O bicho-homem, o homem-deus e nossos demônios

Homem colorido

Sabe aque­les dias em que acor­da­mos um pouco mais irri­tá­veis e, coin­ci­den­te­mente, tro­pe­ça­mos com a estu­pi­dez humana da manhã até à noite? Espa­ços dedi­ca­dos a se extra­va­sar em dias de fúria deve­riam ser ques­tão de saúde pública. A soci­e­dade moderna reti­rou do Homem tudo o que era ins­tin­tivo e não deu nada em troca. Pelo menos nada à altura! Ine­vi­tá­vel lem­brar do mito da caverna. Tro­ca­mos o real pelo sim­bó­lico com uma cer­teza ina­ba­lá­vel de que este é o único cami­nho para nos tor­nar­mos ple­na­mente humanos.

O coti­di­ano humano con­siste em ir de um cubí­culo a outro, den­tro de um pequeno cubí­culo com rodas, sem­pre com nos­sos óculos escu­ros e pro­te­to­res sola­res, ater­ro­ri­za­dos com os efei­tos noci­vos do nosso pri­meiro deus, o Sol. Quando que­re­mos nos exer­ci­tar, pega­mos nos­sos cubí­cu­los moto­ri­za­dos para irmos a cubí­cu­los cheios de fer­ros e espe­lhos para pra­ti­car­mos movi­men­tos mime­ti­za­dos e repe­ti­ti­vos com toda  a seri­e­dade de quem está a sal­var a pró­pria vida. Temos até cubí­cu­los lumi­no­sos cui­da­do­sa­mente colo­ca­dos sobre pedes­tais em nos­sas salas para quando a ten­ta­ção é grande e que­re­mos ver um pouco daquilo que eles cha­mam de “mundo lá fora”!

Nas cida­des gran­des, o ar tem cheiro de fumaça de carro, gros­sas cama­das de pó se depo­si­tam sobre tudo, dei­xando o hori­zonte gra­du­al­mente cinza e quem insiste em usar as pró­prias per­nas para andar, acaba sendo obri­gado a se tor­nar fumante ativo de óleo de dinos­sauro quei­mado. As árvo­res foram rele­ga­das às reser­vas e algu­mas pra­ças, os oásis arti­fi­ci­ais do con­creto. Os pás­sa­ros e inse­tos colo­ri­dos, cada dia em menor número, vão de pouco em pouco sendo subs­ti­tuí­dos pelos cin­zas e mar­rons, mais aptos a se camu­flar no novo cená­rio. Os rios e cór­re­gos foram trans­for­ma­dos em depó­sito de res­tos huma­nos. E como dei­xa­mos restos!

Olhar para fora resulta sem­pre em um mundo mono­cro­má­tico e à noite já é quase impos­sí­vel ver estre­las no céu. Ainda há lua? Difí­cil pre­ci­sar seu ciclo de den­tro dos cubí­cu­los empi­lha­dos em altos edi­fí­cios para­le­los. A mes­mice embo­tou a curi­o­si­dade. A apa­tia se tor­nou a melhor defesa no mundo das mul­ti­dões. E quando acon­tece algo que nos obriga a olhar para fora, a reco­nhe­cer o quão arti­fi­cial é o nosso “meio ambi­ente”, o quão longe esta­mos de nos­sas neces­si­da­des bási­cas, o des­con­forto é tão grande que as pes­soas são lan­ça­das a um estado de bestas-feras.

Não sou adepta da psi­ca­ná­lise, mas boas expli­ca­ções devem ser leva­das em conta… É como se tivés­se­mos recal­cado tão vio­len­ta­mente nosso bicho-homem para nos tor­nar­mos esses homens-deuses de hoje que, quando a natu­reza ou qual­quer outra força incon­tro­lá­vel nos con­fronta, tudo aquilo que estava repre­sado irrompe numa tor­rente absurda de bes­ti­a­li­dade. Não que­re­mos, em hipó­tese alguma sair de nossa caverna segura, mesmo que o preço de viver no escuro seja a cegueira e a hiper­sen­si­bi­li­dade. Mas final­mente os sécu­los de ener­gia mal dire­ci­o­nada e o excesso de pes­soas nos gran­des cen­tros urba­nos fize­ram a balança des­com­pen­sar inegavelmente.

Esta­mos exau­rindo o pla­neta, já o cobri­mos de tal forma que onde quer que seja aces­sí­vel e cul­ti­vá­vel, lá encon­tra­re­mos uma cerca. Esta ocu­pa­ção ter­ri­to­rial cada vez mais densa invi­a­bi­liza a mobi­li­dade natu­ral do bicho-homem e o faz con­vi­ver com uma vari­a­bi­li­dade maior de cos­tu­mes indi­vi­du­ais do que está pro­gra­mado bio­lo­gi­ca­mente para absor­ver. Com isso a mul­ti­dão for­çou o empi­lha­mento não só dos indi­ví­duos, mas tam­bém das peque­nas comu­ni­da­des que se for­mam aos bor­bo­tões para res­pon­der ao pro­blema da iden­ti­dade frente a um mundo cinza e api­nhado de pes­soas estra­nhas que cha­ma­mos de urbe moderna.

Para pio­rar o cená­rio, nossa neces­si­dade de cimen­tar tudo e afas­tar da cidade tudo o que lem­bre a natu­reza aca­bou por con­ju­rar sobre nós, da forma mais irô­nica e estú­pida pos­sí­vel, as mes­mas for­ças que pen­sá­va­mos con­tro­lar enquanto aplai­ná­va­mos as coli­nas e enca­ná­va­mos nos­sos ria­chos. Exa­ge­ra­mos tanto na dose que agora nos­sos rios vomi­tam sobre nós nossa imun­dí­cie, nos­sas mon­ta­nhas pela­das lançam-se sobre nós engo­lindo nos­sas casas, raios caem sobre nos­sos altos edi­fí­cios fri­tando nos­sas tele­vi­sões de plasma, a natu­reza arre­benta nos­sas jane­las de blin­dex com seus fura­cões e tsu­na­mis, impede o turismo com negras nuvens piro­clás­ti­cas, espa­lha doen­ças nos ges­tos de amor…

Então, quando um dis­traído nos fecha no trân­sito que não anda há qua­renta minu­tos e nos coloca frente a frente com a estu­pi­dez do cubí­culo engar­ra­fado, não é o homem den­tro de nós que reage e surra o outro moto­rista até a morte. O que reage é o demô­nio que sur­giu do assas­si­nato dos nos­sos ins­tin­tos pelo pro­cesso civi­li­za­tó­rio. Quando sacri­fi­ca­mos nosso bicho inte­rior para nos tor­nar­mos homens-deuses, cri­a­mos tam­bém um demô­nio sobre o qual não exer­ce­mos mais con­trole. A beleza de nos­sas caver­nas não passa de uma ilu­são e seu alu­guel tem ficado cada dia mais caro.

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