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  • Lúcio Mateus 9 de November de 2013, às 12:31 Permalink | Responder  

    A Complexidade da Ignorância 

    Lúcio Mateus

    Recen­te­mente, uma des­pre­ten­si­osa piada ateísta expe­dida pelos canais vir­tu­ais por esse mundo luso-cristão fora deu pro­vas a sua efi­cá­cia ao des­po­le­tar uma inte­res­sante troca de argu­men­tos entre o Ber­nardo Motta e o Ludwig Krip­pahl, que à data con­ti­nua vigo­rosa. Como pode veri­fi­car o lei­tor pela res­posta do Ludwig à crí­tica ini­cial do Ber­nardo, o que está em causa no debate é a suposta igno­rân­cia do lado ateísta rei­te­ra­da­mente demons­trada pela ina­ni­dade de mani­fes­ta­ções humo­rís­ti­cas do género daquela que deu iní­cio à con­tenda. Para citar o Ber­nardo, «para enten­der bem o cris­ti­a­nismo, é pre­ciso muito inves­ti­mento de tempo e de inte­li­gên­cia». A teo­lo­gia cristã é extre­ma­mente com­plexa e, de modo aná­logo ao que acon­tece com qual­quer ciên­cia con­tem­po­râ­nea, sem um inves­ti­mento de tempo e de esforço inte­lec­tual que façam jus a essa com­ple­xi­dade, é ine­vi­tá­vel que na mente do leigo ateu (igno­rante da sua pró­pria igno­rân­cia) se crie a ilu­são de que já sabe o sufi­ci­ente sobre o assunto para se pôr a tecer crí­ti­cas, que não pode­rão dei­xar de resul­tar injus­tas e caricaturais.

    Con­cordo em pleno com os argu­men­tos apre­sen­ta­dos pelo Ludwig em rebate desta acu­sa­ção, e parto deles para entrar na dis­cus­são com alguns outros. Faço-o por­que é uma das crí­ti­cas de que mais fre­quen­te­mente sou alvo nas minhas con­ver­sas com cren­tes de várias estir­pes. Recordo, por exem­plo, o dia em que fui con­vi­dado por um amigo budista para assis­tir a uma pales­tra inti­mista de um monge tibe­tano que viveu anos nas mon­ta­nhas como recluso em pro­funda medi­ta­ção. Foi uma comu­ni­ca­ção extre­ma­mente inte­res­sante mas como das cerca de quinze pes­soas pre­sen­tes ape­nas eu e um amigo meu não eram budis­tas, per­cebi que mui­tos dos ter­mos empre­gues na dis­cus­são eram “téc­ni­cos” e que muito do que estava a ser dito me estava a pas­sar ao lado. No final, na espe­rança de mini­mi­zar um pouco essa igno­rân­cia, pedi humil­de­mente a quem me fez o con­vite que me indi­casse alguns livros que me aju­das­sem a com­pre­en­der o sig­ni­fi­cado daque­les ter­mos exó­ti­cos e o pen­sa­mento budista em geral. Res­pon­deu que teria todo o pra­zer em fazê-lo mas que essa com­pre­en­são seria um pro­cesso moroso, e que só esta­ria em con­di­ções de come­çar a pene­trar a lite­ra­tura de budismo avan­çado ao cabo de alguns anos de estudo e meditação.

    Num con­texto com­ple­ta­mente dife­rente, foi-me dito exac­ta­mente o mesmo por uma espe­ci­a­lista em Reiki acerca da sua área de espe­ci­a­li­za­ção depois de uma ses­são “tera­pêu­tica”. Numa cele­brada edi­ção aca­dé­mica do Corão, exaus­ti­va­mente comen­tada por um dos seus mais res­pei­ta­dos estu­di­o­sos con­tem­po­râ­neos, li que a com­pre­en­são da pala­vra de Alá tem vários níveis de pro­fun­di­dade, sendo que os mais avan­ça­dos são sim­ples­mente ina­ces­sí­veis à mai­o­ria das pes­soas, incluindo fiéis. Alguns aca­dé­mi­cos dizem mesmo que o número des­ses níveis é infi­nito, e que o Paraíso não é mais do que o eterno apro­fun­dar do conhe­ci­mento das pala­vras do texto sagrado, a que cor­res­ponde um eterno cres­cendo da comu­nhão com Alá. Con­fesso que enquanto leigo me espan­tou a beleza desta noção de Paraíso como uma eter­ni­dade de estudo e apren­di­za­gem, tão dife­rente da bea­ti­tude está­tica do Paraíso cris­tão ou da orgia des­bra­gada que ateus e cris­tãos igno­ran­tes jul­gam ser o Paraíso islâmico.

    A pos­ta­gens tan­tas, lança o Ber­nardo ao Ludwig o seguinte desa­fio: «Para uma pes­soa que escreve tanto sobre cris­ti­a­nismo, como é que não des­pen­des algum tempo a real­mente ler sobre cris­ti­a­nismo?». Em vista do que foi dito ante­ri­or­mente, posso fazer ao Ber­nardo uma outra per­gunta: Para uma pes­soa que escreve tanto sobre reli­gião, por­que não des­pen­des algum tempo a real­mente ler sobre outras que não o cristianismo?

    Não quero com isto dizer que o Ber­nardo não lê sobre outras reli­giões. Estou certo de que o faz, como vários outros ami­gos meus cris­tãos devo­tos fazem. Mas sei que não lê “real­mente” sobre outras reli­giões no sen­tido em que reco­menda aos ateus que leiam sobre o cris­ti­a­nismo. Sei que não o faz por­que sei que quando diz que o ateu deve “ler real­mente sobre cris­ti­a­nismo” quer dizer “ler com o espí­rito sufi­ci­en­te­mente aberto para se dei­xar con­ver­ter se o que ler fizer sen­tido para si”. É isso que pede ao ateu igno­rante. Mas visto que enquanto ateu igno­rante rela­ti­va­mente ao cris­ti­a­nismo estou na mesma posi­ção que qual­quer cris­tão igno­rante de todas as outras for­mas de reli­gião ou crença no sobre­na­tu­ral, estou ten­tado a per­gun­tar ao Ber­nardo: esta­rias dis­posto a explo­rar outras reli­giões que não a tua em toda a sua com­ple­xi­dade, durante anos e anos, com o mesmo espí­rito com que lês obras atrás de obras escri­tas por auto­res cris­tãos, isto é, aberto à pos­si­bi­li­dade da conversão?

    Não pre­ciso que res­pon­das. Nunca o farias, não só por­que seria impos­sí­vel numa só vida explo­rar a com­ple­xi­dade de todas as reli­giões mas tam­bém por­que ao fazê-lo dei­xa­rias de apro­fun­dar o teu conhe­ci­mento do cris­ti­a­nismo, o que cri­a­ria inco­e­rên­cia com a tua reco­men­da­ção de explo­rar o cris­ti­a­nismo para compreendê-lo. Mas o que é facto é que a acu­sa­ção de igno­rân­cia que lan­ças aos ateus pode com igual pro­pri­e­dade ser-te lan­çada por cren­tes de outras reli­giões, por­que arrisco dizer que nunca inves­tiste o mesmo tempo na explo­ra­ção de outra reli­gião que inves­tiste na explo­ra­ção do cris­ti­a­nismo. Então, se rela­ti­va­mente às outras reli­giões estás na mesma posi­ção que um ateu rela­ti­va­mente ao cris­ti­a­nismo, com que auto­ri­dade podes reco­men­dar ao ateu que se dedi­que ao estudo apro­fun­dado do cris­ti­a­nismo (para que deixe de o cri­ti­car como igno­rante), uma vez que dessa tua reco­men­da­ção se infere que não tens um conhe­ci­mento de outras reli­giões sufi­ci­en­te­mente apro­fun­dado para deter­mi­na­res se a tua é a verdadeira?

    É claro que do pata­mar ateísta que vê todas as reli­giões sinop­ti­ca­mente se com­pre­ende facil­mente o que está em causa na exi­gên­cia por parte de todas que sejam explo­ra­das em toda a sua “com­ple­xi­dade” para que sejam “ver­da­dei­ra­mente com­pre­en­di­das”. Não é pos­sí­vel estu­dar em pro­fun­di­dade mais do que uma reli­gião. A vida não chega para mais. Assim sendo, é pre­ciso esco­lher uma. Como no ponto de par­tida pré-religioso somos todos lei­gos, essa esco­lha terá de ser feita a par­tir da mais pro­funda igno­rân­cia. Logo, para que não se fique na situ­a­ção do burro de Buri­dan, há que par­tir de qual­quer coisa que não seja “conhe­ci­mento” para optar por uma reli­gião, qual­quer que seja. Por exem­plo, no caso do cris­ti­a­nismo, o facto de os pais serem cris­tãos, ou o facto de se estar num país mai­o­ri­ta­ri­a­mente cris­tão, ou tal­vez o facto de haver uma Bíblia em casa. Nou­tros ter­mos, é neces­sá­rio um fac­tor moti­va­dor irra­ci­o­nal. Ora, natu­ral­mente, qual­quer conhe­ci­mento que adve­nha do estudo sub­se­quente da reli­gião esco­lhida não poderá dei­xar de cimen­tar essa esco­lha ini­cial, uma vez que toda a “com­ple­xi­dade” de uma reli­gião, seja ela qual for, cres­ceu a par­tir de men­tes que sem excep­ção fize­ram a dada altura a mesma esco­lha irra­ci­o­nal. Eis o motivo pelo qual todos os que se dedi­cam ao estudo de uma dada reli­gião em toda a sua com­ple­xi­dade são curi­o­sa­mente tam­bém cren­tes dessa reli­gião. Só um crente tem a moti­va­ção para dedi­car a vida ao estudo apro­fun­dado de uma só reli­gião. Para aban­do­nar esse estudo terá de dei­xar de acre­di­tar — e se isso acon­te­cer, um crente estu­di­oso poderá sem­pre argu­men­tar que o após­tata não apro­fun­dou o conhe­ci­mento o sufi­ci­ente, ou que “olhando, não viu”.

    Curi­o­sa­mente, pelo que sei o mesmo não acon­tece com os ateus na sua mai­o­ria. Falando por mim, leio muito mais sobre reli­gião a par­tir da pers­pec­tiva reli­gi­osa e cien­tí­fica do que sobre ateísmo. Dito isto, Ber­nardo, con­cordo con­tigo quando dizes que não há nada a apren­der com o Daw­kins. Em maté­ria de filo­so­fia é sofrí­vel, e tenho espe­rança de que a sua forma de pen­sar o ateísmo não deixe mui­tos sequa­zes. Mas como deves saber, o que não falta são auto­res ateís­tas infi­ni­ta­mente mais inte­res­san­tes. Já os estu­daste em toda a sua complexidade?

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    • Carlos Cabanita 27 de Dezembro de 2013, às 16:34 Permalink | Responder

      O meme publi­cado por Daw­kins não foi cri­ado por ele (embora o con­ceito de meme seja, em larga medida, cri­a­ção sua). Mas noto que tudo o que lá está escrito é ver­da­deiro e teo­lo­gi­ca­mente cor­reto, ape­nas apre­sen­tado sem a cober­tura de açú­car habi­tual. O enun­ci­ado é com­ple­ta­mente ridí­culo, ape­nas por­que a nar­ra­tiva reli­gi­osa é ridí­cula, quando vista sem a sua cober­tura de açú­car. Claro que as pes­soas reli­gi­o­sas pro­tes­tam, por­que apre­sen­tar uma nar­ra­tiva reli­gi­osa a nu, sem a sua cober­tura ide­o­ló­gica, é con­si­de­rado falta de res­peito. Este fenó­meno é comum a outros dis­cur­sos ide­o­ló­gi­cos, para além dos reli­gi­o­sos.
      Por exem­plo, ao dis­cu­tir com um comu­nista ou com um neo­li­be­ral, estes exi­gem que os ele­men­tos da rea­li­dade sejam for­te­mente qua­li­fi­ca­dos antes de serem admi­ti­dos para aná­lise.
      Eu convenci-me da neces­si­dade de abs­trair, na medida do pos­sí­vel, de pres­su­pos­tos ao ana­li­sar a rea­li­dade. Dou um exem­plo. Há anos vi um filme ani­mado, supo­nho que do Spi­el­berg e da Pixar, sobre Moi­sés e a fuga do Egipto. Foi então que me cho­cou pro­fun­da­mente o assas­sí­nio de todos os pri­mo­gé­ni­tos por parte de Jeová. Eu tinha apren­dido aquilo na Cate­quese em cri­ança, aquilo fazia parte da minha cul­tura e, de resto, já me tinha tor­nado ateu. Mas nunca tinha pen­sado a sério que Jeová, caso exis­tisse, seria um assas­sino em massa.
      Esse carác­ter cri­mi­nal da divin­dade só se mani­fes­tou uma vez que a nar­ra­tiva foi des­pida da pro­pa­ganda, ou que a pro­pa­ganda não fun­ci­o­nou.
      Posso ter algu­mas diver­gên­cias com Richard Daw­kins no campo polí­tico, mas no essen­cial estou de acordo com ele no campo filo­só­fico. A ques­tão deci­siva é a ciên­cia, é essa a nossa chave para a rea­li­dade. Quanto à imensa com­ple­xi­dade da teo­lo­gia, ou das teo­lo­gias, só se torna inte­res­sante se se pro­var que ser­vem para alguma coisa.
      Se aquilo que as teo­lo­gias estu­dam não existe, as teo­lo­gias são uma gigan­tesca perda de tempo. É absurdo ter de estu­dar os arca­nos teo­ló­gi­cos das várias reli­giões para saber se há deus. Um ateu pode per­fei­ta­mente ale­gar que tem coi­sas mais impor­tan­tes para usar o seu tempo.

    • Carlos Cabanita 27 de Dezembro de 2013, às 16:52 Permalink | Responder

      Para enten­der bem o cris­ti­a­nismo, é pre­ciso muito inves­ti­mento de tempo e de inte­li­gên­cia». Pois, o cris­ti­a­nismo pode e deve ser estu­dado como fenó­meno his­tó­rico, social, etc. Por his­to­ri­a­do­res, soció­lo­gos e por aí fora, com ins­tru­men­tos cien­tí­fi­cos.
      E tam­bém as con­tri­bui­ções dos filó­so­fos e pen­sa­do­res cris­tãos den­tro das suas res­pec­ti­vas dis­ci­pli­nas.
      Isso pres­su­põe um lugar humano e comum den­tro da his­tó­ria e den­tro da comu­ni­dade, abs­traindo de qual­quer liga­ção espe­cial com a divin­dade.
      Mas os cris­tãos tam­bém não cos­tu­mam gos­tar disso.

      • Lúcio Mateus 6 de Janeiro de 2014, às 19:01 Permalink | Responder

        Olá, caro Carlos,

        Em geral estou de acordo con­sigo, excepto no que diz acerca do Daw­kins. O tipo de rea­lismo cien­tí­fico ingé­nuo que ele defende é bas­tante sim­pló­rio e denun­cia uma igno­rân­cia filo­só­fica infe­liz­mente muito comum nos dias que cor­rem. O pró­prio Car­los escre­veu: «Eu convenci-me da neces­si­dade de abs­trair, na medida do pos­sí­vel, de pres­su­pos­tos ao ana­li­sar a rea­li­dade.» O Daw­kins tam­bém pensa assim. O pro­blema é esquecerem-se da velha lição que já vem de mea­dos do século XX que é a de que essa neces­si­dade é tam­bém uma impossibilidade.

        Mas de resto con­cordo con­sigo, e apro­fun­dei a minha opi­nião rela­tiva a outros pon­tos do que o Car­los escre­veu na res­posta que aca­bei de dei­xar ao M. no seu comen­tá­rio ao meu artigo “A Imper­fei­ção do Argu­mento Cosmológico”.

        Cum­pri­men­tos.

  • Lúcio Mateus 1 de September de 2013, às 19:20 Permalink | Responder  

    A Imperfeição do Argumento Cosmológico 

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    Não sou um homem de fé mas há duas coi­sas no mundo que acre­dito pia­mente que serão até ao fim dos tem­pos o fla­gelo de todos aque­les que acre­di­tam e se esfor­çam pelo pro­gresso do conhe­ci­mento humano atra­vés do debate filo­só­fico. Como sem dúvida já adi­vi­nha­ram, refiro-me às aftas e ao argu­mento cos­mo­ló­gico a favor da exis­tên­cia de Deus.

    O motivo que explica por que é tão difí­cil demo­lir o argu­mento cos­mo­ló­gico (em toda a sua tro­pi­cal vari­e­dade) de uma vez por todas é o facto de ser um tipo de argu­mento bato­teiro. É um argu­mento que pela sua pró­pria defi­ni­ção não deixa hipó­tese ao natu­ra­lista, limi­tado que está a argu­men­tar raci­o­nal­mente com base na obser­va­ção metó­dica do mundo físico. Como tem de se limi­tar ao conhe­ci­mento cien­tí­fico dis­po­ní­vel à data pre­sente, a única res­posta acei­tá­vel que o coi­tado pode dar neste momento à ques­tão da ori­gem de tudo é um sim­ples e honesto “não faço a menor ideia, mas vou ver se des­cu­bro”. O teó­logo, por outro lado, não padece de seme­lhan­tes limi­ta­ções, uma vez que dis­põe de sofis­ti­ca­dos ins­tru­men­tos teó­ri­cos muito para além do curto alcance da ciên­cia, nome­a­da­mente impres­si­o­nan­tes con­cei­tos lati­nos como “a pri­ori”, “ex nihilo” e “causa sui”, com os quais con­se­gue tra­ves­tir a ima­gi­na­ção de tão res­plan­de­cen­tes lan­te­jou­las filo­só­fi­cas que quase con­se­gue fazê-la pas­sar por Razão.

    Porém, como qual­quer tra­vesti, visto ao perto não engana ninguém.

    Decidi escre­ver este artigo por­que veri­fico que sob o epí­teto de “argu­mento cos­mo­ló­gico Kalam”, os bons velhos papi­ros clás­si­cos e medi­e­vais estão nova­mente a ser desen­ro­la­dos um pouco por toda a parte – em livros, con­fe­rên­cias, blogs, e por aí fora. Resu­mi­da­mente, tenta convencer-nos este argu­mento de que tudo o que come­çou a exis­tir tem de ter uma causa, e que a pri­meira causa de tudo tem de ser causa de si pró­pria de modo a evi­tar­mos cair num ina­cei­tá­vel eterno retorno. Regra geral, a admi­nis­tra­ção deste argu­mento na mente de quem ainda não o conhece dá-se por via de uma injec­ção pro­fi­lác­tica de filo­so­fia aristotélico-tomista que visa ino­cu­lar o reci­pi­ente con­tra a cons­ci­ên­cia da sua insig­ni­fi­cân­cia e da sua igno­rân­cia cien­tí­fica, que em cir­cuns­tân­cias nor­mais o para­li­sa­ria de ver­go­nha antes de ousar arrogar-se a pro­fe­rir uma afir­ma­ção cate­gó­rica sobre a causa de tudo quanto existe. A injec­ção opera tam­bém uma efi­caz supres­são das hor­mo­nas da lógica, o que lhe faci­lita a tor­tu­osa cami­nhada inte­lec­tual que por fim o leva a con­cluir sem temer nem tre­mer que causa de tudo só pode ser o Deus teísta. E não só teísta mas cris­tão. E não só cris­tão mas cató­lico. Sim, é uma exce­lente injecção.

    Adi­ante. Começo por dei­xar claro desde já que a minha inten­ção neste texto não é a de fazer uma tré­plica ao argu­mento cos­mo­ló­gico enquanto tal. Mui­tos já o fize­ram e não gosto de rumi­nar argu­men­tos mas­ti­ga­dos por outros. Pre­tendo concentrar-me em expor o erro crasso de raci­o­cí­nio que con­duz à con­clu­são de que o Deus teísta (cris­tão) é a subs­tân­cia incri­ada na ori­gem do Uni­verso. Ao fazê-lo, como se verá, o argu­mento cos­mo­ló­gico ruirá sob o seu pró­prio peso, sem que seja pre­ciso sequer encostarmo-nos a ele. Do alto da minha genial argu­men­ta­ção vito­ri­osa pro­po­rei então com toda a legi­ti­mi­dade uma “moral da his­tó­ria” meta-filosófica que deve­ria ser con­tem­plada seri­a­mente por ambos os lados da con­tenda, mas isso fica para depois. Por agora, começo.

    Ape­sar de quase nunca ser explo­rado nos deba­tes con­tem­po­râ­neos acerca des­tas coi­sas, o conceito-chave de toda a argu­men­ta­ção em prol da tese do Deus teísta como cri­a­dor do Uni­verso é o de per­fei­ção. Explí­cita ou impli­ci­ta­mente, a noção de per­fei­ção divina é o sus­ten­tá­culo de todas as objec­ções tipi­ca­mente ergui­das ao argu­mento cos­mo­ló­gico. Isto acon­tece por­que a per­fei­ção é a casa­men­teira res­pon­sá­vel pelo matri­mó­nio inces­tu­oso entre os argu­men­tos cos­mo­ló­gico e onto­ló­gico, cuja prole con­siste no con­junto de res­pos­tas teo­ló­gi­cas típi­cas às pue­ris mas incó­mo­das ques­tões que todos os ateus gos­tam de colocar:

    Ateu: Mas se tudo veio de Deus, então de onde veio o pró­prio Deus? Por que é que o Uni­verso não pode ser eterno? Por­que não eco­no­mi­zar um passo e admi­tir essa possibilidade?

    Não-Ateu: Por­que o Uni­verso existe no espaço e no tempo. Logo, é contin­gente, e como tal não pode ser em si a causa da sua exis­tên­cia. Essa causa tem de ser ante­rior, e tem de ser uma causa sem causa cuja exis­tên­cia seja neces­sá­ria.

    Ateu: Muito bem, mas como sabe­mos que essa causa é o Deus do teísmo e não um qual­quer demiurgo? – ima­te­rial e eterno, tal­vez, mas falí­vel e limi­tado? Faria sen­tido, quanto mais não seja por­que jus­ti­fi­ca­ria muito bem o enorme des­per­dí­cio de espaço, tempo e vida que carac­te­riza a con­tin­gên­cia universal.

    Não-Ateu: É sim­ples: o Supremo Cri­a­dor, como não é limi­tado por nada, é neces­sa­ri­a­mente infi­nito em todos os seus atri­bu­tos. Numa pala­vra, é per­feito, e uma vez que a exis­tên­cia é uma per­fei­ção, a exis­tên­cia tem de per­ten­cer à Sua pró­pria essên­cia. Logo, Ele existe neces­sa­ri­a­mente, e infere-se pelo poder ine­xo­rá­vel da lógica dedu­tiva que Deus pos­sui todas as res­tan­tes per­fei­ções do Deus da cate­quese: omnis­ci­ên­cia, omnis­ci­ên­cia e omni­be­ne­vo­lên­cia, para refe­rir as prin­ci­pais. O con­ceito de per­fei­ção explica não só por­que é que Deus existe, mas tam­bém por­que é como é.

    Agnós­tico: Ah…

    Resu­mida e cari­ca­tu­ri­za­da­mente, a argu­men­ta­ção é esta.

    Concentremo-nos por uns momen­tos neste pode­roso con­ceito de “per­fei­ção”. Julgo que a defi­ni­ção de per­fei­ção divina que Leib­niz propôs no seu Dis­curso de Meta­fí­sica pode considerar-se para­dig­má­tica para os pre­sen­tes efei­tos, e cito:

    A noção de Deus mais comum e sig­ni­fi­ca­tiva que pos­suí­mos exprime-se bem nes­tes ter­mos: Deus é um ser abso­lu­ta­mente per­feito […] vem a pro­pó­sito obser­var que há na natu­reza mui­tas per­fei­ções, todas dife­ren­tes, que Deus as pos­sui todas em con­junto, e que cada uma lhe per­tence no mais alto grau. É neces­sá­rio tam­bém conhe­cer o que é a per­fei­ção, da qual eis um indí­cio bas­tante seguro, a saber: que as for­mas ou natu­re­zas que não são sus­cep­tí­veis de último grau não são per­fei­ções, como por exem­plo, a natu­reza do número ou da figura. Pois, o número maior de todos […] bem como a maior das figu­ras, impli­cam con­tra­di­ção; a ciên­cia máxima e a omni­po­tên­cia, porém, não con­têm qual­quer contradição’.

    Ou seja, como nada há que possa limi­tar a subs­tân­cia divina, esta será neces­sa­ri­a­mente ili­mi­tada, o que sig­ni­fica que pos­suirá em grau máximo todos os atri­bu­tos que admi­tam um grau máximo, incluindo o da existência.

    De modo a ilus­trar o absurdo escon­dido nas letras desta defi­ni­ção pro­po­nho que me acom­pa­nhem numa expe­ri­ên­cia de pen­sa­mento seme­lhante à que ope­rou Des­car­tes nos tem­pos da dúvida metó­dica. Vou come­çar por ima­gi­nar que a sala em que estou agora dei­xou de exis­tir, sem mais nem menos. Pura e sim­ples­mente desa­pa­re­ceu, e de repente dei por mim ame­sen­dado à secre­tá­ria onde estou agora, mas no meio da rua. Por sorte o meu paté­tico ar de espanto não foi cap­tado por nin­guém por­que de repente a pró­pria rua desa­pa­re­ceu, jun­ta­mente com tudo o que nela havia, pes­soas, ani­mais, plan­tas, eco­pon­tos, lojas, car­ros, e a pró­pria secre­tá­ria. Gra­du­al­mente, por algum inex­pli­cá­vel motivo, todas as coi­sas entram numa mar­cha ine­xo­rá­vel em direc­ção à ine­xis­tên­cia – os paí­ses, os con­ti­nen­tes, o pla­neta, os sóis, as galá­xias, até que por fim todo o uni­verso deixa de exis­tir. Res­tei ape­nas eu – e para com­ple­tar a fan­ta­sia solip­sista, até o meu corpo desa­pa­re­ceu. Estou abso­lu­ta­mente sozi­nho. Rei­nam os mais abso­lu­tos silên­cio e escu­ri­dão. Tornei-me pura mente, e para além de mim nada há. Con­ti­nuo a pen­sar como sem­pre pen­sei, con­ti­nuo a ser quem era, sim­ples­mente sou agora tudo quanto existe. Pois bem, nesta situ­a­ção, sem qual­quer des­vio da defi­ni­ção de “per­fei­ção” leib­ni­zi­ana, posso afir­mar com toda a arro­gân­cia de um solip­sista que me tor­nei per­feito. Não vejo como esta con­clu­são possa ser con­tes­tá­vel visto que enquanto único ser exis­tente sou ili­mi­tado em todos os atri­bu­tos que pos­suo, e nada existe nem pode exis­tir que possa suplan­tar em grau estes meus atri­bu­tos. A defi­ni­ção de per­fei­ção está satis­feita em pleno.

    Se nos deti­ver­mos neste pen­sa­mento um pouco mais somos leva­dos a com­pre­en­der a curi­osa iro­nia que sub­jaz ao argu­mento cos­mo­ló­gico. Ora, a pre­missa fun­da­men­tal do argu­mento cos­mo­ló­gico é que o nada não tem essên­cia. Não tendo essên­cia não pode pro­du­zir efei­tos, e eis-nos a pre­ci­sar nova­mente de Deus para nos sal­var da lógica por­que o que é facto é que exis­tem por aí efei­tos que não tive­ram nada a ver com a sua pró­pria ori­gem. Mas sem que dêem por isso, a defesa do argu­mento cos­mo­ló­gico exige dos teís­tas que atri­buam ao nada uma natu­reza real quando defen­dem que Deus é infi­nito e per­feito por­que nada o limita. Isto por­que com esta última afir­ma­ção, inad­ver­ti­da­mente dão peso onto­ló­gico ao nada, e é fácil de ver que assim é por­que nenhum teísta con­cor­dará que a situ­a­ção extrema do solip­sismo em que me depus no pará­grafo ante­rior tenha resul­tado na minha hipo­té­tica per­fei­ção abso­luta. Pois claro! Como pode­ria a minha peque­nina mente ser per­feita ape­nas por estar no solip­sismo quando have­ria ainda tanto “nada” por pre­en­cher?

    Eis o erro teísta em causa no argu­mento cos­mo­ló­gico: afir­mar que Deus tem os atri­bu­tos que tem no grau “máximo” por­que nada o limita equi­vale a afir­mar que o grau máximo dos atri­bu­tos divi­nos é deter­mi­nado extrin­se­ca­mente à natu­reza de Deus, ou seja, terá de ser algo exte­rior a Deus a impor a “regra” segundo a qual aquele é o número e o grau máximo dos atri­bu­tos que um Deus digno desse nome tem neces­sa­ri­a­mente de pos­suir. Mas para que assim seja, uma vez que nada mais existe além de Deus, somos for­ça­dos a admi­tir que o grau e número de atri­bu­tos divi­nos são deter­mi­na­dos pelo pró­prio nada, por­que fora de Deus nada há. Julgo que não é pre­ciso dizer que isto implica o coro­lá­rio de que este “nada” afi­nal sem­pre é qual­quer coisa.

    Caso quei­ra­mos obviar a esta con­clu­são com a afir­ma­ção de que as per­fei­ções divi­nas e res­pec­ti­vos graus são intrín­se­cos à essên­cia divina, então tere­mos nova­mente de con­cor­dar que qual­quer ser na situ­a­ção do solip­sismo será per­feito por­que será ili­mi­tado ainda que tenha toda a inte­li­gên­cia de uma bactéria.

    Por outras pala­vras, quais­quer que sejam hipo­te­ti­ca­mente a natu­reza e grau dos atri­bu­tos de um ser causa sui, este será sem­pre neces­sa­ri­a­mente per­feito e ili­mi­tado, dado que a per­fei­ção de um ente além do qual nada existe não pode ser defi­nida por com­pa­ra­ção com uma matriz de atri­bu­tos e res­pec­ti­vos graus extrín­seca a ele pró­prio. Ele é a matriz de tudo. A “per­fei­ção” ape­nas pode ser com­pa­rada no seu grau aos seus efei­tos, nunca a algo onto­lo­gi­ca­mente ante­rior a ela pró­pria, o que sig­ni­fica que qual­quer grau de “per­fei­ção” de um atri­buto de uma qual­quer puta­tiva subs­tân­cia causa sui será sem­pre o grau máximo da mesma. Note-se, a título de exem­plo, que se sem acres­cen­tar nada aos meus pode­res men­tais eu me visse na situ­a­ção do solip­sismo acima des­crita, mas com a capa­ci­dade de criar, eu seria per­feito em rela­ção à minha cri­a­ção, qual­quer que esta fosse. E se essa cri­a­ção incluísse seres pen­san­tes, estou certo de que me ado­ra­riam pela minha suprema per­fei­ção. E em bom rigor quem pode­ria censurá-los? Não teriam os coi­ta­dos toda a razão em considerar-me per­feito, uma vez que nada supe­rior a mim exis­tia ou pode­ria existir?

    Se os teís­tas tive­rem razão e Deus de facto exis­tir, esta­re­mos exac­ta­mente na mesma situ­a­ção das pobres cri­a­tu­ras atrás refe­ri­das mag­na­ni­ma­mente cri­a­das pelo meu “eu solip­sista”. Uma vez que a per­fei­ção abso­luta de uma subs­tân­cia causa sui só admite com­pa­ra­ção rela­tiva aos efei­tos por si pro­du­zi­dos (por ser, de facto, a matriz do grau rela­tivo da per­fei­ção de tudo o resto, sendo que “tudo o resto” será neces­sa­ri­a­mente cri­a­ção sua), temos obvi­a­mente de con­si­de­rar Deus per­feito, se “Deus” for o nome que deci­dir­mos dar à causa de tudo. Mas esse facto em si não nega a pos­si­bi­li­dade de con­ce­ber­mos como pura abs­trac­ção a ideia de um Deus mais per­feito do que o Deus con­ce­bido pelos teís­tas, ainda que essa ideia inclua atri­bu­tos (ou per­fei­ções) ine­fá­veis que por defi­ni­ção sejam abso­lu­ta­mente incon­ce­bí­veis para nós. Para melhor com­pre­en­der­mos esta ideia, permitam-me que peça empres­tado ao Wil­liam Paley o seu céle­bre argu­mento do reló­gio e o adapte ao que pre­tendo dizer.

    Como todos sabem, segundo o argu­mento de Paley, tal como se encon­trás­se­mos um reló­gio na praia sem nunca ter­mos visto um tería­mos de con­cluir que um objecto tão com­plexo nunca pode­ria ter sur­gido por acaso, mas teria sem dúvida sido cri­ado por uma inte­li­gên­cia, assim tam­bém a orga­ni­za­ção e com­ple­xi­dade que reco­nhe­ce­mos por toda a parte no uni­verso nos leva a crer que deverá haver um “relo­jo­eiro”, uma inte­li­gên­cia cri­a­dora res­pon­sá­vel pela exis­tên­cia de todo o Cos­mos. Esta é mera­mente uma ver­são meta­fo­ri­zada do velho argu­mento cos­mo­ló­gico, claro, mas é engra­çada e menos árida que as ver­sões mais antigas.

    Mas ainda que acei­te­mos este argu­mento, ele em si nada nos diz acerca da onto­lo­gia do relo­jo­eiro; e espe­ci­fi­ca­mente no que diz res­peito ao cri­a­dor do uni­verso, não nos com­pro­mete logi­ca­mente de modo algum com a sua suposta per­fei­ção abso­luta. Ima­gi­ne­mos que o relo­jo­eiro que fez o reló­gio encon­trado na praia foi o pri­meiro relo­jo­eiro do mundo. Então, como nenhum reló­gio exis­tiu antes de aquele, o relo­jo­eiro que o criou é, em certo sen­tido, o relo­jo­eiro per­feito. É objec­ti­va­mente per­feito não só por­que é à data o único que existe no mundo mas tam­bém rela­ti­va­mente por­que, sendo o único, é incon­ce­bí­vel para a res­tante Huma­ni­dade leiga em relo­jo­a­ria que atri­bu­tos pode­ria ter um relo­jo­eiro mais per­feito do que ele, isto é, capaz de criar reló­gios mais rigo­ro­sos na deter­mi­na­ção da hora (limitemo-nos agora ao atri­buto da pre­ci­são cro­no­ló­gica dos reló­gios e igno­re­mos outros, como o esté­tico). Ora, nós que vive­mos numa época de reló­gios digi­tais e reló­gios ató­mi­cos pode­mos obvi­a­mente lis­tar um grande número de “atri­bu­tos” (mais apro­pri­a­da­mente desig­na­dos neste caso de “com­pe­tên­cias”) que o relo­jo­eiro ori­gi­nal tinha em falta e que pode­riam aperfeiçoá-lo enquanto relo­jo­eiro caso os pos­suísse. Pode­mos fazê-lo por­que temos um termo de com­pa­ra­ção supe­rior a ele pró­prio, nome­a­da­mente os espe­ci­a­lis­tas em cro­no­me­tria dos dias de hoje. Con­tudo, em rela­ção a Deus, esta­mos na mesma situ­a­ção que os lei­gos perante o pri­meiro relo­jo­eiro. Somos tão inca­pa­zes de con­ce­ber um Deus mais per­feito do que o Deus teísta como um homem que se depa­rasse pela pri­meira vez o pri­meiro reló­gio do mundo seria inca­paz de ima­gi­nar um relo­jo­eiro mais per­feito. A dife­rença, claro, é que a nossa situ­a­ção perante a per­fei­ção divina é cró­nica, dado que se Deus exis­tir exclui-se a pos­si­bi­li­dade de este vir a ser deposto por um Deus melhor (infe­liz­mente). Ele é e sem­pre será o único “relo­jo­eiro”. Mas isso não sig­ni­fica que não pos­sa­mos em abs­tracto con­ce­ber um Deus mais per­feito, do mesmo modo um indi­ví­duo que visse pela pri­meira vez o pri­meiro reló­gio do mundo pode­ria con­ce­ber em abs­tracto ser pos­sí­vel haver um relo­jo­eiro mais per­feito, ainda que fosse inca­paz de ima­gi­nar que atri­bu­tos pode­ria ter um tal relo­jo­eiro. A este res­peito reco­mendo viva­mente a lei­tura da parte V dos Diá­lo­gos sobre Reli­gião Natu­ral, de David Hume, que já ante­cipa em certa medida esta linha de argumentação:

    […] não há razão […] para que atri­bua per­fei­ção à Dei­dade – mesmo na sua capa­ci­dade finita –, ou para que a supo­nha isenta de todo o erro, engano ou inco­e­rên­cia nas suas acti­vi­da­des. Con­si­dere as mui­tas difi­cul­da­des inex­pli­cá­veis na Natu­reza – doen­ças, ter­ra­mo­tos, inun­da­ções, vul­cões, e assim por diante. Se pen­sar­mos que pode­mos pro­var a pri­ori que o mundo tem um cri­a­dor per­feito, todas estas cala­mi­da­des dei­xam de ser pro­ble­má­ti­cas: pode­mos dizer que ape­nas pare­cem a nós serem difi­cul­da­des por­que com os nos­sos inte­lec­tos limi­ta­dos não con­se­gui­mos esqua­dri­nhar os deta­lhes infi­ni­ta­mente com­ple­xos dos quais fazem parte. Mas de acordo com a tua linha de argu­men­ta­ção estas difi­cul­da­des são reais. Tal­vez se insista que elas for­ne­cem novos exem­plos de seme­lhança com o enge­nho e o talento huma­nos. Mas está obri­gado a saber, pelo menos, que nos é impos­sí­vel dis­tin­guir, a par­tir da nossa pers­pec­tiva limi­tada, se este sis­tema con­tém gran­des falhas, ou qual o grau de lou­vor que merece, em com­pa­ra­ção com outros sis­te­mas pos­sí­veis ou mesmo reais. Se lês­se­mos a Eneida a um cam­po­nês, que jamais teve con­tacto com outra obra lite­rá­ria, seria ele capaz de jul­gar o poema como abso­lu­ta­mente impe­cá­vel, ou mesmo a posi­ção que lhe cabe entre as pro­du­ções do espí­rito humano?’

    Veja­mos o mesmo pro­blema a par­tir de outra pers­pec­tiva. Se ima­gi­nar­mos que reti­ra­mos a Deus um dos seus atri­bu­tos (por exem­plo, o da omni­be­ne­vo­lên­cia, a que tam­bém não dá muito uso), pode­re­mos dizer que dei­xou de ser per­feito por­que ficou mais limi­tado do que pode­ria ser. Mas lembremo-nos de que aquilo que torna pos­sí­vel este juízo é o facto de o fazer­mos em retros­pec­tiva, isto é, por conhe­cer­mos a per­fei­ção da Bon­dade suprema e saber­mos que no cená­rio hipo­té­tico em causa Deus a per­deu. Mas se ima­gi­nar­mos que vive­mos num uni­verso onde a Bon­dade não existe de todo, no qual a pró­pria for­mu­la­ção de con­cei­tos morais seria impos­sí­vel, esse mesmo Deus seria abso­lu­ta­mente per­feito aos olhos do nosso inte­lecto. O que digo é que pode­mos estar na mesma situ­a­ção rela­ti­va­mente a outras per­fei­ções – pos­sí­veis em abs­tracto ainda que ini­ma­gi­ná­veis –, que ficam num “ângulo morto gno­se­o­ló­gico”. São incon­ce­bí­veis por não terem cabi­mento na onto­lo­gia desde Deus e, a for­ti­ori, deste uni­verso, que não pode enquanto efeito pos­suir atri­bu­tos pas­sí­veis de grau máximo que não per­ten­çam à essên­cia do seu cri­a­dor. Como não nos é pos­sí­vel con­ce­ber essas hipo­té­ti­cas per­fei­ções, pode­mos estar à von­tade para con­si­de­rar­mos o “nosso” Deus abso­lu­ta­mente per­feito e ili­mi­tado, pos­sui­dor no grau máximo de todos os atri­bu­tos pas­sí­veis desse grau. Con­tudo, é reve­la­dor con­si­de­rar que um habi­tante de um uni­verso onde a bon­dade não exis­tisse de todo pode­ria com igual legi­ti­mi­dade fazer o mesmo juízo a res­peito de um Deus des­pro­vido do atri­buto da omni­be­ne­vo­lên­cia, que nós conhe­ce­mos mas que para ele seria abso­lu­ta­mente incon­ce­bí­vel, incog­nos­cí­vel e inefável.

    Ante­ci­pando já a ques­tão dos teó­lo­gos de ser­viço, substituo-me a eles e coloco a ques­tão: “então por que razão teria Deus os atri­bu­tos que tem e não mais ou menos, se de facto qual­quer que fosse a Sua natu­reza seria sem­pre per­feita?” A res­posta é sim­ples: não há razão nenhuma raci­o­nal­mente jus­ti­fi­cá­vel para que Deus tenha os atri­bu­tos que os teís­tas dizem ter e não outros. A per­fei­ção é um con­ceito absurdo, como julgo ter demons­trado. Recapitulando:

    1)    Se Deus não é limi­tado por nada, pos­sui no grau máximo todos os atri­bu­tos pos­sí­veis que admi­tam um grau máximo:

    2)    Se as per­fei­ções divi­nas são intrín­se­cas à essên­cia de Deus, Deus terá sem­pre todas as per­fei­ções pos­sí­veis no grau máximo sejam elas quais forem e seja em que grau for. Logo, não é incon­ce­bí­vel em abs­tracto que um Deus mais per­feito do que o Deus teísta pudesse existir.

    3)    Para que o número e grau das per­fei­ções divi­nas seja objec­ti­va­mente abso­luto, isto é, impos­sí­veis de acres­cento mesmo que em abs­tracto, é neces­sá­rio que essa medida de per­fei­ção seja extrín­seca à essên­cia divina de modo a evi­tar­mos recair no óbice do ponto 2);

    4)    Nada pode haver de extrín­seco à subs­tân­cia divina. Admi­tir o con­trá­rio implica recair no eterno retorno a que o argu­mento cos­mo­ló­gico pro­cura obviar;

    5)    Con­clu­são: o con­ceito de per­fei­ção é absurdo, o que implica que o argu­mento onto­ló­gico tam­bém o é. A per­fei­ção é um con­ceito rela­tivo apli­cá­vel por igual a qual­quer subs­tân­cia causa sui con­ce­bí­vel e incon­ce­bí­vel, qual­quer que fosse o número e grau dos seus atri­bu­tos essenciais;

    6)    Coro­lá­rio: Sem o con­ceito de per­fei­ção é impos­sí­vel jus­ti­fi­car por que motivo Deus pos­sui os atri­bu­tos que pos­sui, e é igual­mente impos­sí­vel jus­ti­fi­car a sua exis­tên­cia uma vez que a exis­tên­cia é ela pró­pria é uma per­fei­ção. Logo, o argu­mento cos­mo­ló­gico é com­ple­ta­mente des­pro­vido de fun­da­mento lógico.

    Inde­pen­den­te­mente de toda esta con­versa e de eu ter ou não razão no que digo, gos­ta­ria que a ideia final que fique retida na mente do lei­tor seja esta: a Razão pura pode criar Deus e pode destruí-lo. A filo­so­fia prova que Deus existe se for isso que o filó­sofo pro­cura, e prova que não existe se for essa a sua pre­fe­rên­cia. A lição a reti­rar, por­tanto, é meta-filosófica: em rela­ção à ori­gem do uni­verso e seme­lhan­tes ques­tões, deixemo-nos ficar na humilde posi­ção do natu­ra­lista que citei no iní­cio deste texto e juntemo-nos a ele quando diz “não faço a menor ideia, mas vou ver se des­cu­bro”. E ten­tar des­co­brir não é sal­tar de infe­rên­cia em infe­rên­cia como se de lia­nas se tra­tas­sem – tal­vez ves­tí­gio atá­vico do tipo de pri­mata que até há pouco éramos – sobre um “nada” raci­o­nal tão abso­luto quanto aquele que tanto repugna os pro­po­nen­tes do argu­mento cosmológico.

    A única coisa que as “pro­vas raci­o­nais da exis­tên­cia de Deus” como os argu­men­tos cos­mo­ló­gico e onto­ló­gico têm para ensi­nar a quem decide gas­tar algum tempo a pen­sar neles é qual a moti­va­ção daque­les que os cri­a­ram, defen­de­ram e defen­dem, e nada mais – indi­ví­duos muito inte­li­gen­tes que sabem que o labi­rinto da lógica, dados tempo e sofis­ti­ca­ção sufi­ci­en­tes, desem­boca sem­pre exac­ta­mente na saída que se pro­cura. É por isso que a filo­so­fia morre quando o filó­sofo encon­tra Deus pela Razão. O filó­sofo que deseje con­ti­nuar a sê-lo nunca sai do labi­rinto.

    Está longe de ser uma res­posta satis­fa­tó­ria (em par­ti­cu­lar para quem quer fazer mito­lo­gia e chamar-lhe filo­so­fia ou teo­lo­gia), mas se nem Deus pode ser per­feito… quanto menos o sere­mos nós.

     
    • M. 4 de Janeiro de 2014, às 21:45 Permalink | Responder

      Mas se “o labi­rinto da lógica, dados tempo e sofis­ti­ca­ção sufi­ci­en­tes, desem­boca sem­pre exac­ta­mente na saída que se pro­cura”, então é impos­sí­vel qual­quer tipo de conhe­ci­mento certo?
      Ou a lógica, de facto, per­mite sal­tar de infe­rên­cia em infe­rên­cia, como se fos­sem lia­nas, des­co­brindo ver­da­des e erros, ou a Razão é impos­sí­vel, e assim a posi­ção de “não faço a menor ideia, mas vou ver se des­cu­bro” não é a ati­tude certa, mas sim a de “não sei, e é impos­sí­vel saber, tal como é impos­sí­vel saber seja o que for”.
      Dizer que a lógica não é fiá­vel “em rela­ção à ori­gem do uni­verso e seme­lhan­tes ques­tões” é dizer que não é fiá­vel em rela­ção a nada, pois as regras da lógica são as mes­mas para tudo.

      • Lúcio Mateus 6 de Janeiro de 2014, às 18:45 Permalink | Responder

        Caro M.,

        Foi para evi­tar esse tipo de con­clu­são que dei­xei claro que quando digo que «o labi­rinto da lógica, dados tempo e sofis­ti­ca­ção sufi­ci­en­tes, desem­boca sem­pre exac­ta­mente na saída que se pro­cura» me refe­ria exclu­si­va­mente à razão pura. Obvi­a­mente, se a minha afir­ma­ção se refe­risse a todo o raci­o­cí­nio lógico em geral iría­mos dar ao cep­ti­cismo radi­cal, mas não foi isso que eu disse.

        O que quis dizer é que a razão pura con­ti­nua a fun­ci­o­nar muito bem quando parte de pres­su­pos­tos inve­ri­fi­cá­veis e infal­si­fi­cá­veis ou mesmo fal­sos. Para recor­rer a uma metá­fora, a nossa capa­ci­dade de cons­truir juí­zos liga­dos dedu­ti­va­mente é como uma máquina de fazer sal­si­chas. Para que uma tal máquina possa pro­du­zir sal­si­chas é neces­sá­rio fornecer-lhe uma matéria-prima. A pro­du­ção de sal­si­chas genuí­nas requer o uso de carne picada. Se usar­mos outra matéria-prima (por exem­plo, pasta de papel colo­rida), não pro­du­zi­re­mos sal­si­chas ver­da­dei­ras. Mas isto não sig­ni­fica que a máquina não fun­ci­o­nará. Sig­ni­fica ape­nas que pro­du­zirá sal­si­chas fal­sas, embora as pro­duza com a mesma pre­ci­são com que faria dada a matéria-prima genuína, uma atrás da outra, infa­li­vel­mente liga­das como infe­rên­cias dedu­ti­vas num raci­o­cí­nio teológico.

        Ou seja, a capa­ci­dade humana de raci­o­ci­nar é um pro­dí­gio da natu­reza capaz de fazer “sal­si­chas” a par­tir seja do que for. Para garan­tir que o pro­duto final é genuíno e não um impos­tor, o que há a fazer é garan­tir que as infe­rên­cias são fei­tas com base em dados veri­fi­cá­veis e fal­si­fi­cá­veis, isto é, base­a­dos em dados empí­ri­cos pro­vin­dos da ciên­cia. Esse não e o caso quando as infe­rên­cias são fei­tas a par­tir de con­jec­tu­ras acerca do que acon­te­ceu antes da ori­gem do Uni­verso ou base­a­das em reve­la­ções divi­nas pes­so­ais ins­cri­tas em tex­tos mile­na­res. A par­tir de pres­su­pos­tos deste tipo é per­fei­ta­mente pos­sí­vel que se cons­truam enca­de­a­men­tos lógi­cos váli­dos extre­ma­mente sofis­ti­ca­dos que no entanto são absur­dos. A título de exem­plo, note que par­tindo ape­nas dos pres­su­pos­tos de que a) os uni­cór­nios são em todos os aspec­tos menos um iguais aos cava­los e de que b) os uni­cór­nios exis­tem, seria per­fei­ta­mente pos­sí­vel criar a espe­ci­a­li­dade da uni­cor­ni­o­lo­gia den­tro da bio­lo­gia que dado tempo sufi­ci­ente exi­gi­ria dos seus pro­fis­si­o­nais uma dedi­ca­ção vita­lí­cia para que domi­nas­sem os seus aspec­tos mais com­ple­xos. Esta dis­ci­plina seria sem dúvida séria, rigo­rosa e manter-se-ia sem­pre con­sis­tente com os seus pres­su­pos­tos. Mas dada a natu­reza dos mes­mos, a dis­ci­plina seria tanto mais absurda quanto mais com­plexa se tornasse.

        Para um exem­plo mais pró­ximo, note que um cató­lico sufi­ci­en­te­mente sofis­ti­cado con­se­guirá cons­truir uma cadeia de infe­rên­cias logi­ca­mente con­sis­tente que par­tirá do momento antes da ori­gem do uni­verso e desem­bo­cará na cer­teza de que a hós­tia se tran­forma na carne de Cristo aos domin­gos na igreja. Repito, com base em pres­su­pos­tos pura­mente meta­fí­si­cos, a razão pura con­se­gue che­gar logi­ca­mente a qual­quer con­clu­são que deseje.

        Escre­veu o M. que «Dizer que a lógica não é fiá­vel “em rela­ção à ori­gem do uni­verso e seme­lhan­tes ques­tões” é dizer que não é fiá­vel em rela­ção a nada, pois as regras da lógica são as mes­mas para tudo.» Espero que tenha tor­nado claro o motivo pelo qual esta sua con­clu­são é incor­recta. As regras da lógica são as mes­mas para tudo, sim, mas os pres­su­pos­tos sobre os quais as apli­ca­mos têm natu­re­zas dife­ren­tes. Se usar­mos a lógica para cons­truir­mos raci­o­cí­nios base­a­dos em dados empí­ri­cos, pro­du­zirá algo que pode ter a pre­ten­são de cons­ti­tuir conhe­ci­mento, ou pelo menos uma teo­ria cien­tí­fica ou filo­só­fica digna desse nome. Se a lógica for usada para cons­truir raci­o­cí­nios base­a­dos nou­tra coisa qual­quer, pro­du­zirá sal­si­chas de pasta de papel.

        L.M.

    • M. 8 de Janeiro de 2014, às 17:02 Permalink | Responder

      Então o pro­blema não é dar “tempo ou sofis­ti­ca­ção sufi­ci­en­tes” a um labi­rinto, mas sim par­tir de pre­mis­sas fal­sas, e nesse sen­tido, “sal­tar de liana em liana”, uma vez que é o método da lógica, é uma ima­gem cor­recta. Sofis­ti­ca­ção e fal­si­dade são dois con­cei­tos dife­ren­tes. Assim, o pro­blema da uni­cor­no­lo­gia não é o “tempo ou sofis­ti­ca­ção sufi­ci­en­tes” da argu­men­ta­ção, mas o facto de par­ti­rem de per­mis­sas falsas.

      Ora então é pre­ciso, de facto, para des­mon­tar o argu­mento cos­mo­ló­gico, mos­trar que as pre­mis­sas são erradas.

      Nesse sen­tido, encon­tro alguns pro­ble­mas neste artigo.

      De facto foi escrito que: “Começo por dei­xar claro desde já que a minha inten­ção neste texto não é a de fazer uma tré­plica ao argu­mento cos­mo­ló­gico enquanto tal”, e por­tanto pre­fere fazer uma cri­tica ao argu­mento onto­ló­gico. É justo, mas uma crí­tica ao argu­mento onto­ló­gico em nada mina o argu­mento cos­mo­ló­gico. Com efeito, este segundo argu­mento não parte da pre­missa de que Deus é pre­feito, houve ai uma mis­tura. Se calhar é essa a razão de “quase nunca ser explo­rado nos deba­tes con­tem­po­râ­neos acerca des­tas coisas”.

      Nota-se, álias, uma grande con­fu­são em rela­ção ao argu­mento cos­mo­ló­gico, mis­tu­rando a ver­são kalam, que de facto se cen­tra na cri­a­ção do uni­verso, com o argu­mento clás­sico, que não se ocupa desse aspecto (S. Tomás de Aquino, álias, explica que o argu­mento em nada tem a ver com uma expli­ca­ção da ori­gem do uni­verso, e que o argu­mento é válido mesmo com um uni­verso eterno), e mis­tura ainda a teo­ria do inte­li­gent design de Paley, que é, de facto, muito fraca.

      Assim, o argu­mento cos­mo­ló­gico, nas suas ver­sões mais for­tes (como em S. Tomás), parte de facto de dados empi­ri­cos, e é dai que deriva a sua “pre­ten­são de cons­ti­tuir conhecimento”.

      (Só um aparte final, uma vez que o objec­tivo do artigo não é uma refu­ta­ção do argu­mento onto­ló­gico: este argu­mento define Deus como aquilo que nada de maior possa ser con­ce­bido, logo um ata­que que se baseie na pos­si­bi­li­dade de con­ce­ber algo maior que Deus falha pela raiz, pois está a argu­men­tar con­tra algo que não é Deus por defi­ni­ção do argu­mento que pre­tende refutar.)

  • Lúcio Mateus 23 de July de 2013, às 19:07 Permalink | Responder  

    Ao Telefone com um Grande Vidente Africano 

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    Ora viva, vera­ne­an­tes e outros.

    Como já devem ter repa­rado, o Ateu.pt mudou de cara e as “linhas edi­to­ri­ais” muda­ram um pouco. Melhor dizendo, alargaram-se no segui­mento da dis­cus­são que teve lugar no almoço-convívio do pas­sado dia 13. Um dos resul­ta­dos desse alar­ga­mento foi que o pen­sa­mento mágico, pseudo-científico e a supers­ti­ção em geral pas­sa­ram a ser neste espaço focos de crí­tica com um des­ta­que equi­pa­rá­vel ao dedi­cado ao pen­sa­mento reli­gi­oso. Isto faz sen­tido por vários moti­vos, mas em espe­cial por dois: por na rea­li­dade não serem tipos fun­da­men­tal­mente dis­tin­tos de crença (antes diria que são espé­cies dife­ren­tes de um mesmo género), e por­que o aban­dono da reli­gião ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada por parte de certo tipo de espí­rito mui­tas vezes não se tra­duz num aban­dono da supers­ti­ção, mas antes num ligeiro des­vio para o ocul­tismo. Dito por outros ter­mos, o decrés­cimo do número de reli­gi­o­sos não implica neces­sa­ri­a­mente um engros­sar pro­por­ci­o­nal das filei­ras ateístas.

    Assim sendo, achei por bem tor­nar público aquele que já é um hob­bie meu há alguns anos, que é o de ligar para viden­tes e astró­lo­gos com o objec­tivo de ver até que ponto con­sigo che­gar em ter­mos de ridí­culo — e até à data não con­se­gui encon­trar a linha fron­tei­riça desse vasto território.

    Qui­se­ram os astros que a honra de ser o sábio inau­gu­ral desta rubrica cou­besse ao grande Pro­fes­sor Drame.

    Podem ouvir aqui a plano tera­pêu­tico que o grande vidente propôs para me curar do meu súbito desejo sexual insa­ciá­vel por homens afri­ca­nos. O pro­blema, claro, é ele pró­prio ser africano…

     
  • Lúcio Mateus 24 de March de 2013, às 18:52 Permalink | Responder  

    Fundamentalismo Ateu 

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    Lúcio Mateus

    Faz hoje uma semana que me sen­tei pela pri­meira vez a escre­ver um artigo para afi­xar na porta desta humilde mas aco­lhe­dora alber­ga­ria do pere­grino ateísta. Um artigo que cul­mi­nou na con­clu­são de que o ateísmo é neces­sa­ri­a­mente uma forma de fun­da­men­ta­lismo. O texto em si, como no seu corpo se lê, nas­ceu de uma refle­xão des­po­le­tada por uma afir­ma­ção que ao gal­gar o muro dos meus den­tes incen­ti­vou outras mais indo­len­te­mente encos­ta­das às pare­des inter­nas do meu crâ­nio a revoltarem-se e a faze­rem o mesmo quando a notí­cia da fuga entrou pelos ouvi­dos. Para quem não leu, refiro-me à afir­ma­ção de que ‘é impos­sí­vel converter-me’, que lar­gada a mon­tante do sereno fluxo raci­o­nal vem a des­cer deva­ga­ri­nho até à foz do fun­da­men­ta­lismo ateísta que referi no início.

    Acon­tece que essa mesma con­clu­são deixou-me com um sen­ti­mento de insa­tis­fa­ção inte­lec­tual não muito dife­rente do que me foi dei­xado pela afir­ma­ção ori­gi­nal. “Fun­da­men­ta­lismo” é uma pala­vra com um cadas­tro impres­si­o­nante e não me parece justo incluir “ateísmo” no número dos seus cúm­pli­ces sem fazer um inqué­rito rigo­roso pri­meiro, quanto mais não seja por­que enquanto ateu é tam­bém o meu bom nome que está em causa. As linhas que se seguem são o rela­tó­rio desse inqué­rito que fui desen­vol­vendo aos pou­cos ao longo desta semana, nos meus cur­tos mas pre­ci­o­sos momen­tos de filo­so­fia dos tem­pos livres (passe o pleonasmo).

    É pos­sí­vel acreditar-se em algo que seja ver­dade por bons e por maus moti­vos. Se alguém acre­di­tar na teo­ria heli­o­cên­trica ape­nas só por­que a ouviu do seu pai que nunca se engana a res­peito de nada, essa pes­soa não dei­xará de estar certa, mas estará certa pelos moti­vos erra­dos. Porém, do ponto de vista prá­tico não haverá dife­rença alguma, e por esse motivo difi­cil­mente alguém estará dis­posto a per­der o seu tempo a ten­tar suprir um tal indi­ví­duo com os fun­da­men­tos teó­ri­cos cor­rec­tos para a sua crença. Esse tempo seria melhor des­pen­dido a explicar-lhe que a auto­ri­dade pater­nal não é uma fonte de infor­ma­ção segura acerca de astro­no­mia, ou a ensi­nar a teo­ria heli­o­cên­trica a quem ainda não a conheça ou a veja com des­con­fi­ança, por exemplo.

    Os teís­tas sofis­ti­ca­dos ten­dem a defen­der uma ver­são deste argu­mento em rela­ção à crença na exis­tên­cia de Deus, que obvi­a­mente con­si­de­ram um facto tão esta­be­le­cido quanto o heli­o­cen­trismo. É claro que reco­nhe­cem que quem crê em Deus ape­nas por­que foi bap­ti­zado e fez a cate­quese com­pul­si­va­mente, ou por­que toda a gente na sua comu­ni­dade acre­dita, ou por­que uma vez rezou à Nossa Senhora para que vol­tasse a luz depois da tro­vo­ada e fun­ci­o­nou, tem uma fé super­fi­cial por­que nunca foi tema­ti­zada pela Razão. Mas em ter­mos prá­ti­cos tanto faz por­que em geral os fiéis igno­ran­tes no sen­tido que agora referi (que são a esma­ga­dora mai­o­ria) vivem de acordo com os pre­cei­tos morais da reli­gião que pro­fes­sam e isso é que inte­ressa, ainda que muito pouco sai­bam sobre os seus fun­da­men­tos, quer por não terem inte­resse em saber, quer por serem dema­si­ado limi­ta­dos inte­lec­tu­al­mente para com­pre­en­de­rem sub­ti­le­zas teo­ló­gi­cas. Ou seja, este vasto con­junto de pes­soas age na mai­o­ria dos dias den­tro dos limi­tes da mora­li­dade por medo da ira divina e não por pro­cu­rar ali­nhar a sua von­tade com a de Deus (ao que cor­res­pon­de­ria a ati­tude reli­gi­osa ética). Pouco importa. O que inte­ressa é que quem teme as pra­gas divi­nas geral­mente não se torna uma. É essa a grande van­ta­gem da crença numa moral objec­tiva e numa jus­tiça infa­lí­vel de ori­gem divina: torna pos­sí­vel man­ter repri­mi­das as pul­sões atá­vi­cas dos mais fra­cos de espí­rito que de outro modo não hesi­ta­riam em per­pe­trar toda a espé­cie de acção abo­mi­ná­vel. Ou pelo menos assim dizem alguns religiosos.

    Num debate con­tra o Sam Har­ris, o Wil­liam Lane Craig defen­deu esta posi­ção como um ponto a favor da reli­gião. Inde­pen­den­te­mente da exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de Deus, argu­men­tou ele, a reli­gião tem a uti­li­dade prá­tica de com­pe­lir aque­les indi­ví­duos mais igno­ran­tes que de outro modo pode­riam ser pro­pen­sos à vio­lên­cia des­bra­gada a obe­de­ce­rem àque­las regras morais bási­cas sem as quais a vivên­cia comu­ni­tá­ria seria insus­ten­tá­vel. Ou seja, se nes­sas pes­soas (i.e. na maior fatia da Huma­ni­dade) não tivesse sido incul­cada desde cedo a crença numa auto­ri­dade suprema que os observa a todo o ins­tante e tives­sem sido aban­do­na­dos ao ateísmo, a soci­e­dade glo­bal pro­va­vel­mente rui­ria em pouco tempo. Nou­tros ter­mos, a reli­gião não pode dar a este tipo de pes­soa a pro­pen­são íntima para cami­nhar rec­ti­li­ne­a­mente na via moral que só pode advir pela fé genuína tem­pe­rada pela Razão, mas depondo-as num cor­re­dor nor­ma­tivo ima­gi­ná­rio acaba por pro­du­zir o mesmo efeito prá­tico. Com isto em mente, ainda que os ateus este­jam cer­tos e Deus não exista, o seu desejo de pro­pa­gar o ateísmo por todo o mundo, caso fosse bem-sucedido, pode­ria resul­tar no colapso da civi­li­za­ção. A con­sequên­cia lógica deste raci­o­cí­nio é que o fun­da­men­ta­lismo ateísta, em teo­ria ainda que não na prá­tica, é muito mais peri­goso do que o teísta.

    Claro, o lado nega­tivo de toda a crença impér­via a qual­quer forma de escru­tí­nio raci­o­nal que possa pôr em causa o menor dos seus prin­cí­pios é que tem neces­sa­ri­a­mente de ficar anqui­lo­sada no fun­da­men­ta­lismo, e o fun­da­men­ta­lismo, como bem sabe­mos, por vezes pro­duz um curto-circuito. Quando acon­tece, leva o crente igno­rante a girar sobre os cal­ca­nha­res, a inver­ter a direc­ção den­tro do seu cor­re­dor nor­ma­tivo ima­gi­ná­rio e a avan­çar no sen­tido oposto, de tal modo que começa a agir imo­ral­mente na con­vic­ção de que está a agir moral­mente (i.e. a evi­tar a ira divina e a mere­cer a recom­pensa da feli­ci­dade eterna). Note-se que estes fun­da­men­ta­lis­tas não o são menos do que qual­quer outro crente que como eles creia em Deus pelos “moti­vos erra­dos”, mas neste caso a crença deve ser com­ba­tida por­que tem um efeito prá­tico per­ni­ci­oso – nome­a­da­mente a morte de milha­res de pes­soas em aten­ta­dos, con­de­na­ções à pena máxima em Esta­dos teo­crá­ti­cos, homi­cí­dios moti­va­dos pela ten­ta­tiva de pur­gar ou punir algum pecado come­tido por outrem e outras coi­sas igual­mente desagradáveis.

    Os ateus nunca se can­sa­rão de apon­tar a vio­lên­cia ori­gi­nada pelo fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso como o mais nefasto efeito do teísmo. A defesa dos cren­tes tipi­ca­mente assume a forma de um de dois argu­men­tos, ou ambos. Em pri­meiro lugar, o argu­mento de que a vio­lên­cia moti­vada pela reli­gião é, tal como referi, um curto-circuito da fé. A crença em Deus ten­den­ci­al­mente pro­duz um efeito social benigno – repita-se, ainda que se creia em Deus pelos moti­vos erra­dos. Este ponto é facil­mente com­pro­vado pelo facto ine­gá­vel de a vasta mai­o­ria dos cren­tes ser gente pací­fica. Logo, tomar um con­junto de casos iso­la­dos como medida para jul­gar o todo é um passo irra­ci­o­nal indigno de quem diz defen­der a raci­o­na­li­dade acima de tudo, como por exem­plo os ateus. É certo que esses casos iso­la­dos quando bem con­ta­dos per­fa­zem um número assus­ta­dor mas con­si­de­rado no con­texto do con­junto total dos cren­tes acaba por não ser sig­ni­fi­ca­tivo do ponto de vista estatístico.

    Que a reli­gião não gera pes­soas mali­ci­o­sas por sis­tema é uma evi­dên­cia demons­trada pelo sim­ples facto de ainda haver civi­li­za­ção. Em vista da per­cen­ta­gem da popu­la­ção mun­dial que é reli­gi­osa, parece óbvio que se fos­sem todos maus por serem reli­gi­o­sos tería­mos sido há muito erra­di­ca­dos da face do pla­neta pela nossa pró­pria mão. A enorme quan­ti­dade de cren­tes igno­ran­tes que existe torna ine­vi­tá­vel a ocor­rên­cia do oca­si­o­nal curto-circuito fun­da­men­ta­lista, decerto, mas esse mal menor não nos deve des­viar a aten­ção do bem maior que uma crença gene­ra­li­zada em Deus pro­duz, que nada menos é do que a pos­si­bi­li­dade de a estru­tura social em regiões pouco desen­vol­vi­das civi­li­za­ci­o­nal­mente se man­ter rela­ti­va­mente coesa ainda que mui­tos dos indi­ví­duos que a inte­gram não sejam intrin­se­ca­mente bons. Nada direi em con­trá­rio deste argu­mento por agora mas como se verá, a con­clu­são deste artigo será a sua resposta.

    O segundo argu­mento reli­gi­oso típico a con­si­de­rar é o de que o ateísmo tam­bém não está isento de seme­lhan­tes curto-circuitos fun­da­men­ta­lis­tas, e com con­sequên­cias não menos nefas­tas. É neste ponto que sem falha entram no debate em igno­mi­ni­osa pro­cis­são os nomes de Hitler, Esta­line e de outros tan­tos dita­do­res fas­cis­tas. Não faço ten­ções de repe­tir aqui as tré­pli­cas ateís­tas do cos­tume: “Hitler não era ateu”, “o fas­cismo é uma ver­são adul­te­rada da reli­gião”, “Esta­line era ateu mas não come­teu os cri­mes que come­teu em nome do ateísmo”, etc. Todos são contra-argumentos legí­ti­mos mas há aqui um outro ponto que penso ter pas­sado des­per­ce­bido no debate e que tem de ser posto em foco. Refiro-me à ine­gá­vel assi­me­tria qua­li­ta­tiva entre os fun­da­men­ta­lis­mos ateísta e teísta, que tende a ser dis­far­çada pela sime­tria quan­ti­ta­tiva no que res­peita ao número e vari­e­dade de atro­ci­da­des resul­tan­tes de ambos. O que quero dizer com isto é que ao mesmo tempo que os reli­gi­o­sos “sofis­ti­ca­dos” se demar­cam dos cren­tes fun­da­men­ta­lis­tas por­que estes últi­mos são em geral indi­ví­duos igno­ran­tes (não ape­nas em ter­mos aca­dé­mi­cos mas acerca do mundo, da mora­li­dade, do que é ver­da­dei­ra­mente Deus, etc.), pare­cem que­rer dar a enten­der que o fun­da­men­ta­lista ateísta típico é um dita­dor de uma super­po­tên­cia polí­tica, eco­nó­mica e mili­tar. Não pode ser negado que há aqui uma assimetria.

    As per­gun­tas que coloco, por­tanto, são estas: onde estão os curto-circuitos dos fun­da­men­ta­lis­tas ateus igno­ran­tes? Tam­bém os há, segu­ra­mente. E se a grande van­ta­gem da reli­gião que legi­tima o desejo da sua pro­pa­ga­ção inde­pen­den­te­mente da exis­tên­cia de Deus é o código de con­duta que impõe aos “bár­ba­ros” por via de uma auto­ri­dade jus­ti­ceira invi­sí­vel, onde estão os casos conhe­ci­dos de cri­mes come­ti­dos por aque­les que se mos­tra­ram imu­nes a esse código, e que os come­te­ram por se assu­mi­rem como imu­nes a esse código? Ou será que para se ser um ateu imo­ral é pre­ciso pri­meiro ascender-se à posi­ção de líder auto­crá­tico de uma nação? Onde estão, afi­nal, os ateus “bár­ba­ros” violentos?

    Tal como é pos­sí­vel do ponto de vista de um crente sofis­ti­cado ser-se crente pelos moti­vos erra­dos, tam­bém é pos­sí­vel para um ateu sofis­ti­cado reco­nhe­cer certo tipo de ateísmo como defi­ci­ente na sua moti­va­ção. Posso dizer que conheço vários ateus “erra­dos”. São aque­les que são ateus por odi­a­rem a reli­gião, e geral­mente o Cato­li­cismo em par­ti­cu­lar. Isto pode acon­te­cer pelas mais vari­a­das razões. Alguns foram for­ça­dos a assis­tir à missa todas as sema­nas quando eram miú­dos e detes­ta­ram aquilo de tal modo que esse ódio à missa se tor­nou pre­missa para con­cluir o ódio à reli­gião como um todo. Outros par­tem do hor­ror dos cri­mes come­ti­dos ao longo da his­tó­ria e na actu­a­li­dade pelos supos­tos repre­sen­tan­tes de Deus na terra para a con­clu­são iló­gica da ine­xis­tên­cia de Deus. Outros ainda eram cató­li­cos mas como per­de­ram alguém pró­ximo de forma trá­gica convenceram-se de que foram enga­na­dos pela reli­gião por­que se aquilo que o padre dizia sobre Deus fosse ver­dade, essa pes­soa ou pes­soas não teriam mor­rido como mor­re­ram. Outros ainda, vários outros, foram víti­mas de abuso sexual por mem­bros do clero.

    Nenhum dos moti­vos supra­ci­ta­dos cons­ti­tui razão válida para se ser ateu por­que nenhum deles se baseia no pen­sa­mento raci­o­nal sobre Deus e sim numa reac­ção emo­ci­o­nal de algum modo ligada à reli­gião; em espe­cí­fico à reli­gião em par­ti­cu­lar que por um ou outro motivo dei­xou pior impres­são no indi­ví­duo em ques­tão. Estes ateus são tão fun­da­men­ta­lis­tas no seu ateísmo limi­tado quanto o é um fun­da­men­ta­lista reli­gi­oso na sua fé limi­tada. Diria mesmo que alguns des­tes ateus odeiam a reli­gião com a mesma vee­mên­cia com que os outros odeiam o ateísmo.

    Mas então, se assim é, se o ódio e a igno­rân­cia fun­da­men­ta­lista exis­tem de parte a parte, por que razão é neces­sá­rio ascen­der ao topo da pirâ­mide polí­tica de um Estado fas­cista para se encon­trar um ateu de pro­pen­são cri­mi­nosa ale­ga­da­mente por ser ateu? Por­que não se vêem no tele­jor­nal hor­das de ateus igno­ran­tes aos gri­tos na rua a cla­mar por san­gue reli­gi­oso? Vejo mani­fes­ta­ções pací­fi­cas mas não vejo san­gue nem mor­tes. Não pre­tendo que estas sejam per­gun­tas retó­ri­cas. É real­mente impor­tante que sejam respondidas.

    Penso que a expli­ca­ção terá algo a ver com o facto de o fun­da­men­ta­lismo ateísta igno­rante ser sem­pre a reac­ção de um jovem ou adulto con­tra a reli­gião e não o resul­tado de uma dou­tri­na­ção ini­ci­ada na infân­cia. Um fun­da­men­ta­lista reli­gi­oso define toda a sua iden­ti­dade como reli­gi­oso desde cri­ança mas um fun­da­men­ta­lista ateu não. O típico fun­da­men­ta­lista igno­rante ateu é alguém que a dada altura teve de rede­fi­nir a sua iden­ti­dade como alguém que não quer ter nada a ver com a reli­gião na qual foi edu­cado, ou com a qual teve con­tacto for­çado desde cedo, e que o desiludiu.

    Esse ódio ateísta, errado como todo o ódio é, manifesta-se em geral de forma posi­tiva no sen­tido prá­tico pelo afas­ta­mento deli­be­rado de tudo quanto é reli­gi­oso, incluindo as ati­tu­des imo­rais dos fun­da­men­ta­lis­tas reli­gi­o­sos tais como for­çar alguém a agir ou pen­sar de certa maneira. A ten­ta­tiva de pro­pa­gar uma ide­o­lo­gia à força é con­si­de­rada pelo ateu igno­rante como uma das carac­te­rís­ti­cas intrín­se­cas da reli­gião, e como tudo o que à reli­gião diz res­peito, é algo a evi­tar. A reli­gião assim con­si­de­rada como exem­plo de imo­ra­li­dade torna-se, por con­traste, um móbil para a mora­li­dade do ateu igno­rante. E de facto, per­gun­tem a um reli­gi­oso “sofis­ti­cado” se se sen­ti­ria mais seguro na com­pa­nhia de um fun­da­men­ta­lista igno­rante ateu ou de um reli­gi­oso. Outra per­gunta inte­res­sante seria a de quem na sua opi­nião teria uma espe­rança de vida mais longa: um cris­tão entre ateus fun­da­men­ta­lis­tas ou um ateu entre reli­gi­o­sos fun­da­men­ta­lis­tas. Peçam-lhe que jus­ti­fi­que a resposta.

    Não está, pois, demons­trado que tenha­mos de acei­tar o mal do fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso igno­rante a troco da rela­tiva paz que a reli­gião supos­ta­mente pela sua maior parte traz entre os menos civi­li­za­dos de nós. O fun­da­men­ta­lismo ateísta con­se­gue o mesmo sem o incon­ve­ni­ente dos aten­ta­dos, e só por isso merece ser con­si­de­rado melhor do ponto de vista prá­tico, ainda que tão errado quanto o seu con­trá­rio do ponto de vista teórico.

    Dito isto, edu­quem as cri­an­ças desde cedo a des­pre­zar toda a forma de dou­tri­na­ção e dei­xa­re­mos de pre­ci­sar de fun­da­men­ta­lis­mos de qual­quer espé­cie, ateus ou reli­gi­o­sos. Até lá, o ateísmo entre as mas­sas igno­ran­tes é mais do que fun­da­men­ta­lista. É fundamental.

     
  • Lúcio Mateus 18 de March de 2013, às 11:11 Permalink | Responder  

    O Erro do Ateísmo 

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    Lúcio Mateus

    Há momen­tos na vida de todo o ateu que não seja tímido quanto ao seu ateísmo em que o can­saço do debate com cren­tes e da troca inces­sante de argu­men­tos que se suce­dem como res­pon­sos auto­ma­ti­za­dos pesa sobre os ombros como uma cruz já com o Filho do Homem em anexo, sem que ao pobre ateu pros­trado possa valer algum pro­fano Simão de Cirene, por­que pri­meiro have­ria que deba­ter a his­to­ri­ci­dade da exis­tên­cia deste último de modo a legi­ti­mar a metá­fora. Esses são os dias em que tanto faz que Deus exista ou não por­que, seja­mos hones­tos, há coi­sas mais impor­tan­tes no mundo do que a sua origem.

    Nou­tros dias des­pre­za­mos a ati­tude des­crita no pará­grafo ante­rior de tal maneira que até muda­mos de pará­grafo só para evi­tar tão covarde com­pa­nhia. São esses os dias do com­bate, aque­les dias em que não nos impor­ta­mos de vol­tar ao menu de capí­tu­los do ateísmo e repe­tir os argu­men­tos do cos­tume do pri­meiro ao último, e em que per­de­mos tempo a meta­fo­ri­zar com lin­gua­gem da con­tem­po­ra­nei­dade só para evi­tar­mos a Res­sur­rei­ção do que quer que seja, ainda que ape­nas do defunto verbo “rebo­bi­nar”. Nes­ses dias acre­di­ta­mos ser impor­tante rei­te­rar os argu­men­tos uma e outra vez por­que pode ser que uma des­sas vezes seja a pri­meira que alguém os lê ou ouve. São os dias em que nos cruza o espí­rito o espan­toso pen­sa­mento de que todos os dias, incluindo nesse, nasce alguém que não sabe nada disto e que tem de ser edu­cado de raiz.

    E depois, entre uns e outros dias, há os Domin­gos. Escrevo estas linhas num Domingo, sozi­nho num quarto de hotel medi­ano per­dido algu­res num con­ti­nente em que parece só ser ateu quem é estran­geiro. Os Domin­gos são pro­pí­cios à refle­xão, e tal como os cató­li­cos os apro­vei­tam para recon­fir­mar a sua Fé, assim tam­bém os ateus os devem apro­vei­tar para recon­fir­mar o seu cep­ti­cismo. É com os fru­tos dessa auto-análise domin­gueira que inau­guro a minha par­ti­ci­pa­ção neste espaço. É um texto longo, bem sei, mas a posi­ção que pre­tendo defen­der é polé­mica e pode gerar alguma con­fu­são se mal expli­cada, pelo que pre­firo per­der os lei­to­res apres­sa­dos a per­der o res­peito dos restantes.

    Pas­sei por uma fase recen­te­mente em que por algum motivo os dias des­cri­tos no segundo pará­grafo pre­en­che­ram a mai­o­ria do calen­dá­rio. Durante essa fase, em con­versa com um amigo cató­lico, dei por mim a acres­cen­tar a um argu­mento já muito gasto um invul­gar coro­lá­rio: “é abso­lu­ta­mente impos­sí­vel converter-me”.

    A frase soou-me mal logo no momento em que a pro­feri mas como estava a meio de um debate não pen­sei mais nela na altura e concentrei-me em con­ti­nuar a pro­cu­rar nos catá­lo­gos da memó­ria o res­ponso ateu apro­pri­ado ao dis­curso cató­lico que se seguiu ao meu argu­mento. Ter­mi­nada a dia­tribe teo­ló­gica do dia cada um foi para sua casa con­ven­cido exac­ta­mente do mesmo de que estava con­ven­cido na vés­pera. Como pres­senti nesse momento que estava a entrar num daque­les dias de pri­meiro pará­grafo não pen­sei mais no assunto, mas como escre­veu o Bardo, ‘Foul deeds will rise, though all the earth o’erwhelm them to men’s eyes’, e a cons­ci­ên­cia pesada forçou-me a pen­sar no caso.

    Dos tais ateus que não sejam tími­dos quanto ao seu ateísmo não deve haver um único que não tenha ouvido a dada altura o velho argu­mento de que “o ateísmo acaba por ser tam­bém uma forma de fé”. Se a frase tivesse algum fundo de ver­dade e o ateísmo pudesse ser con­si­de­rado reli­gião, levar com este argu­mento seria sem dúvida o seu bap­tismo. É um argu­mento fácil de reba­ter, como se sabe. Há vários res­pon­sos pos­sí­veis mas um dos mais típi­cos con­siste em dizer que o ateu renun­ci­a­ria à sua “fé” de ime­di­ato se Jesus ou qual­quer outra divin­dade deci­disse aparecer-lhe à frente, ao passo que nada faria demo­ver um reli­gi­oso devoto da sua crença. Ergo, ateísmo não é fé.

    Este é um argu­mento comum. Igual­mente comum, por outro lado, é dizer-se na senda do Daw­kins que todos aque­les que afir­mam ter real­mente visto Jesus ou “expe­ri­men­tado” Deus de alguma forma foram víti­mas de alu­ci­na­ção. Usa­mos uma de várias ver­sões desse argu­mento para refu­tar expli­ca­ções sobre­na­tu­rais de fenó­me­nos estra­nhos, como o das piru­e­tas do Sol sobre a Cova da Iria, por exem­plo, ale­ga­da­mente pre­visto pelos pas­to­ri­nhos e tes­te­mu­nhado por milhares.

    Ora, sendo eu um dos uti­li­za­do­res fre­quen­tes desse tipo de argu­mento não pude dei­xar de cons­ta­tar uma con­tra­di­ção no meu raci­o­cí­nio enquanto ateu. Por um lado digo que (1) a minha posi­ção distingue-se de a de um reli­gi­oso por ser fal­si­fi­cá­vel, nome­a­da­mente por via de uma mani­fes­ta­ção “clara e dis­tinta” do sobre­na­tu­ral; e por outro digo que (2) nunca pode haver uma mani­fes­ta­ção clara e dis­tinta do sobre­na­tu­ral por­que a expli­ca­ção de uma tal expe­ri­ên­cia por via da alu­ci­na­ção será sem­pre mais plau­sí­vel, não só por­que não sabe­mos tanto sobre o cére­bro que pos­sa­mos des­car­tar essa hipó­tese em bene­fí­cio de uma que envolva agên­cia divina, mas tam­bém por­que uma expli­ca­ção natu­ral será sem­pre mais ele­gante e eco­nó­mica do que a sobre­na­tu­ral e, logo, pre­fe­rí­vel. A con­clu­são ine­vi­tá­vel, para­fra­se­ando Sto. Agos­ti­nho numa das suas auto-análises, é que (3) o meu ateísmo é fal­si­fi­cá­vel se não me per­gun­ta­rem em que cir­cuns­tân­cias o seria, e se mo per­gun­ta­rem, não o é.

    O único momento em que vi alguém con­fron­tar o Daw­kins direc­ta­mente com esta objec­ção foi neste evento. No minuto 31:10 o men­te­capto com quem ele debate põe na mesa a ques­tão do tipo de prova não cien­tí­fica que pode­ria ainda assim ser con­tado como prova de algo. O Daw­kins admite a exis­tên­cia de tais pro­vas e argu­menta nesse sen­tido. Pouco depois é dada a pala­vra a um mem­bro do público que per­gunta direc­ta­mente ao Daw­kins qual seria a sua reac­ção se Deus um dia deci­disse revelar-se-lhe expli­ci­ta­mente. A res­posta começa por ser brin­ca­lhona mas pouco depois o Daw­kins diz que já pen­sou nisso várias vezes por uma ques­tão de escrú­pulo cien­tí­fico, e que até já dis­cu­tiu o assunto em pro­fun­di­dade com cole­gas. No entanto, no que se segue diz aber­ta­mente que mesmo que se desse uma tal mani­fes­ta­ção pode­ria ainda assim ser con­si­de­rada uma ilu­são. O vídeo parece estar edi­tado nesse ponto mas o pen­sa­mento por detrás da res­posta é patente: qual­quer puta­tiva mani­fes­ta­ção do divino pode e deve ser sem­pre impu­tada a um des­vio da acti­vi­dade cog­ni­tiva nor­mal, pelo que nunca poderá haver pro­vas con­vin­cen­tes da exis­tên­cia de Deus ainda que Ele pusesse o Sol a sal­ti­tar no céu ou fizesse ele­ger um Papa argentino.

    Isto preocupa-me por­que ape­sar de dis­cor­dar do Daw­kins em quase tudo tenho de con­cor­dar com ele neste aspecto, e ao con­cor­dar com ele tenho de admi­tir, por muito que me custe, que a defesa de uma posi­ção de tal modo ina­mo­ví­vel soa a fun­da­men­ta­lismo. É um facto: se Jesus me apa­re­cesse à frente em toda a sua gló­ria, anun­ci­asse ser o filho uni­gé­nito de Deus e sus­ten­tasse essa afir­ma­ção curando-me a esco­li­ose nem assim eu o reco­nhe­ce­ria como tal – não por ter alguma aver­são figa­dal à ideia de Deus (não tenho) mas por con­si­de­rar que mesmo essa mani­fes­ta­ção não seria prova sufi­ci­ente da sua exis­tên­cia visto que teria de eli­mi­nar todas as expli­ca­ções natu­rais pos­sí­veis para o fenó­meno antes de che­gar a essa, o que é impos­sí­vel na ausên­cia de um conhe­ci­mento per­feito do natu­ral. Como é óbvio, a for­ti­ori,o mesmo aplica-se às ques­tões da ori­gem do uni­verso e da vida, à natu­reza da cons­ci­ên­cia, etc.

    Nou­tros ter­mos, a mais raci­o­nal expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para o que quer que seja é e será sem­pre ainda assim menos plau­sí­vel do que a mais implau­sí­vel e irra­ci­o­nal expli­ca­ção natu­ral. É evi­dente que assim é visto que raci­o­nal­mente somos for­ça­dos a impu­tar o inex­pli­cá­vel e o irra­ci­o­nal às nos­sas limi­ta­ções antes de tran­subs­tan­ci­ar­mos a igno­rân­cia que delas decorre em conhe­ci­mento sobre o sobre­na­tu­ral. Admi­tir que a expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para um fenó­meno mis­te­ri­oso é a mais plau­sí­vel de todas implica admi­tir que ape­nas pela força da Razão con­se­gui­mos inva­li­dar por com­pleto todas as expli­ca­ções natu­rais alter­na­ti­vas. Ora, ape­nas numa cir­cuns­tân­cia seria legí­timo admi­tir essa pos­si­bi­li­dade: se a Razão tivesse uma ori­gem sobre­na­tu­ral. Uma vez que é pre­ci­sa­mente isso que está em causa, resta-nos admi­tir que não basta ter-se Razão para se ter razão. Ou seja, o limite do raci­o­nal não é o do sobre­na­tu­ral, é o do irra­ci­o­nal – e raci­o­nal­mente nada impede que o irra­ci­o­nal seja, ainda assim, natural.

    Nesta pers­pec­tiva, parece haver ape­nas uma forma de evi­tar o epí­teto de ateu fun­da­men­ta­lista, que é o de acei­tar o de agnós­tico. O ateísmo enquanto posi­ção de que “não creio em Deus nem no sobre­na­tu­ral em geral por­que não há razões para crer na sua exis­tên­cia” contradiz-se por ser uma posi­ção que não admite a pos­si­bi­li­dade de exis­ti­rem tais razões. Ou seja, o mais desa­ver­go­nhado dos deu­ses não con­se­gui­ria ainda assim per­su­a­dir um ateu con­victo de que não se tra­tava de uma alu­ci­na­ção, por mais que ten­tasse. Assim sendo, em que se dis­tin­gue do dog­ma­tismo reli­gi­oso per­se­ve­rar na afir­ma­ção de que Deus muito pro­va­vel­mente não existe se não há pos­si­bi­li­dade de haver prova do con­trá­rio? Alguns ateus dirão que não acre­di­tam por­que não houve prova do con­trá­rio até ao momento, mas que estão dis­pos­tos a acei­tar a pos­si­bi­li­dade de haver tais pro­vas. Cui­dado: assim que o fize­rem, se qui­se­rem manter-se coe­ren­tes, terão de assumir-se como agnós­ti­cos a res­peito de todos os mila­gres que não tes­te­mu­nha­ram pes­so­al­mente – mais espe­ci­fi­ca­mente, terão de dei­xar em aberto a pos­si­bi­li­dade de terem sido con­ver­ti­dos na Cova da Iria se lá tives­sem estado e calarem-se acerca de quem lá esteve. E eis-nos regres­sa­dos ao agnosticismo.

    Por tudo isto, na minha opi­nião o con­ceito de ateísmo deve ser repen­sado. O ateísmo, pelos moti­vos atrás des­cri­tos, não é fal­si­fi­cá­vel, tal como o teísmo não é. Assim, mesmo que se assuma como para­digma epis­te­mo­ló­gico e não onto­ló­gico, o ateísmo não esca­pará à acu­sa­ção de uma certa dose de fun­da­men­ta­lismo. Os ateus dizem com frequên­cia que não acre­di­tam em Deus pelo mesmo motivo que não acre­di­tam em uni­cór­nios. É falso. Seria fací­limo provar-se a exis­tên­cia de uni­cór­nios. Sendo uma cri­a­tura física, bas­ta­ria apa­re­cer um. Outras vezes compara-se a crença em Deus à crença no Pai Natal. Esta com­pa­ra­ção é mais ade­quada por­que nenhum ateu acei­ta­ria reco­nhe­cer alguém como “o genuíno Pai Natal” por mais pro­vas que lhe fos­sem dadas, uma vez que a pos­si­bi­li­dade do engano seria sem­pre mais plau­sí­vel do que a alter­na­tiva. Por estes e outros moti­vos o dilema parece ine­vi­tá­vel: ou agnós­tico meta­fí­sico, ou ateu fundamentalista.

    Ora, na ver­dade o dilema não é ine­vi­tá­vel, com uma con­di­ção: a de o ateísmo dei­xar de ser con­si­de­rado uma posi­ção onto­ló­gica ou mesmo epis­te­mo­ló­gica e se assu­mir como a posi­ção reac­tiva que é, ou seja, que deixe de ser a posi­ção segundo a qual é quase certo Deus não existe e se assuma como a posi­ção bem dife­rente de que o teísmo é injus­ti­fi­cá­vel. Segundo esta última pers­pec­tiva, o ateísmo tornar-se-ia algo como um “agnos­ti­cismo mili­tante”, avesso a tudo quanto fosse crença na maior ou menor pro­ba­bi­li­dade da exis­tên­cia ou ine­xis­tên­cia de Deus (por­que não pode haver prova alguma a res­peito de qual­quer das alter­na­ti­vas), mas em espe­cial avesso à crença teísta por ser, por um lado, a que mais dis­tante se encon­tra da única posi­ção epis­te­mo­lo­gi­ca­mente defen­sá­vel que é a do agnos­ti­cismo meta­fí­sico, e por outro, por ser em todos os aspec­tos o mais per­ni­ci­oso dos erros de pensamento.

    Enquanto reac­ção, logo, o objec­tivo último de qual­quer movi­mento ateísta não deve­ria ser o de che­gar­mos a um ponto em que todos negas­sem a exis­tên­cia de Deus, mas em que todos assu­mis­sem que não pode haver conhe­ci­mento algum sobre o que à maior ou menor pro­ba­bi­li­dade da exis­tên­cia do sobre­na­tu­ral con­cerne. Nesse dia utó­pico em que o teísmo se extin­gui­ria por fim extinguir-se-ia tam­bém o ateísmo por se tor­nar des­ne­ces­sá­rio; e uni­dos na cons­ci­ên­cia da nossa igno­rân­cia abso­luta acerca de tudo o que ultra­pas­sasse o uni­verso físico, pode­ría­mos aban­do­nar todos os fun­da­men­ta­lis­mos (a)teístas e come­çar­mos final­mente a preocupar-nos com coi­sas sérias. Não sei quando esse dia che­gará ou sequer se che­gará. O que sei é que muito pro­va­vel­mente será num Domingo.

     
    • mestrini 15 de Abril de 2013, às 10:23 Permalink | Responder

      Boas Lúcio,

      é com grande pra­zer que releio teus tex­tos gran­des e gran­des textos.

      Con­cordo con­tigo no fun­da­men­tal pois um cético e raci­o­nal tem sem­pre que por em cima da mesa a pos­si­bi­li­dade de vir a ser con­fron­tado com a exis­tên­cia de algo que é, a pri­ori, con­si­de­rado impos­sí­vel de acontecer/existir.

      No entanto, nesta sec­ção: “Admi­tir que a expli­ca­ção sobre­na­tu­ral para um fenó­meno mis­te­ri­oso é a mais plau­sí­vel de todas implica admi­tir que ape­nas pela força da Razão con­se­gui­mos inva­li­dar por com­pleto todas as expli­ca­ções natu­rais alter­na­ti­vas.” penso que par­tes do prin­cí­pio, a meu ver, errado de que não existe nada que uma pos­sí­vel divin­dade possa fazer a um ser humano que este não con­siga dis­tin­guir de alu­ci­na­ção.
      Excluir todas as pos­sí­veis mani­fes­ta­ções ape­nas por­que não temos capa­ci­dade de as ima­gi­nar parece-me errado. Vem-me à memó­ria o argu­mento dos mem­bros dos ampu­ta­dos, ou mesmo daque­les que nunca os tive­ram, cres­ce­rem até a um estado fun­ci­o­nal. Mas pode­ría­mos ima­gi­nar outros como aquela cena do Indi­ana Jones e o tem­plo per­dido em que o fei­ti­ceiro saca o cora­ção à vítima de sacrifício.

      Cum­pri­men­tos

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