Só sei que nada sei

Hoje
O desenvolvimento de instrumentos de pesquisa cada vez melhores nos faz avançar incessantemente na observação de incontáveis fenômenos. Produzimos conhecimentos de tudo quanto é tipo a todo momento, mas enfrentamos hoje alguns problemas fundamentais que atravancam a comunicação entre o saber e as pessoas. No meio deste intrincado de agravantes está o excesso de informações específicas, a incomunicabilidade entre disciplinas do conhecimento e o confronto entre a ciência e os interesses dos poderosos.
Uma das consequências do sistema de pensamento que desenvolvemos nos últimos séculos foi categorizar excessivamente os conhecimentos. Aquela alienação do trabalho, velha conhecida da sociologia, foi repassada ao conhecimento à medida em que este ia se transformando em capital. O saber tornava-se centralizado no especialista e controlado pelo dono da instituição de pesquisa. Aos subordinados é dado saber apenas o necessário para a execução de tarefas pré-determinadas. Ao público geral resta o ponto de vista do repórter sem qualquer formação científica que foi obrigado a ler o artigo em outra língua para fazer a reportagem de meia página resumindo anos de estudo.
Hoje temos inúmeras pesquisas sobre os mais variados temas, mas nem sempre elas se encontram, se complementam e assim o conhecimento permanece mal aproveitado, com aplicações práticas limitadas pela compreensão fragmentada. Como consequência, a parcela do conhecimento adquirido que é repassada à população se fixa conforme seu alcance publicitário e ficamos com a sensação de que a ciência se desmente o tempo todo, quando na verdade o que falta é integração dos resultados já obtidos, melhor revisão por pares ou excesso de interesses políticos deformando a informação. Sabemos muito, mas não sabemos o quanto.
Ontem
Se por um lado, tivemos Da Vinci e outros multi-pesquisadores que discorriam livremente entre diversas ciências, hoje temos um emaranhado de técnicos que mal compreendem sua própria função. Este estado de coisas nada prático nos leva a crer que ainda não encontramos uma maneira eficaz de nos organizar a partir das mudanças que a eletricidade trouxe consigo. Na verdade, ainda não chegamos sequer à estabilidade de conceitos, uma vez que a qualquer momento surge uma nova tecnologia que muda o modo como fazíamos algo ou compreendíamos determinado assunto.
Vindos de um sistema que respondia a tudo (embora fantasiosa, a resposta religiosa acalma a angústia), ainda não vencemos nem o hábito de lançar mão de conjecturas para preencher lacunas, nem o de permanecer temporariamente sem resposta. E pior ainda, identificamos o papel do cientista ao do antigo xamã decifrador de mistérios. Essa identificação, no imaginário popular, distancia a realidade, pois o próprio cientista muitas vezes ainda se confunde, desconsidera suas emoções, seus desejos e expectativas e acaba “contaminando” com elas seus resultados. Por outro lado, o povo não perdoa um erro divino, acostumado que está a submeter-se às intransigências das divindades, aceita mal os recuos e revisões que a ciência faz sobre si mesma, desacreditando-a como se esta já estivesse pronta e concluída em definitivo e um erro fosse a prova de sua falibilidade radical.
Povo, cientista, religioso ou político, o fato é que ainda não conseguimos compreender bem o que se passa. Seguem todos inseguros, indecisos, indefinidos. Os “tomos” generalizadores que o séc. XIX tornou populares, mostraram-se atolados em equívocos, mas à guisa de outras fontes e diante da ausência de conhecimento frente às novas tecnologias, permanecemos nos referindo a eles como fontes legítimas do conhecimento, quando na verdade o próprio funcionamento cerebral do ser humano hoje é diferente do que havia quando tais tomos foram escritos.
Para citar um exemplo sem ofender muitas classes (desculpem, amigos psicanalistas!), vou usar Freud. Médico, Freud estudou hipnose, lançou mão de substâncias psicoativas e desenvolveu todo um método de tratamento fundamentado em uma teoria inovadora sobre o funcionamento psíquico do homem do séc. XIX. Mas Freud não conheceu a televisão, o controle remoto, o computador, a internet, as câmeras de segurança, a mini-saia, o topless, o movimento LGBT, a igreja universal, o interruptor de parede, o carro a duzentos por hora, o trem bala, a propaganda no Japão, a vida na Índia, na China, no Brasil… Sem estes conhecimentos é impossível dizer que sua teoria teria permanecido a mesma, pois as variáveis às quais as sociedades metropolitanas dos anos 2000 respondem são muito diferentes daquelas a que a sociedade vienense do final do século XIX estava submetida.
A cultura da informação
As pesquisas que desenvolvemos depois de Freud já identificaram genes da esquizofrenia, criaram tratamentos químicos para compulsões e tristezas crônicas, mapearam o cérebro de diversos indivíduos, redefiniram processos, identificaram variáveis que ele não considerou como a influência da alimentação no humor ou na aprendizagem. Desde sua época a ciência produziu centenas de novas informações acerca do funcionamento cerebral, da consciência e da cognição. É certo que o conhecimento científico ainda levará um tempo para ser reunido de forma integrada e coerente, mas mesmo assim, a sociedade da informação tornou o conhecimento acessível a quem quiser. Basta-nos exercitar nossas capacidades de síntese e crítica. O que nem sempre dá bons resultados, diga-se de passagem…
O homem moderno não se tornou cético por um movimento reflexivo acerca de sua história. O ceticismo moderno é reativo. Duvidamos porque já acreditamos em tanta “propaganda” errada ou diversa que ficamos meio receosos de mudar de postura por mais um conhecimento que mudará em breve. Não fomos estimulados, treinados para “ouvir tudo e reter o que é bom” e nesse dilúvio de informações, nos vemos pela primeira sem uma verdade a priori, tendo que decidir por nós mesmos em que acreditar.
O Estado laico e o indivíduo responsável
De certa forma, ao tornar-se laico e deixar de privilegiar uma teoria sobre todas as outras, o Estado lançou o homem na angústia existencial sartriana, mas num âmbito social. Enfrentamos hoje, perdidos na multidão, o desespero, o desamparo e a angústia característicos dos que abandonaram as verdades absolutas. O Estado deixou de ser divino e sem poderes atemporais que justifiquem arbitrariedades, a própria constituição, o código moral do Estado, tornou-se anacrônica. Já não é possível determinar as leis conforme as preferências pessoais de um governante adolescente. É necessário bagagem, competência, evidências e muita oratória para obter o apoio da maioria da população.
Sem referências sagradas vemos surgir os mesmos movimentos comuns aos períodos em que a identidade do ser humano entra em crise: grupos fundamentalistas conservadores lutam desesperadamente para manter de pé o que grupos rebeldes insistem em sacudir. Há, no entanto, uma diferença do que até então acontecia: desta vez não há UM pensamento hegemônico que reforce e garanta vantagens à corrente conservadora. O próprio conservadorismo está já radicalmente partido em várias teorias que se rejeitam mutuamente, evitando uma cooperação eficiente entre todos os seus braços.
A ampliação do conhecimento criou cisões até nos setores mais unificados. A variabilidade é tão grande, os encontros e as trocas culturais tão frequentes, que talvez seja justo chamar nossa época de subatômica, fazendo uma analogia com aquele átomo que o século XIX acreditava ser a menor de todas as partículas. Hoje ele ganhou novos pedacinhos, sabores, direções… Descobrimos que dentro do menor há muitos outros menores. São tantas as dimensões do mundo subatômico que mal lembramos do átomo em si. Entretanto, a interdependência das partes e seu impacto no comportamento do todo estão cada vez mais claras e inegáveis.
Amanhã
Criamos uma sociedade global regida por uma espécie de efeito borboleta que integra todas as pequenas sociedades em um todo que ainda não sabemos bem como funciona, mas que quando algo não vai bem em alguma parte, todos acabamos mais ou menos afetados. O que caracteriza esse início de século é que a fronteira que dividia os grupos sociais alcançou a atmosfera e esvaziou-se. Sem querer unificamos o organismo social humano de tal maneira que agora a decisão tomada em Tóquio, Washington ou qualquer outra “capital política” pode interferir diretamente na qualidade de vida do resto do mundo.
A realidade que criamos urge que façamos as pazes com nós mesmos e voltemos a nos ver como espécie única para que possamos resolver os problemas que criamos quando éramos muitas categorias diferentes de iguais. Assim como o conhecimento já não podemos nos sustentar com categorias que já não fazem sentido. Não há limites reais entre a física, a química e a biologia, assim como entre europeus, asiáticos e africanos ou budistas, cristãos e umbandistas. São apenas categorias que já não explicam a diversidade em seu próprio interior.
A globalização não trata apenas de um fenômeno econômico. Podemos perceber reflexos deste movimento integracionista em tudo o que é humano. Da arte à medicina, da televisão à geladeira. Os limites, em poucas décadas, se reduziram a uma questão de tempo. Passamos daquele momento histórico em que era preciso reconhecer que não sabíamos. Sabemos. Sabemos até que não sabemos tudo. Mas tal como uma bola de neve que já vai montanha abaixo, atingimos um ponto sem volta e daqui para a frente o desenvolvimento tecnológico determinará mudanças culturais drásticas, quer estejamos preparados para elas, quer não. Bem vindos aos século XXI, o lugar onde cada gesto conta.
Adaptação de parte do texto “O desenvolvimento do pensamento humano II — a trajetória do pensamento científico”.
Para saber mais sobre as formas de pensamento que deram origem à ciência, leia também “O desenvolvimento do pensamento humano — da magia à ciência”.