo desta semana, nos meus cur­tos mas pre­ci­o­sos momen­tos de filo­so­fia dos tem­pos livres (passe o pleonasmo).

    É pos­sí­vel acreditar-se em algo que seja ver­dade por bons e por maus moti­vos. Se alguém acre­di­tar na teo­ria heli­o­cên­trica ape­nas só por­que a ouviu do seu pai que nunca se engana a res­peito de nada, essa pes­soa não dei­xará de estar certa, mas estará certa pelos moti­vos erra­dos. Porém, do ponto de vista prá­tico não haverá dife­rença alguma, e por esse motivo difi­cil­mente alguém estará dis­posto a per­der o seu tempo a ten­tar suprir um tal indi­ví­duo com os fun­da­men­tos teó­ri­cos cor­rec­tos para a sua crença. Esse tempo seria melhor des­pen­dido a explicar-lhe que a auto­ri­dade pater­nal não é uma fonte de infor­ma­ção segura acerca de astro­no­mia, ou a ensi­nar a teo­ria heli­o­cên­trica a quem ainda não a conheça ou a veja com des­con­fi­ança, por exemplo.

    Os teís­tas sofis­ti­ca­dos ten­dem a defen­der uma ver­são deste argu­mento em rela­ção à crença na exis­tên­cia de Deus, que obvi­a­mente con­si­de­ram um facto tão esta­be­le­cido quanto o heli­o­cen­trismo. É claro que reco­nhe­cem que quem crê em Deus ape­nas por­que foi bap­ti­zado e fez a cate­quese com­pul­si­va­mente, ou por­que toda a gente na sua comu­ni­dade acre­dita, ou por­que uma vez rezou à Nossa Senhora para que vol­tasse a luz depois da tro­vo­ada e fun­ci­o­nou, tem uma fé super­fi­cial por­que nunca foi tema­ti­zada pela Razão. Mas em ter­mos prá­ti­cos tanto faz por­que em geral os fiéis igno­ran­tes no sen­tido que agora referi (que são a esma­ga­dora mai­o­ria) vivem de acordo com os pre­cei­tos morais da reli­gião que pro­fes­sam e isso é que inte­ressa, ainda que muito pouco sai­bam sobre os seus fun­da­men­tos, quer por não terem inte­resse em saber, quer por serem dema­si­ado limi­ta­dos inte­lec­tu­al­mente para com­pre­en­de­rem sub­ti­le­zas teo­ló­gi­cas. Ou seja, este vasto con­junto de pes­soas age na mai­o­ria dos dias den­tro dos limi­tes da mora­li­dade por medo da ira divina e não por pro­cu­rar ali­nhar a sua von­tade com a de Deus (ao que cor­res­pon­de­ria a ati­tude reli­gi­osa ética). Pouco importa. O que inte­ressa é que quem teme as pra­gas divi­nas geral­mente não se torna uma. É essa a grande van­ta­gem da crença numa moral objec­tiva e numa jus­tiça infa­lí­vel de ori­gem divina: torna pos­sí­vel man­ter repri­mi­das as pul­sões atá­vi­cas dos mais fra­cos de espí­rito que de outro modo não hesi­ta­riam em per­pe­trar toda a espé­cie de acção abo­mi­ná­vel. Ou pelo menos assim dizem alguns religiosos.

    Num debate con­tra o Sam Har­ris, o Wil­liam Lane Craig defen­deu esta posi­ção como um ponto a favor da reli­gião. Inde­pen­den­te­mente da exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de Deus, argu­men­tou ele, a reli­gião tem a uti­li­dade prá­tica de com­pe­lir aque­les indi­ví­duos mais igno­ran­tes que de outro modo pode­riam ser pro­pen­sos à vio­lên­cia des­bra­gada a obe­de­ce­rem àque­las regras morais bási­cas sem as quais a vivên­cia comu­ni­tá­ria seria insus­ten­tá­vel. Ou seja, se nes­sas pes­soas (i.e. na maior fatia da Huma­ni­dade) não tivesse sido incul­cada desde cedo a crença numa auto­ri­dade suprema que os observa a todo o ins­tante e tives­sem sido aban­do­na­dos ao ateísmo, a soci­e­dade glo­bal pro­va­vel­mente rui­ria em pouco tempo. Nou­tros ter­mos, a reli­gião não pode dar a este tipo de pes­soa a pro­pen­são íntima para cami­nhar rec­ti­li­ne­a­mente na via moral que só pode advir pela fé genuína tem­pe­rada pela Razão, mas depondo-as num cor­re­dor nor­ma­tivo ima­gi­ná­rio acaba por pro­du­zir o mesmo efeito prá­tico. Com isto em mente, ainda que os ateus este­jam cer­tos e Deus não exista, o seu desejo de pro­pa­gar o ateísmo por todo o mundo, caso fosse bem-sucedido, pode­ria resul­tar no colapso da civi­li­za­ção. A con­sequên­cia lógica deste raci­o­cí­nio é que o fun­da­men­ta­lismo ateísta, em teo­ria ainda que não na prá­tica, é muito mais peri­goso do que o teísta.

    Claro, o lado nega­tivo de toda a crença impér­via a qual­quer forma de escru­tí­nio raci­o­nal que possa pôr em causa o menor dos seus prin­cí­pios é que tem neces­sa­ri­a­mente de ficar anqui­lo­sada no fun­da­men­ta­lismo, e o fun­da­men­ta­lismo, como bem sabe­mos, por vezes pro­duz um curto-circuito. Quando acon­tece, leva o crente igno­rante a girar sobre os cal­ca­nha­res, a inver­ter a direc­ção den­tro do seu cor­re­dor nor­ma­tivo ima­gi­ná­rio e a avan­çar no sen­tido oposto, de tal modo que começa a agir imo­ral­mente na con­vic­ção de que está a agir moral­mente (i.e. a evi­tar a ira divina e a mere­cer a recom­pensa da feli­ci­dade eterna). Note-se que estes fun­da­men­ta­lis­tas não o são menos do que qual­quer outro crente que como eles creia em Deus pelos “moti­vos erra­dos”, mas neste caso a crença deve ser com­ba­tida por­que tem um efeito prá­tico per­ni­ci­oso – nome­a­da­mente a morte de milha­res de pes­soas em aten­ta­dos, con­de­na­ções à pena máxima em Esta­dos teo­crá­ti­cos, homi­cí­dios moti­va­dos pela ten­ta­tiva de pur­gar ou punir algum pecado come­tido por outrem e outras coi­sas igual­mente desagradáveis.

    Os ateus nunca se can­sa­rão de apon­tar a vio­lên­cia ori­gi­nada pelo fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso como o mais nefasto efeito do teísmo. A defesa dos cren­tes tipi­ca­mente assume a forma de um de dois argu­men­tos, ou ambos. Em pri­meiro lugar, o argu­mento de que a vio­lên­cia moti­vada pela reli­gião é, tal como referi, um curto-circuito da fé. A crença em Deus ten­den­ci­al­mente pro­duz um efeito social benigno – repita-se, ainda que se creia em Deus pelos moti­vos erra­dos. Este ponto é facil­mente com­pro­vado pelo facto ine­gá­vel de a vasta mai­o­ria dos cren­tes ser gente pací­fica. Logo, tomar um con­junto de casos iso­la­dos como medida para jul­gar o todo é um passo irra­ci­o­nal indigno de quem diz defen­der a raci­o­na­li­dade acima de tudo, como por exem­plo os ateus. É certo que esses casos iso­la­dos quando bem con­ta­dos per­fa­zem um número assus­ta­dor mas con­si­de­rado no con­texto do con­junto total dos cren­tes acaba por não ser sig­ni­fi­ca­tivo do ponto de vista estatístico.

    Que a reli­gião não gera pes­soas mali­ci­o­sas por sis­tema é uma evi­dên­cia demons­trada pelo sim­ples facto de ainda haver civi­li­za­ção. Em vista da per­cen­ta­gem da popu­la­ção mun­dial que é reli­gi­osa, parece óbvio que se fos­sem todos maus por serem reli­gi­o­sos tería­mos sido há muito erra­di­ca­dos da face do pla­neta pela nossa pró­pria mão. A enorme quan­ti­dade de cren­tes igno­ran­tes que existe torna ine­vi­tá­vel a ocor­rên­cia do oca­si­o­nal curto-circuito fun­da­men­ta­lista, decerto, mas esse mal menor não nos deve des­viar a aten­ção do bem maior que uma crença gene­ra­li­zada em Deus pro­duz, que nada menos é do que a pos­si­bi­li­dade de a estru­tura social em regiões pouco desen­vol­vi­das civi­li­za­ci­o­nal­mente se man­ter rela­ti­va­mente coesa ainda que mui­tos dos indi­ví­duos que a inte­gram não sejam intrin­se­ca­mente bons. Nada direi em con­trá­rio deste argu­mento por agora mas como se verá, a con­clu­são deste artigo será a sua resposta.

    O segundo argu­mento reli­gi­oso típico a con­si­de­rar é o de que o ateísmo tam­bém não está isento de seme­lhan­tes curto-circuitos fun­da­men­ta­lis­tas, e com con­sequên­cias não menos nefas­tas. É neste ponto que sem falha entram no debate em igno­mi­ni­osa pro­cis­são os nomes de Hitler, Esta­line e de outros tan­tos dita­do­res fas­cis­tas. Não faço ten­ções de repe­tir aqui as tré­pli­cas ateís­tas do cos­tume: “Hitler não era ateu”, “o fas­cismo é uma ver­são adul­te­rada da reli­gião”, “Esta­line era ateu mas não come­teu os cri­mes que come­teu em nome do ateísmo”, etc. Todos são contra-argumentos legí­ti­mos mas há aqui um outro ponto que penso ter pas­sado des­per­ce­bido no debate e que tem de ser posto em foco. Refiro-me à ine­gá­vel assi­me­tria qua­li­ta­tiva entre os fun­da­men­ta­lis­mos ateísta e teísta, que tende a ser dis­far­çada pela sime­tria quan­ti­ta­tiva no que res­peita ao número e vari­e­dade de atro­ci­da­des resul­tan­tes de ambos. O que quero dizer com isto é que ao mesmo tempo que os reli­gi­o­sos “sofis­ti­ca­dos” se demar­cam dos cren­tes fun­da­men­ta­lis­tas por­que estes últi­mos são em geral indi­ví­duos igno­ran­tes (não ape­nas em ter­mos aca­dé­mi­cos mas acerca do mundo, da mora­li­dade, do que é ver­da­dei­ra­mente Deus, etc.), pare­cem que­rer dar a enten­der que o fun­da­men­ta­lista ateísta típico é um dita­dor de uma super­po­tên­cia polí­tica, eco­nó­mica e mili­tar. Não pode ser negado que há aqui uma assimetria.

    As per­gun­tas que coloco, por­tanto, são estas: onde estão os curto-circuitos dos fun­da­men­ta­lis­tas ateus igno­ran­tes? Tam­bém os há, segu­ra­mente. E se a grande van­ta­gem da reli­gião que legi­tima o desejo da sua pro­pa­ga­ção inde­pen­den­te­mente da exis­tên­cia de Deus é o código de con­duta que impõe aos “bár­ba­ros” por via de uma auto­ri­dade jus­ti­ceira invi­sí­vel, onde estão os casos conhe­ci­dos de cri­mes come­ti­dos por aque­les que se mos­tra­ram imu­nes a esse código, e que os come­te­ram por se assu­mi­rem como imu­nes a esse código? Ou será que para se ser um ateu imo­ral é pre­ciso pri­meiro ascender-se à posi­ção de líder auto­crá­tico de uma nação? Onde estão, afi­nal, os ateus “bár­ba­ros” violentos?

    Tal como é pos­sí­vel do ponto de vista de um crente sofis­ti­cado ser-se crente pelos moti­vos erra­dos, tam­bém é pos­sí­vel para um ateu sofis­ti­cado reco­nhe­cer certo tipo de ateísmo como defi­ci­ente na sua moti­va­ção. Posso dizer que conheço vários ateus “erra­dos”. São aque­les que são ateus por odi­a­rem a reli­gião, e geral­mente o Cato­li­cismo em par­ti­cu­lar. Isto pode acon­te­cer pelas mais vari­a­das razões. Alguns foram for­ça­dos a assis­tir à missa todas as sema­nas quando eram miú­dos e detes­ta­ram aquilo de tal modo que esse ódio à missa se tor­nou pre­missa para con­cluir o ódio à reli­gião como um todo. Outros par­tem do hor­ror dos cri­mes come­ti­dos ao longo da his­tó­ria e na actu­a­li­dade pelos supos­tos repre­sen­tan­tes de Deus na terra para a con­clu­são iló­gica da ine­xis­tên­cia de Deus. Outros ainda eram cató­li­cos mas como per­de­ram alguém pró­ximo de forma trá­gica convenceram-se de que foram enga­na­dos pela reli­gião por­que se aquilo que o padre dizia sobre Deus fosse ver­dade, essa pes­soa ou pes­soas não teriam mor­rido como mor­re­ram. Outros ainda, vários outros, foram víti­mas de abuso sexual por mem­bros do clero.

    Nenhum dos moti­vos supra­ci­ta­dos cons­ti­tui razão válida para se ser ateu por­que nenhum deles se baseia no pen­sa­mento raci­o­nal sobre Deus e sim numa reac­ção emo­ci­o­nal de algum modo ligada à reli­gião; em espe­cí­fico à reli­gião em par­ti­cu­lar que por um ou outro motivo dei­xou pior impres­são no indi­ví­duo em ques­tão. Estes ateus são tão fun­da­men­ta­lis­tas no seu ateísmo limi­tado quanto o é um fun­da­men­ta­lista reli­gi­oso na sua fé limi­tada. Diria mesmo que alguns des­tes ateus odeiam a reli­gião com a mesma vee­mên­cia com que os outros odeiam o ateísmo.

    Mas então, se assim é, se o ódio e a igno­rân­cia fun­da­men­ta­lista exis­tem de parte a parte, por que razão é neces­sá­rio ascen­der ao topo da pirâ­mide polí­tica de um Estado fas­cista para se encon­trar um ateu de pro­pen­são cri­mi­nosa ale­ga­da­mente por ser ateu? Por­que não se vêem no tele­jor­nal hor­das de ateus igno­ran­tes aos gri­tos na rua a cla­mar por san­gue reli­gi­oso? Vejo mani­fes­ta­ções pací­fi­cas mas não vejo san­gue nem mor­tes. Não pre­tendo que estas sejam per­gun­tas retó­ri­cas. É real­mente impor­tante que sejam respondidas.

    Penso que a expli­ca­ção terá algo a ver com o facto de o fun­da­men­ta­lismo ateísta igno­rante ser sem­pre a reac­ção de um jovem ou adulto con­tra a reli­gião e não o resul­tado de uma dou­tri­na­ção ini­ci­ada na infân­cia. Um fun­da­men­ta­lista reli­gi­oso define toda a sua iden­ti­dade como reli­gi­oso desde cri­ança mas um fun­da­men­ta­lista ateu não. O típico fun­da­men­ta­lista igno­rante ateu é alguém que a dada altura teve de rede­fi­nir a sua iden­ti­dade como alguém que não quer ter nada a ver com a reli­gião na qual foi edu­cado, ou com a qual teve con­tacto for­çado desde cedo, e que o desiludiu.

    Esse ódio ateísta, errado como todo o ódio é, manifesta-se em geral de forma posi­tiva no sen­tido prá­tico pelo afas­ta­mento deli­be­rado de tudo quanto é reli­gi­oso, incluindo as ati­tu­des imo­rais dos fun­da­men­ta­lis­tas reli­gi­o­sos tais como for­çar alguém a agir ou pen­sar de certa maneira. A ten­ta­tiva de pro­pa­gar uma ide­o­lo­gia à força é con­si­de­rada pelo ateu igno­rante como uma das carac­te­rís­ti­cas intrín­se­cas da reli­gião, e como tudo o que à reli­gião diz res­peito, é algo a evi­tar. A reli­gião assim con­si­de­rada como exem­plo de imo­ra­li­dade torna-se, por con­traste, um móbil para a mora­li­dade do ateu igno­rante. E de facto, per­gun­tem a um reli­gi­oso “sofis­ti­cado” se se sen­ti­ria mais seguro na com­pa­nhia de um fun­da­men­ta­lista igno­rante ateu ou de um reli­gi­oso. Outra per­gunta inte­res­sante seria a de quem na sua opi­nião teria uma espe­rança de vida mais longa: um cris­tão entre ateus fun­da­men­ta­lis­tas ou um ateu entre reli­gi­o­sos fun­da­men­ta­lis­tas. Peçam-lhe que jus­ti­fi­que a resposta.

    Não está, pois, demons­trado que tenha­mos de acei­tar o mal do fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso igno­rante a troco da rela­tiva paz que a reli­gião supos­ta­mente pela sua maior parte traz entre os menos civi­li­za­dos de nós. O fun­da­men­ta­lismo ateísta con­se­gue o mesmo sem o incon­ve­ni­ente dos aten­ta­dos, e só por isso merece ser con­si­de­rado melhor do ponto de vista prá­tico, ainda que tão errado quanto o seu con­trá­rio do ponto de vista teórico.

    Dito isto, edu­quem as cri­an­ças desde cedo a des­pre­zar toda a forma de dou­tri­na­ção e dei­xa­re­mos de pre­ci­sar de fun­da­men­ta­lis­mos de qual­quer espé­cie, ateus ou reli­gi­o­sos. Até lá, o ateísmo entre as mas­sas igno­ran­tes é mais do que fun­da­men­ta­lista. É fundamental.

     
  • Lúcio Mateus 18 de March de 2013, às 11:11 Permalink | Responder  

    O Erro do Ateísmo 

    forbidden-sign

    Lúcio Mateus

    Há momen­tos na vida de todo o ateu que não seja tímido quanto ao seu ateísmo em que o can­saço do debate com cren­tes e da troca inces­sante de argu­men­tos que se suce­dem como res­pon­sos auto­ma­ti­za­dos pesa sobre os ombros como uma cruz já com o Filho do Homem em anexo, sem que ao pobre ateu pros­trado possa valer algum pro­fano Simão de Cirene, por­que pri­meiro have­ria que deba­ter a his­to­ri­ci­dade da exis­tên­cia deste último de modo a legi­ti­mar a metá­fora. Esses são os dias em que tanto faz que Deus exista ou não por­que, seja­mos hones­tos, há coi­sas mais impor­tan­tes no mundo do que a sua origem.

    Nou­tros dias des­pre­za­mos a ati­tude des­crita no pará­grafo ante­rior de tal maneira que até muda­mos de pará­grafo só para evi­tar tão covarde com­pa­nhia. São esses os dias do com­bate, aque­les dias em que não nos impor­ta­mos de vol­tar ao menu de capí­tu­los do ateísmo e repe­tir os argu­men­tos do cos­tume do pri­meiro ao último, e em que per­de­mos tempo a meta­fo­ri­zar com lin­gua­gem da con­tem­po­ra­nei­dade só para evi­tar­mos a Res­sur­rei­ção do que quer que seja, ainda que ape­nas do defunto verbo “rebo­bi­nar”. Nes­ses dias acre­di­ta­mos ser impor­tante rei­te­rar os argu­men­tos uma e outra vez por­que pode ser que uma des­sas vezes seja a pri­meira que alguém os lê ou ouve. São os dias em que nos cruza o espí­rito o espan­toso pen­sa­mento de que todos os dias, incluindo nesse, nasce alguém que não sabe nada disto e que tem de ser edu­cado de raiz.

    E depois, entre uns e outros dias, há os Domin­gos. Escrevo estas linhas num Domingo, sozi­nho num quarto de hotel medi­ano per­dido algu­res num con­ti­nente em que parece só ser ateu quem é estran­geiro. Os Domin­gos são pro­pí­cios à refle­xão, e tal como os cató­li­cos os apro­vei­tam para recon­fir­mar a sua Fé, assim tam­bém os ateus os devem apro­vei­tar para recon­fir­mar o seu cep­ti­cismo. É com os fru­tos dessa auto-análise domin­gueira que inau­guro a minha par­ti­ci­pa­ção neste espaço. É um texto longo, bem sei, mas a posi­ção que pre­tendo defen­der é polé­mica e pode gerar alguma con­fu­são se mal expli­cada, pelo que pre­firo per­der os lei­to­res apres­sa­dos a per­der o res­peito dos restantes.

    Pas­sei por uma fase recen­te­mente em que por algum motivo os dias des­cri­tos no segundo pará­grafo pre­en­che­ram a mai­o­ria do calen­dá­rio. Durante essa fase, em con­versa com um amigo cató­lico, dei por mim a acres­cen­tar a um argu­mento já muito gasto um invul­gar coro­lá­rio: “é abso­lu­ta­mente impos­sí­vel converter-me”.

    A frase soou-me mal logo no momento em que a pro­feri mas como estava a meio de um debate não pen­sei mais nela na altura e concentrei-me em con­ti­nuar a pro­cu­rar nos catá­lo­gos da memó­ria o res­ponso ateu apro­pri­ado ao dis­curso cató­lico que se seguiu ao meu argu­mento. Ter­mi­nada a dia­tribe teo­ló­gica do dia cada um foi para sua casa con­ven­cido exac­ta­mente do mesmo de que estava con­ven­cido na vés­pera. Como pres­senti nesse momento que estava a entrar num daque­les dias de pri­meiro pará­grafo não pen­sei mais no assunto, mas como escre­veu o Bardo, ‘Foul deeds will rise, though all the earth o’erwhelm them to men’s eyes’, e a cons­ci­ên­cia pesada forçou-me a pen­sar no caso.

    Dos tais ateus que não sejam tími­dos quanto ao seu ateísmo não deve haver um único que não tenha ouvido a dada altura o velho argu­mento de que “o ateísmo acaba por ser tam­bém uma forma de fé”. Se a frase tivesse algum fundo de ver­dade e o ateísmo pudesse ser con­si­de­rado reli­gião, levar com este argu­mento seria sem dúvida o seu bap­tismo. É um argu­mento fácil de reba­ter, como se sabe. Há vários res­pon­sos pos­sí­veis mas um dos mais típi­cos con­siste em dizer que o ateu renun­ci­a­ria à sua “fé” de ime­di­ato se Jesus ou qual­quer outra divin­dade deci­disse aparecer-lhe à frente, ao passo que nada faria demo­ver um reli­gi­oso devoto da sua crença. Ergo, ateísmo não é fé.

    Este é um argu­mento comum. Igual­mente comum, por outro lado, é dizer-se na senda do Daw­kins que todos aque­les que afir­mam ter real­mente visto Jesus ou “expe­ri­men­tado” Deus de alguma forma foram víti­mas de alu­ci­na­ção. Usa­mos uma de várias ver­sões desse argu­mento para refu­tar expli­ca­ções sobre­na­tu­rais de fenó­me­nos estra­nhos, como o das piru­e­tas do Sol sobre a Cova da Iria, por exem­plo, ale­ga­da­mente pre­visto pelos pas­to­ri­nhos e tes­te­mu­nhado por milhares.

    Ora, sendo eu um dos uti­li­za­do­res fre­quen­tes desse tipo de argu­mento não pude dei­xar de cons­ta­tar uma con­tra­di­ção no meu raci­o­cí­nio enquanto ateu. Por um lado digo que (1) a minha posi­ção distingue-se de a de um reli­gi­oso por ser fal­si­fi­cá­vel, nome­a­da­mente por via de uma mani­fes­ta­ção “clara e dis­tinta” do sobre­na­tu­ral; e por outro digo que (2) nunca pode haver uma mani­fes­ta­ção clara e dis­tinta do sobre­na­tu­ral por­que a expli­ca­ção de uma tal expe­ri­ên­cia por via da alu­ci­na­ção será sem­pre mais plau­sí­vel, não só por­que não sabe­mos tanto sobre o cére­bro que pos­sa­mos des­car­tar essa hipó­tese em bene­fí­cio de uma que envolva agên­cia divina, mas tam­bém por­que uma expli­ca­ção natu­ral será sem­pre mais ele­gante e eco­nó­mica do que a sobre­na­tu­ral e, logo, pre­fe­rí­vel. A con­clu­são ine­vi­tá­vel, para­fra­se­ando Sto. Agos­ti­nho numa das suas auto-análises, é que (3) o meu ateísmo é fal­si­fi­cá­vel se não me per­gun­ta­rem em que cir­cuns­tân­cias o seria, e se mo per­gun­ta­rem, não o é.

    O único momento em que vi alguém con­fron­tar o Daw­kins direc­ta­mente com esta objec­ção foi neste evento. No minuto 31:10 o men­te­capto com quem ele debate põe na mesa a ques­tão do tipo de prova não cien­tí­fica que pode­ria ainda assim ser con­tado como prova de algo. O Daw­kins admite a exis­tên­cia de tais pro­vas e argu­menta nesse sen­tido. Pouco depois é dada a pala­vra a um mem­bro do público que per­gunta direc­ta­mente ao Daw­kins qual seria a sua reac­ção se Deus um dia deci­disse revelar-se-lhe expli­ci­ta­mente. A res­posta começa por ser brin­ca­lhona mas pouco depois o Daw­kins diz que já pen­sou nisso várias vezes por uma ques­tão de escrú­pulo cien­tí­fico, e que até já dis­cu­tiu o assunto em pro­fun­di­dade com cole­gas. No entanto, no que se segue diz aber­ta­mente que mesmo que se desse uma tal mani­fes­ta­ção pode­ria ainda assim ser con­si­de­rada uma ilu­são. O vídeo parece estar edi­tado nesse ponto mas o pen­sa­mento por detrás da res­posta é patente: qual­quer puta­tiva mani­fes­ta­ção do divino pode e deve ser sem­pre impu­tada a um des­vio da acti­vi­dade cog­ni­tiva nor­mal, pelo que nunca poderá haver pro­vas con­vin­cen­tes da exis­tên­cia de Deus ainda que Ele pusesse o Sol a sal­ti­tar no céu ou fizesse ele­ger um Papa argentino.

    Isto preocupa-me por­que ape­sar de dis­cor­dar do Daw­kins em quase tudo tenho de con­cor­dar com ele neste aspecto, e ao con­cor­dar com ele tenho de admi­tir, por muito que me custe, que a defesa de uma posi­ção de tal modo ina­mo­ví­vel soa a fun­da­men­ta­lismo. É um facto: se Jesus me apa­re­cesse à frente em toda a sua gló­ria, anun­ci­asse ser o filho uni­gé­nito de Deus e sus­ten­tasse essa afir­ma­ção curando-me a esco­li­ose nem assim eu o reco­nhe­ce­ria como tal – não por ter alguma aver­são figa­dal à ideia de Deus (não tenho) mas por con­si­de­rar que mesmo essa mani­fes­ta­ção não seria prova sufi­ci­ente da sua exis­tên­cia visto que teria de eli­mi­nar todas as expli­ca­ções natu­rais pos­sí­veis para o fenó­meno antes de che­gar a essa, o que é impos­sí­vel na ausên­cia de um conhe­ci­mento per­feito do natu­ral. Como é óbvio, a for­ti­ori,o mesmo aplica-se às ques­tões da ori­gem do uni­verso e da vida, à natu­reza da cons­ci­ên­cia, etc.

    Nou­tros ter­mos, a mais raci­o­nal expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para o que quer que seja é e será sem­pre ainda assim menos plau­sí­vel do que a mais implau­sí­vel e irra­ci­o­nal expli­ca­ção natu­ral. É evi­dente que assim é visto que raci­o­nal­mente somos for­ça­dos a impu­tar o inex­pli­cá­vel e o irra­ci­o­nal às nos­sas limi­ta­ções antes de tran­subs­tan­ci­ar­mos a igno­rân­cia que delas decorre em conhe­ci­mento sobre o sobre­na­tu­ral. Admi­tir que a expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para um fenó­meno mis­te­ri­oso é a mais plau­sí­vel de todas implica admi­tir que ape­nas pela força da Razão con­se­gui­mos inva­li­dar por com­pleto todas as expli­ca­ções natu­rais alter­na­ti­vas. Ora, ape­nas numa cir­cuns­tân­cia seria legí­timo admi­tir essa pos­si­bi­li­dade: se a Razão tivesse uma ori­gem sobre­na­tu­ral. Uma vez que é pre­ci­sa­mente isso que está em causa, resta-nos admi­tir que não basta ter-se Razão para se ter razão. Ou seja, o limite do raci­o­nal não é o do sobre­na­tu­ral, é o do irra­ci­o­nal – e raci­o­nal­mente nada impede que o irra­ci­o­nal seja, ainda assim, natural.

    Nesta pers­pec­tiva, parece haver ape­nas uma forma de evi­tar o epí­teto de ateu fun­da­men­ta­lista, que é o de acei­tar o de agnós­tico. O ateísmo enquanto posi­ção de que “não creio em Deus nem no sobre­na­tu­ral em geral por­que não há razões para crer na sua exis­tên­cia” contradiz-se por ser uma posi­ção que não admite a pos­si­bi­li­dade de exis­ti­rem tais razões. Ou seja, o mais desa­ver­go­nhado dos deu­ses não con­se­gui­ria ainda assim per­su­a­dir um ateu con­victo de que não se tra­tava de uma alu­ci­na­ção, por mais que ten­tasse. Assim sendo, em que se dis­tin­gue do dog­ma­tismo reli­gi­oso per­se­ve­rar na afir­ma­ção de que Deus muito pro­va­vel­mente não existe se não há pos­si­bi­li­dade de haver prova do con­trá­rio? Alguns ateus dirão que não acre­di­tam por­que não houve prova do con­trá­rio até ao momento, mas que estão dis­pos­tos a acei­tar a pos­si­bi­li­dade de haver tais pro­vas. Cui­dado: assim que o fize­rem, se qui­se­rem manter-se coe­ren­tes, terão de assumir-se como agnós­ti­cos a res­peito de todos os mila­gres que não tes­te­mu­nha­ram pes­so­al­mente – mais espe­ci­fi­ca­mente, terão de dei­xar em aberto a pos­si­bi­li­dade de terem sido con­ver­ti­dos na Cova da Iria se lá tives­sem estado e calarem-se acerca de quem lá esteve. E eis-nos regres­sa­dos ao agnosticismo.

    Por tudo isto, na minha opi­nião o con­ceito de ateísmo deve ser repen­sado. O ateísmo, pelos moti­vos atrás des­cri­tos, não é fal­si­fi­cá­vel, tal como o teísmo não é. Assim, mesmo que se assuma como para­digma epis­te­mo­ló­gico e não onto­ló­gico, o ateísmo não esca­pará à acu­sa­ção de uma certa dose de fun­da­men­ta­lismo. Os ateus dizem com frequên­cia que não acre­di­tam em Deus pelo mesmo motivo que não acre­di­tam em uni­cór­nios. É falso. Seria fací­limo provar-se a exis­tên­cia de uni­cór­nios. Sendo uma cri­a­tura física, bas­ta­ria apa­re­cer um. Outras vezes compara-se a crença em Deus à crença no Pai Natal. Esta com­pa­ra­ção é mais ade­quada por­que nenhum ateu acei­ta­ria reco­nhe­cer alguém como “o genuíno Pai Natal” por mais pro­vas que lhe fos­sem dadas, uma vez que a pos­si­bi­li­dade do engano seria sem­pre mais plau­sí­vel do que a alter­na­tiva. Por estes e outros moti­vos o dilema parece ine­vi­tá­vel: ou agnós­tico meta­fí­sico, ou ateu fundamentalista.

    Ora, na ver­dade o dilema não é ine­vi­tá­vel, com uma con­di­ção: a de o ateísmo dei­xar de ser con­si­de­rado uma posi­ção onto­ló­gica ou mesmo epis­te­mo­ló­gica e se assu­mir como a posi­ção reac­tiva que é, ou seja, que deixe de ser a posi­ção segundo a qual é quase certo Deus não existe e se assuma como a posi­ção bem dife­rente de que o teísmo é injus­ti­fi­cá­vel. Segundo esta última pers­pec­tiva, o ateísmo tornar-se-ia algo como um “agnos­ti­cismo mili­tante”, avesso a tudo quanto fosse crença na maior ou menor pro­ba­bi­li­dade da exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de Deus (por­que não pode haver prova alguma a res­peito de qual­quer das alter­na­ti­vas), mas em espe­cial avesso à crença teísta por ser, por um lado, a que mais dis­tante se encon­tra da única posi­ção epis­te­mo­lo­gi­ca­mente defen­sá­vel que é a do agnos­ti­cismo meta­fí­sico, e por outro, por ser em todos os aspec­tos o mais per­ni­ci­oso dos erros de pensamento.

    Enquanto reac­ção, logo, o objec­tivo último de qual­quer movi­mento ateísta não deve­ria ser o de che­gar­mos a um ponto em que todos negas­sem a exis­tên­cia de Deus, mas em que todos assu­mis­sem que não pode haver conhe­ci­mento algum sobre o que à maior ou menor pro­ba­bi­li­dade da exis­tên­cia do sobre­na­tu­ral con­cerne. Nesse dia utó­pico em que o teísmo se extin­gui­ria por fim extinguir-se-ia tam­bém o ateísmo por se tor­nar des­ne­ces­sá­rio; e uni­dos na cons­ci­ên­cia da nossa igno­rân­cia abso­luta acerca de tudo o que ultra­pas­sasse o uni­verso físico, pode­ría­mos aban­do­nar todos os fun­da­men­ta­lis­mos (a)teístas e come­çar­mos final­mente a preocupar-nos com coi­sas sérias. Não sei quando esse dia che­gará ou sequer se che­gará. O que sei é que muito pro­va­vel­mente será num Domingo.

     
    • mestrini 15 de Abril de 2013, às 10:23 Permalink | Responder

      Boas Lúcio,

      é com grande pra­zer que releio teus tex­tos gran­des e gran­des textos.

      Con­cordo con­tigo no fun­da­men­tal pois um cético e raci­o­nal tem sem­pre que por em cima da mesa a pos­si­bi­li­dade de vir a ser con­fron­tado com a exis­tên­cia de algo que é, a pri­ori, con­si­de­rado impos­sí­vel de acontecer/existir.

      No entanto, nesta sec­ção: “Admi­tir que a expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para um fenó­meno mis­te­ri­oso é a mais plau­sí­vel de todas implica admi­tir que ape­nas pela força da Razão con­se­gui­mos inva­li­dar por com­pleto todas as expli­ca­ções natu­rais alter­na­ti­vas.” penso que par­tes do prin­cí­pio, a meu ver, errado de que não existe nada que uma pos­sí­vel divin­dade possa fazer a um ser humano que este não con­siga dis­tin­guir de alu­ci­na­ção.
      Excluir todas as pos­sí­veis mani­fes­ta­ções ape­nas por­que não temos capa­ci­dade de as ima­gi­nar parece-me errado. Vem-me à memó­ria o argu­mento dos mem­bros dos ampu­ta­dos, ou mesmo daque­les que nunca os tive­ram, cres­ce­rem até a um estado fun­ci­o­nal. Mas pode­ría­mos ima­gi­nar outros como aquela cena do Indi­ana Jones e o tem­plo per­dido em que o fei­ti­ceiro saca o cora­ção à vítima de sacrifício.

      Cum­pri­men­tos

  • c
    Compose new post
    j
    Next post/Next comment
    k
    Previous post/Previous comment
    r
    Responder
    e
    Editar
    o
    Show/Hide comments
    t
    Go to top
    l
    Go to login
    h
    Show/Hide help
    shift + esc
    Cancelar