Sem remédio 

Começo este meu pri­meiro artigo no ateu.pt com alguns luga­res comuns: que na época actual é impos­sí­vel um ateu igno­rar a reli­gião, sendo por vezes neces­sá­rio impe­dir que esta se torne uma espé­cie de opção única.

A ver­dade é que a reli­gião se insi­nua em todos os aspec­tos do quo­ti­di­ano e quanto maior é a falta de con­di­ções de um povo – seja comida, cui­da­dos de saúde ou edu­ca­ção – maior é a sua prevalência.

E não falo de nenhuma em con­creto, uma vez que tem em comum vários objec­ti­vos. Tal­vez o pri­meiro seja a regu­la­ção social. Impondo uma hie­rar­quia clara, um padrão de con­duta, regu­lando as dis­pu­tas entre pes­soas, e adi­ando as recom­pen­sas para um tempo futuro: para depois da vida na terra. O segundo grande objec­tivo é estru­tu­rar o conhe­ci­mento. Esta ver­tente das reli­giões foi impor­tante numa altura em que haviam mui­tas per­gun­tas, mas pou­cas respostas.

Pode dizer-se por­tanto, que a reli­gião teve um papel impor­tante na forma como as soci­e­da­des se orga­ni­za­ram e é um fac­tor incon­tor­ná­vel para alguém que se debruce sobre o estado actual do mundo.

Isto leva-me ao ponto em que come­cei: na época actual é impos­sí­vel um ateu igno­rar a reli­gião. As razões que leva­ram ao sur­gi­mento da reli­gião estão ultra­pas­sa­das. A demo­cra­cia – nos paí­ses onde existe – é per­fei­ta­mente capaz de regu­lar a vida dos cida­dãos, a jus­tiça, a saúde, a edu­ca­ção e o apoio social. Pode­mos questionar-nos por isso, sobre os moti­vos que as levam a con­ti­nuar a exis­tir. Exis­tem múl­ti­plos moti­vos. Uns carac­te­rís­ti­cos de algu­mas reli­giões em par­ti­cu­lar, outros mais uni­ver­sais. Quando uma reli­gião con­dena com pena de morte quem pre­tenda sair, asse­gura de uma forma vio­lenta – mas efi­caz – a sua sobre­vi­vên­cia. Mas isto é um caso extremo. A melhor forma  que uma reli­gião tem para asse­gu­rar a sua sobre­vi­vên­cia, é criar uma rede de fieis em todos os pon­tos chave de um país demo­crá­tico, incluindo os luga­res de depu­tado, tendo como objec­tivo per­ver­ter essa demo­cra­cia numa teo­cra­cia disfarçada.

Curi­o­sa­mente a reli­gião pros­pera pre­ci­sa­mente nos paí­ses com mai­o­res assi­me­trias, e com maior expres­são nos pro­ble­mas que diz com­ba­ter: a injus­tiça e a pobreza.

Quando final­mente as reli­giões orga­ni­za­das implo­di­rem, nenhum ateu terá que pas­sar pelo des­con­forto de falar em reli­gião. Até lá, não tere­mos outro remédio.

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